Torres Vedras em Julho: Fugir do Calor no Oeste
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Torres Vedras em Julho: Fugir do Calor no Oeste

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Enquanto Lisboa assa a 38 graus, a costa de Torres Vedras vive numa nortada que raramente passa dos 26. Miradouros frescos, canoagem no Sizandro e peixe grelhado a quarenta minutos da capital: o plano perfeito para fugir ao calor de Julho.

Há um momento, algures a meio de Julho, em que Lisboa deixa de ser uma cidade e passa a ser uma frigideira. O alcatrão devolve o calor que recebeu de manhã, as esplanadas viram fornos, e qualquer pessoa com juízo começa a olhar para o mapa à procura de uma saída. A saída fica a quarenta minutos a norte, na A8, e chama-se Torres Vedras. Não é um destino de postal nem aparece nas listas dos guias estrangeiros, e ainda bem. É exactamente por isso que funciona.

O segredo de Torres Vedras em pleno Verão é geográfico e teimoso: o Atlântico. Enquanto Santarém e o interior assam a 38 graus, a costa do Oeste vive numa nortada constante que raramente deixa o termómetro passar dos 26. A nortada é uma chatice quando se quer apanhar sol deitado na toalha, é certo, mas é uma bênção quando se quer respirar. Traga-se uma camisola para o fim da tarde. Em Torres Vedras, em Julho, isto não é um exagero.

Comece pelo alto, antes do calor apertar

A melhor hora para conhecer Torres Vedras em Julho são as nove da manhã, quando o ar ainda está fresco e a luz é baixa e dourada. Suba ao Miradouro do Varatojo, no alto da colina onde se ergue o antigo convento. Daqui vê-se a cidade espalhada no vale e, em dias limpos, a linha do mar ao longe. É um sítio de poucos turistas e muitos locais a passear o cão, o que costuma ser o melhor indicador de qualidade que existe.

Quem quiser pôr os pés mais perto da água tem dois miradouros que valem o desvio, e ambos ficam já na zona costeira de Santa Cruz. O Miradouro da Ponta da Vigia debruça-se sobre a falésia com vista para uma sucessão de praias selvagens, e a nortada chega-lhe em cheio: a meio da tarde de Julho é capaz de ser o sítio mais fresco a sul do Porto. Um pouco mais acima, o Miradouro de Nossa Senhora da Boa Viagem oferece o pôr do sol que toda a gente fotografa e quase ninguém menciona, porque preferem guardá-lo para si. Vá lá por volta das 20h30 em Julho, leve uma garrafa de vinho da região (a denominação de Torres Vedras é das mais antigas do país e faz tintos honestos e baratos), e perceberá porquê.

A água é o ponto inteiro

Se o calor é o inimigo, a resposta é molhar-se. Torres Vedras tem uma costa longa e quase toda virgem: Praia de Santa Cruz é a mais movimentada e a única com cafés e bandeira azul, mas basta caminhar dez minutos para sul ou para norte para encontrar areal vazio. A água atlântica é fria, na ordem dos 17 ou 18 graus em Julho. É um choque nos primeiros segundos e uma libertação a seguir.

Mas a minha sugestão para quem quer fugir do calor sem se atirar às ondas geladas é trocar o mar pelo rio. O Rio Sizandro atravessa Torres Vedras com calma e a canoagem no Rio Sizandro é a forma mais inteligente de passar uma manhã quente: a água doce, a sombra dos canaviais, o esforço suave que justifica o almoço a seguir. É uma actividade que quase ninguém de fora conhece, o que significa que não vai partilhar o rio com meio mundo. Vá de manhã cedo, antes das 11h, e leve protector solar mesmo assim, porque na água o sol engana.

Para os que preferem andar

Há quem fuja do calor parado e quem fuja a andar. Para os segundos, o Caminho de Santiago no Oeste passa por Torres Vedras, e os troços costeiros são, no Verão, uma alternativa séria à montanha. A nortada faz o trabalho de ar condicionado e a paisagem alterna entre vinha, eucalipto e falésia. O truque, claro, é caminhar de manhã: às oito da manhã o caminho é uma maravilha, ao meio-dia é uma penitência. Leve dois litros de água por pessoa, no mínimo, e planeie chegar ao destino antes das 13h.

