Fábrica do Burel a partir de Gouveia: Visita aos Lanifícios da Serra
A Burel Factory fica em Manteigas, a 45 minutos de Gouveia, e por 5€ leva-o pelo chão de fábrica enquanto máquinas de 1947 ainda batem. Reserve a visita das 11h, leve sapatos fechados, e combine com almoço de truta em Manteigas.
A primeira coisa a saber é que a fábrica não fica em Gouveia. A Burel Factory, herdeira dos antigos Lanifícios Império, fica em Manteigas, a cerca de 40 minutos de carro pela N232 atravessando o planalto da serra. Vale cada quilómetro. Se está em Gouveia, é a melhor desculpa que vai ter para subir ao alto da Estrela e descer pela garganta do Zêzere até Manteigas, com paragem obrigatória nos miradouros do Vale Glaciário pelo caminho. Reserve a manhã para a estrada e a visita das 11h, e fica com a tarde livre para almoçar truta em Manteigas ou voltar a Gouveia para um passeio até ao Monte do Calvário.
O que é o burel, afinal
Burel é um tecido de lã 100% pura, batido em água até as fibras se compactarem, criando um pano denso, quente e impermeável. Era o pano dos pastores da Serra da Estrela, usado nas capas que aguentavam os invernos no planalto. Depois quase morreu, com o declínio da indústria têxtil portuguesa nos anos 90 e 2000. A fábrica original, fundada em 1947 como Lanifícios Império, esteve à beira da insolvência em 2011, quando Isabel Costa e João Tomás a compraram, salvaram as máquinas, e relançaram o burel como matéria-prima de design contemporâneo. Hoje, o burel sai dali em sapatilhas, almofadas, mantas, malas e até no revestimento de paredes do Hotel Casa das Penhas Douradas.
Como é a visita
A visita guiada dura cerca de uma hora e leva-o pelo chão de fábrica enquanto as máquinas dos anos 50 trabalham mesmo ao seu lado. É barulhento. É essa a parte boa. Comeca-se pela cardação, vê-se a lã sair dos cilindros como se fosse fumo, depois passa-se aos teares mecânicos, à fiação, à pisoa onde a lã ganha aquela densidade característica. O guia explica cada etapa, mas o que vai ficar consigo é o cheiro a lanolina, o cheiro a lã quente, e o ritmo das máquinas batendo em compasso desencontrado.
O melhor momento, para mim, é quando se chega à secção de costura. Vinte pessoas, na maioria mulheres, a cortar e a coser à mão peças que vão acabar em lojas de design no Porto, em Tóquio, em Nova Iorque. Há uma desproporção bonita ali: máquinas centenárias a produzir matéria-prima que sai depois em peças vendidas a 200 euros num concept store em Estocolmo. A fábrica não esconde isso, e bem.
Detalhes práticos
- Onde: Burel Factory, Amieiros Verdes, 6260-028 Manteigas
- Horários das visitas: segunda a sábado, às 11h00 e às 16h00 (sujeito a marcação prévia)
- Preço: 5€ por pessoa
- Reservas: [email protected] ou +351 913 286 420
- Loja: aberta de segunda a sábado, 9h00 às 18h00 (não precisa marcar para entrar só na loja)
- Site: burelfactory.com
Marque com pelo menos dois ou três dias de antecedência por email. As visitas confirmam-se por resposta, e se não responderem, ligue. A fábrica continua a ser uma fábrica a sério, e às vezes o telefone toca mais que o email.
Como ir de Gouveia
De carro é o único caminho razoável. São cerca de 45 km pela N232, a estrada que atravessa Manteigas pelo norte. Em dias de céu limpo, faça um desvio até ao planalto da Torre, mais 15 minutos de subida, e desça depois pela vertente sul até Manteigas. Em maio e junho, a estrada está cheia de giestas amarelas, e os ribeiros ainda correm bem. No inverno, confirme se a Torre está aberta, ou faça o trajeto direto pela N232 sem subir ao topo. Se quer fazer disto uma jornada mais longa, veja o roteiro Gouveia: Escapadas de Um Dia que Valem a Viagem, que inclui Manteigas como destino.
O que levar
Sapatos fechados são obrigatórios. O chão da fábrica tem fios, retalhos, pequenas peças metálicas das máquinas, e ainda que esteja tudo limpo, não é sítio para sandálias. Leve uma camisola de manhã, mesmo no verão: a fábrica é fresca por dentro, e as máquinas grandes geram corrente de ar. Se for alérgico a poeiras finas, considere uma máscara, há sempre algum pó de lã no ar. Câmara permitida, vídeo só com autorização do guia.
A loja, e como não gastar 300 euros sem dar por isso
A loja fica anexa à fábrica e tem tudo: mantas, almofadas, sapatilhas, malas, casacos, brinquedos para crianças. Os preços não são baixos, é design português feito à mão com lã pura, mas há produtos abaixo dos 30 euros (porta-chaves, pequenos sacos, peúgas) e o saldo de fim de coleção costuma ter peças com 30 a 40% de desconto. Se está a hesitar entre uma manta e um casaco, leve a manta. Os casacos de burel são lindos mas pesam, e a manta acaba por ser usada no dia a dia em casa. Confirme as promoções diretamente com a loja antes de planear gastar muito.
O que combinar com a visita
Manteigas tem boas tascas para almoçar truta do Zêzere, que é a especialidade da terra. Depois, suba aos Poços do Caldeirão ou faça a pé um troço da PR1 a partir do centro. Se voltar a Gouveia ao fim do dia, a paisagem ao pôr do sol pelo planalto vale tanto como a fábrica. Para a noite, os restaurantes onde comem os locais servem bem até depois das 22h, e se quiser estender a viagem, o guia de Gouveia em maio aponta os melhores trilhos da época.
Vale a pena?
Sim, e por uma razão simples: cinco euros para ver máquinas de 1947 a fazer tecido que vai parar em hotéis de design e lojas em meia dúzia de cidades europeias é um dos negócios mais honestos que se faz na serra. Não é uma experiência ‘instagramável’ no sentido óbvio, é mais barulho que beleza, mais cheiro a lanolina que cenário. Mas é uma das poucas vezes em que se vê uma indústria portuguesa a sério, viva, a produzir, e isso vale a viagem desde Gouveia.