Miradouro dos Três Castelos
Visitar

Miradouro dos Três Castelos

Três pináculos de calcário a sair do Atlântico, uma escadaria de 70 degraus até uma praia sem apoio e o melhor enquadramento fotográfico da costa sul. Vá ao final da tarde, com sapatos a sério, e não conte com casa de banho.

Três rochas, uma escadaria e o melhor enquadramento da Praia da Rocha

O Miradouro dos Três Castelos fica na Avenida Tomás Cabreira, 8500-802 Portimão, num troço de falésia que separa a parte mais turística de Praia da Rocha do areal mais recatado que se estende para oeste. Não tem bilheteira, não tem horário, não tem porteiro. Tem um gradeamento de madeira, um chão de terra batida que o vento vai compactando e três formações rochosas que se levantam do Atlântico como contrafortes esquecidos por um arquitecto distraído. É grátis, é €, e é, sem grande discussão, o melhor enquadramento fotográfico de toda a frente sul do Algarve.

Digo isto sem cerimónias porque já vi todos os miradouros entre Sagres e a foz do Guadiana, e poucos têm a coreografia deste. A Ponta da Piedade tem mais drama, sim, mas é a Disneylândia geológica do Algarve e está sempre cheia. O Algar Seco em Carvoeiro é mais íntimo. Aqui, em Portimão, há uma coisa diferente: o miradouro está dentro da cidade, encostado a uma avenida com tráfego e prédios de férias, e mesmo assim consegue parecer remoto durante uns minutos, especialmente se chegar à hora certa.

A hora certa (e a errada)

Vá ao final da tarde, entre as 18h e o pôr do sol. A luz bate de lado nas rochas, o ocre acende, o mar fica com aquele azul de postal antigo e a maioria dos autocarros turísticos já partiu. Ao meio-dia a luz é dura, achata as falésias e transforma o areal numa frigideira. De manhã cedo a falésia está em contraluz e perde-se metade da textura. Se for fotógrafo, ponha o despertador para a hora azul a seguir ao pôr do sol: tem cinco minutos bons antes de a iluminação pública apagar tudo.

Evite agosto entre as 11h e as 17h. Não pelo miradouro em si, que aguenta o tráfego, mas pela escadaria que desce até à pequena praia dos Três Castelos: em pleno verão a praia enche, a sombra desaparece e a subida de volta é um castigo. Junho, setembro e outubro são meses generosos. Em novembro e fevereiro vai ter o sítio quase só para si, com a vantagem extra de o restaurante mais próximo não estar em modo turista.

Como chegar sem stress

Praia da Rocha não é grande, mas estacionar em agosto é um desporto sangrento. Se vier de carro, esqueça a Avenida Tomás Cabreira em si: tente os parques do lado norte da Rua António Feu ou desça pela Avenida da Comunidade Lusíada. Os Vinte Minutos a pé compensam o stress poupado. De Portimão centro são cerca de 3 km, dá para fazer a pé pela marginal em 35 minutos planos, e é um passeio que vale a pena: passa pela doca, pelo Museu de Portimão (instalado na antiga fábrica de conservas) e por uma série de azulejos modernistas que toda a gente ignora. Se quiser estruturar este trajecto com mais profundidade, o nosso guia sobre o porto e as antigas conserveiras faz o desvio compensar.

Autocarro urbano: a linha que serve Praia da Rocha pára a poucos metros. Táxi ou Uber de Portimão centro fica abaixo de 8 euros fora da hora de ponta. A bicicleta é uma boa opção entre Outubro e Maio, mas há uma subida no final que separa as pernas dos discursos.

O que se vê, exactamente

Os tais três castelos são três pináculos de calcário e arenito que o mar separou da falésia ao longo de milénios. Vistos de cima, alinham-se com uma simetria estranha, quase encenada. Em maré baixa percebe-se a base e nota-se que houve outras formações que já caíram: a erosão aqui não é teórica, é um cronómetro. À direita estende-se o areal interminável de Praia da Rocha, com o paredão e o Forte de Santa Catarina ao fundo. À esquerda, a costa quebra em pequenas enseadas até Vau e Alvor, com o areal a aparecer e a desaparecer entre falésias.

A escadaria de madeira e betão desce uns 60 ou 70 degraus até à praia escondida no sopé das rochas. É uma praia pequena, sem apoio, sem chapéus de aluguer, com areia fina e água gelada mesmo em agosto. Leve toalha, água, e nada de objectos de valor: não há vigilância. A subida de volta é honesta sem ser brutal, mas com sapatos errados (chinelos de dedo molhados, por exemplo) é uma boa forma de partir um pulso.

Onde comer antes ou depois

O miradouro fica a cinco minutos a pé de três sítios que valem a deslocação. Para almoço com vista, o Vista faz o trabalho que o nome promete e tem uma carta de peixe que justifica o preço. Para jantar mais sério, o NUMA é a aposta contemporânea de Praia da Rocha: reserve, sobretudo entre junho e setembro. Se quiser ir ao essencial, peixe grelhado sem encenação, o Restaurante F resolve a vida sem grandes discursos.

Conselho prático: o miradouro não tem casa de banho. O bar mais próximo costuma deixar entrar quem pede com educação e leva consigo uma água ou um café. Não conte com isso em pico de agosto.

Para combinar no mesmo dia

Se está de passagem, faça-o como aperitivo: chegue ao final da tarde, fique uma hora, jante na avenida. Se está de férias, integre-o num roteiro maior. O nosso guia de passeios de um dia a partir de Portimão dá ideias para esticar a estadia até Monchique ou Silves. E se vier em casal, sem crianças, com vontade de fazer as coisas com algum vagar, o itinerário romântico inclui este miradouro num percurso que faz sentido do princípio ao fim.

O veredicto honesto

Não é um sítio para passar a tarde. É um sítio para parar quinze minutos, respirar, perceber a escala da costa e perceber porque é que ainda se constrói tanto em cima dela. Vá uma vez, vá ao final do dia, leve sapatos que prestem e não vá com pressa de fazer mais nada nos vinte minutos seguintes. Vale isso. Não vale mais, mas vale isso com certeza.