Pastelaria Santa Clara
Vinhais
Na Rua das Freiras, a pastelaria onde Vinhais acorda: pão quente logo de manhã, doçaria transmontana feita no dia e café a preço de vila. Vá entre as oito e as nove e meia, coma ao balcão e leve pão para a estrada. Horário não confirmado: ligue antes.
Há uma hierarquia não escrita nas vilas transmontanas: primeiro abre a padaria, depois abre a vila. Em Vinhais, a Pastelaria Santa Clara, na Rua das Freiras, é o sítio onde essa transição acontece. Chega-se lá a pé, porque em Vinhais chega-se a tudo a pé, e o cheiro a pão quente resolve as dúvidas de orientação melhor do que qualquer mapa.
Não é um café de destino. É um café de rotina, o que é uma categoria bastante mais difícil de sustentar. Um sítio de destino precisa de impressionar uma vez. Um sítio de rotina tem de acertar todos os dias, com as mesmas pessoas, que reparam imediatamente quando o pão sai menos bom ou quando o café vem queimado. A Santa Clara está aberta e cheia à hora do pequeno-almoço, e isso é o único indicador de qualidade que vale a pena em Trás-os-Montes.
Pão quente, primeiro. É o que dá nome à casa em metade das conversas da vila e é a razão pela qual se veem pessoas a sair com dois ou três papos de saco de papel a caminho de casa. Se chegar cedo, apanha-o mesmo acabado de sair. Se chegar às onze da manhã, apanha o que sobrou, que também serve, mas não é a mesma coisa.
Depois, a doçaria tradicional transmontana. Aqui vale a pena ser franco sobre o que se está a comer: a pastelaria do interior norte não tenta ser parisiense. É doce de convento e doce de casa, com ovos, açúcar, amêndoa, canela, por vezes castanha ou mel da serra. Não pergunte pelo croissant de amêndoa perfeito. Pergunte ao balcão o que fizeram nessa manhã e siga a resposta. É a única forma sensata de comer num sítio destes.
O café é café de bica portuguesa, servido rápido, a preço de vila. A faixa de preço aqui é €, o que em Vinhais significa que se toma o pequeno-almoço completo por menos do que custa um cappuccino no Chiado. Isto não é um detalhe romântico, é um facto orçamental relevante para quem está a percorrer o Parque Natural de Montesinho e quer esticar o dia.
Coma ao balcão se puder. Não por poupança nem por pose, mas porque é lá que se percebe como funciona a vila: quem vai à missa, quem foi à feira, quem tem o fumeiro pronto, quem está a vender castanha. Sentado numa mesa é um turista a tomar café. De pé ao balcão é alguém que está ali. A diferença de informação recolhida entre as duas posições é enorme.
Vinhais é uma vila comprida, esticada ao longo da estrada, e o centro percorre-se em dez minutos de ponta a ponta. A Rua das Freiras fica no coração desse centro, código postal 5320-326. Vindo de Bragança pela N103, entra-se na vila e estaciona-se onde houver lugar, que normalmente há, porque este é um dos poucos sítios de Portugal onde estacionar ainda é um não-assunto. De Chaves, a mesma N103 no sentido inverso, com uma condução bonita e lenta.
O encaixe óbvio no dia é este: café e pão quente logo de manhã, depois cinco minutos a pé até à Igreja Matriz e ao conjunto de Santo António, e a seguir a parte séria, que é o fumeiro. Vinhais vive do porco bísaro e das castanhas, e quem chega de manhã e não aproveita para comprar alheira e salpicão diretamente a produtor está a perder metade da razão para ter feito a viagem. O nosso roteiro gastronómico da zona explica onde comer a seguir, quando o pequeno-almoço já não chega.
Para almoço ou jantar, a Santa Clara não é a resposta. É pastelaria e pão, não é casa de comida sentada. Se quiser algo mais substancial e informal ao fim do dia, o The Brothers resolve o problema sem drama.
O interior de Portugal está a perder cafés a um ritmo que ninguém contabiliza. Cada pastelaria que fecha numa vila destas leva consigo uma parte da infraestrutura social: o sítio onde se combinam coisas, onde se sabe quem morreu, onde o carteiro toma o café. A Santa Clara continua aberta e continua a fazer pão fresco todos os dias, e há uma dignidade nisso que não precisa de ser romantizada.
Vá cedo, coma de pé, fale com quem está ao balcão e leve pão para o carro. Depois siga para o resto de Vinhais, que é mais interessante do que a maioria dos sítios com o dobro dos visitantes. E se calhar por altura das festas das aldeias em redor, ainda melhor: a vila enche, a pastelaria enche, e percebe-se para que serve realmente um sítio destes.