O que comer quando aperta o calor

A comida do Oeste é de mar e de horta, e em Julho isso é exactamente o que o corpo pede. Em Santa Cruz come-se peixe grelhado simples, sardinha quando é época, carapau, robalo. Não procure sofisticação: procure uma esplanada com sombra, uma grelha a funcionar lá atrás e o peixe do dia escrito num quadro de giz. O acompanhamento certo é uma salada de tomate como deve ser e batata cozida, e a bebida certa é vinho branco da casa bem fresco ou uma imperial. Confirme sempre os preços localmente, mas um almoço de peixe fresco junto à praia costuma sair por valores honestos fora dos meses de pico turístico.

Para a tarde, quando o calor abranda e dá vontade de doce, vale a pena lembrar que a tradição pasteleira desta zona do país é rica. Se está a fazer a viagem desde Lisboa e quer alongá-la, há todo um roteiro de doçaria tradicional em Mafra que fica a meio caminho e justifica uma paragem gulosa. A doçaria conventual portuguesa não tem época, mesmo que o nome diga Páscoa.

Quando o pôr do sol não chega: o plano de noite

O Verão em Torres Vedras tem um ritmo que vale a pena respeitar. De dia, evita-se o sol forte entre o meio-dia e as quatro: é a hora da sesta, do almoço prolongado, de um café à sombra na praça. A vida acontece de manhã cedo e ao fim do dia, quando a temperatura cai e a cidade volta a respirar. As noites de Julho na costa são frescas, por vezes mesmo frias com a nortada, e essa é a melhor notícia de todas para quem foge do calor: dorme-se bem, com a janela aberta e sem o zumbido de um ar condicionado.

Se a noite pedir mais movimento, Lisboa está a quarenta minutos e a vida nocturna não falta. Mas confesso uma preferência: prefiro ficar. Há algo de saudável em jantar tarde numa esplanada de Santa Cruz, com a brisa salgada e o som do mar ali ao lado, e ir dormir cedo para acordar com a maré.

Como chegar e como organizar o dia

De carro, Torres Vedras fica a cerca de 50 quilómetros de Lisboa pela A8, uma viagem de quarenta a cinquenta minutos sem trânsito. A portagem é modesta. De transporte público há autocarros regulares a partir de Lisboa (Campo Grande), mas para explorar a costa e os miradouros o carro torna tudo mais fácil, sobretudo porque as praias estão espalhadas e o transporte entre elas é limitado.

O meu plano ideal para um dia de fuga ao calor: sair de Lisboa às oito, subir ao Varatojo enquanto o ar está fresco, descer à costa para uma manhã de praia ou de canoagem no Sizandro, almoçar peixe em Santa Cruz por volta das duas, fazer a sesta obrigatória, e guardar o fim da tarde para os miradouros da costa e o pôr do sol em Nossa Senhora da Boa Viagem. Quem tiver mais do que um dia pode esticar a viagem.

Esticar a viagem: vizinhos que valem a pena

Torres Vedras tem a vantagem de estar rodeada de bons vizinhos. A sul, Mafra e o seu convento monumental. Mais a sul ainda, Sintra, que no Verão é uma bênção fresca por estar metida na serra e na sombra das árvores: se quiser perceber como se divide a vila e onde vale a pena ficar, há um bom guia dos bairros de Sintra que poupa horas de confusão. E claro, Lisboa, sempre Lisboa, com a sua cultura de bairro e tradições que ganham outra cor quando se volta a elas depois de uns dias de mar e sossego.

No fim, é isto: enquanto meia Europa se atira ao Algarve e paga o triplo para se sentar numa praia cheia, Torres Vedras oferece o Atlântico, a nortada, o vinho barato e o peixe fresco a uma distância ridícula de Lisboa. Não é um segredo, é apenas um sítio que as pessoas teimam em passar ao lado. Em Julho, isso é uma sorte. Aproveite-a antes que toda a gente perceba.

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