Marcas de Canteiro na Batalha: Oficina de Pedra no MCCB
Numa oficina familiar do MCCB, talha-se uma marca de canteiro num bloco de calcário ançã, a mesma pedra que veste o mosteiro. Saí com uma pedra rude debaixo do braço e a noção concreta do que custou cada metro daquela fachada gótica.
Há uma anedota repetida nos cafés da Batalha: quando os mestres canteiros do mosteiro morriam, eram enterrados perto da pedra que tinham talhado. Os túmulos sumiram, mas as marcas continuam visíveis se souber onde olhar. Pequenos sinais gravados nos blocos, alguns no chão, outros à altura do peito, com o feitio de letras, cruzes, anzóis, estrelas. Cada canteiro tinha a sua. Era a forma como cobravam o trabalho.
O Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, ou MCCB, faz desta tradição o ponto de partida para uma oficina familiar chamada Marcas de Canteiro. Não é a experiência empacotada para a plataforma turística da moda. É discreta, gratuita na maior parte das edições, e enche-se com quem já percebeu que o calcário do Maciço Estremenho é a verdadeira matéria-prima de toda esta região.
Onde fica e como funciona
O museu está no Largo Goa, Damão e Diu, número 4, a dois minutos a pé do mosteiro. Se vier de carro, há lugar gratuito junto ao Multiusos. Se vier de comboio até Leiria e apanhar autocarro para a Batalha, sai mesmo em frente. As oficinas decorrem aos sábados ou em férias escolares, com inscrição obrigatória e lugares limitados a uma quinzena de pessoas.
O preço varia consoante a sessão. Algumas, integradas em programações como os Dias Europeus do Património ou o ciclo dedicado à pedra, são gratuitas. Outras, ligadas a férias e residências artísticas, podem ter um valor simbólico. A regra que aprendi a respeitar: telefonar para o (+351) 244 769 878 ou enviar email para [email protected] com uma semana de antecedência. Não há marcação on-line, e os calendários aparecem com pouca antecipação na agenda do museu. Confirme o preço diretamente com o serviço educativo antes de aparecer.
O que se faz na oficina
A sessão começa numa sala com chão de calcário e paredes brancas. Vê-se uma seleção de pedras com marcas autênticas, tiradas de obras antigas do concelho, e fac-símiles de documentos do mosteiro onde os pagamentos por marca estavam registados. Os monitores explicam, com paciência, que aquilo não era arte. Era contabilidade. Cada equipa tinha o seu sinal, gravava-o no canto da peça acabada, e o escrivão contava as marcas no fim do mês.
Depois passa-se à parte prática. Recebe-se um pedaço de calcário ançã, a mesma variedade clara e dócil que cobre o mosteiro, com cerca de quinze por dez centímetros. Recebe-se também um cinzel pequeno, um maço de borracha, e óculos de proteção. O monitor mostra o ângulo de ataque do cinzel, normalmente quarenta e cinco graus, e como a pedra responde a golpes curtos e secos. Aprende-se em meia hora a sulcar uma linha. Aprende-se em cinco minutos que se pode estragar tudo se forçar.
O melhor momento, na minha opinião, é quando se escolhe a marca pessoal. Os monitores trazem um dossier com mais de cem marcas catalogadas no Mosteiro da Batalha. Pode inventar uma de raiz, adoptar uma que tenha aparecido num bloco do claustro real, ou cruzar duas. Vi um miúdo de oito anos copiar uma marca que parecia uma forquilha invertida e descobrir, pelo monitor, que aquela mesma figura existe gravada num degrau das Capelas Imperfeitas. Saiu de lá com a pedra debaixo do braço como quem leva um diploma.
O que levar e o que vestir
- Calçado fechado. O pó do calcário fica em todo o lado e areia fina escapa-se entre as sandálias.
- Roupa que não se importe de sujar. Fica branca de poeira fina nas mangas e nos joelhos. Sai à máquina, mas é tema de fim de tarde.
- Garrafa de água. O museu tem bebedouro, mas é mais prático trazer a sua.
- Câmara, sem flash dentro das salas de exposição permanente.
- Se vier com criança abaixo dos seis anos, fale com o serviço educativo antes. Têm versão adaptada com pedras macias e ferramentas de plástico, mas precisam de organizar.
O resto do dia, sem fórmula
A oficina dura entre noventa minutos e duas horas. O museu vale outra hora a seguir, principalmente a exposição A Pedra e a Batalha: da matéria à vida, que liga geologia, ofício e comunidade. Recomendo deixar o mosteiro para o fim da manhã, depois da oficina, com a noção fresca do que custou cada metro daquela pedra. Ler o nosso guia da história da Batalha antes de chegar dá contexto. Para o lado mais arquitetónico, vale espreitar o ensaio sobre a geometria da promessa e o silêncio da pedra.
Para almoçar, vou ao Restaurante Dom Duarte, a dois quarteirões do museu, onde o bacalhau na brasa custa metade do preço dos sítios virados ao mosteiro. Ao fim da tarde, suba ao Miradouro da Portela das Cruzes para ver a sombra da serra a engolir o vale. Em maio e junho a luz cai com lentidão, e o calcário fica cor de mel.
O que tirar daqui
É raro sair de uma oficina destas com a sensação de que se aprendeu uma coisa útil. A maior parte das experiências turísticas portuguesas entrega um produto bonito e oco. Aqui, leva-se uma pedra rude com um sinal feito por nós e a noção concreta de quanto trabalho está por trás de uma fachada como a do mosteiro. Da próxima vez que entrar nas Capelas Imperfeitas, vai dar por si a procurar, em meio metro quadrado de pedra, três ou quatro marcas que de outra forma teria atravessado sem ver. É uma forma diferente de visitar a Batalha, mais lenta, mais física, mais honesta. E continua a ser uma das coisas mais baratas que se pode fazer aqui.