Hostel Supremo
Silves
Uma quinta de 50.000 metros quadrados a cinco quilómetros de Silves, com beliches por menos de 25 euros e cozinha equipada para quem percebeu que jantar bem no Algarve passa quase sempre por cozinhar o que se compra na feira. Não é luxo, é honesto.
O Horta Grande Hostel não fica em Silves, fica perto de Silves, e essa diferença de cinco quilómetros muda tudo. Quando saímos da N124 e entramos na Tapada, o asfalto dá lugar a terra batida, as casas afastam-se umas das outras, e percebe-se rapidamente que este não é um hostel de mochileiros à procura de festa. É uma quinta com 50.000 metros quadrados, mais de cem anos de história agrícola, e dois dormitórios com beliches que custam pouco mais que uma pizza em Albufeira.
A morada oficial é Horta Grande, Tapada, 8300-033 Silves, e convém escrevê-la no GPS exatamente assim, porque "Horta Grande" sozinho leva-vos a meia dúzia de hortas pelo Algarve adentro. A propriedade pertence a uma família que, em vez de a vender a um promotor de villas com piscina infinita, decidiu abrir parte da casa principal como alojamento partilhado. Há dois dormitórios com beliches e dois quartos de quatro camas, uma cozinha totalmente equipada onde os hóspedes cozinham o que trazem da feira, um terraço, e um jardim com sombra de figueiras e laranjeiras que, no Verão, vale mais que ar condicionado.
Não esperem rececionista de fato, lobby com cheiro a baunilha, ou um manual plastificado com regras. Esperem chaves entregues à mão, indicações para a casa de banho dadas em português corrido, e um silêncio absoluto a partir da meia-noite. Quem precisa de animação noturna fica em Albufeira. Quem precisa de dormir oito horas seguidas, encontra-as aqui.
Recomendo o Horta Grande a três tipos de viajante. Primeiro, ciclistas e caminhantes que percorrem a Via Algarviana ou a Ecovia do Litoral e querem uma cama barata fora da loucura costeira. Segundo, casais ou amigos que viajam com orçamento apertado e preferem gastar dinheiro a comer bem em Bifanas do Marinho em vez de o queimar num quarto de hotel impessoal. Terceiro, famílias que reservam um dos quartos de quatro como unidade privada, deixam as crianças correrem pelo jardim, e usam o hostel como base para visitar Silves de manhã e a praia à tarde, exatamente como sugere o nosso guia honesto de Silves com crianças.
Não recomendo a quem precisa de check-in 24 horas, ar condicionado em todos os quartos, ou WiFi capaz de aguentar uma videochamada de trabalho sem cortar. Também não recomendo a quem viaja sozinho e tem ansiedade com espaços partilhados: os dormitórios são dormitórios, com tudo o que isso implica: ressonar, mochilas a abrir-se às seis da manhã, e a coreografia complicada de quatro pessoas a vestirem-se ao mesmo tempo.
O Horta Grande joga claramente na categoria de orçamento, e cumpre. Uma cama em dormitório no Algarve por menos de 25 euros em época baixa é cada vez mais raro, e este é um dos sítios onde isso ainda acontece. Os quartos privativos de quatro camas, divididos entre amigos ou família, ficam ainda mais em conta por pessoa. Como em qualquer hostel deste perfil, há um princípio simples: quanto mais cedo reservarem, mais barato pagam, e em Julho e Agosto a propriedade enche.
Reservas pelo site oficial em hostelsclub.com ou diretamente por telefone no +351 934 759 577. Eu recomendo o telefone. Em quintas familiares como esta, falar com um humano evita mal-entendidos sobre horários de chegada, sobre se podem trazer um cão (perguntem antes), e sobre o que está ou não incluído. Os horários de check-in não estão publicados de forma fixa, por isso confirmem diretamente.
Tapada não tem paragem de autocarro à porta. Há autocarros da Vamus que ligam Silves a aldeias da serra, mas a frequência é escassa e os horários mudam ao sabor da estação. Na prática, ou alugam carro, ou apanham um táxi desde a estação de comboios de Silves (cerca de 8 a 10 euros), ou pedalam. A bicicleta é uma opção real: a estrada é estreita mas tranquila, e há quem chegue ao hostel directamente da estação ferroviária com as alforges carregadas.
De carro, vindo da A22, saída de Alcantarilha-Algoz, em direção a Silves, e depois seguir as indicações para a serra. O último quilómetro é em terra batida, perfeitamente acessível a qualquer carro normal, mas conduzam devagar: há cães da quinta, há galinhas, e há aquele momento clássico em que se vira uma esquina e se encontra um trator velho a meio do caminho.
Silves está a dez minutos de carro e merece um dia inteiro. O castelo é o cliché, mas há muito mais para ver, como exploramos no guia Silves Além do Castelo. Para almoço, sigam o nosso roteiro pelos mercados de Silves, comprem laranjas, queijo da serra e amêndoas, e levem tudo para o terraço do hostel. A cozinha equipada do Horta Grande existe precisamente para isto: para quem percebeu que jantar bem no Algarve, fora dos restaurantes turísticos, passa quase sempre por cozinhar o que se compra na feira.
O Horta Grande não é luxo, não é design de revista, e não é para todos. É uma quinta antiga reconvertida em alojamento honesto, num pedaço de Algarve que a maioria dos turistas nunca vê, a um preço que faz sentido. Para o tipo de viajante certo, isto é exatamente o que o Algarve costumava ser, e ainda é, se souberem onde procurar.