Tavira Sem Armadilhas: Um Fim de Semana Fora do Óbvio
Tavira é talvez a cidade mais bonita do Algarve, mas quase toda a gente faz o mesmo roteiro turístico. Atum fresco no mercado, vinhos que só existem aqui e um cemitério de âncoras na areia, este é o fim de semana que ninguém vos conta.
Tavira tem um problema. Ou melhor, Tavira tinha um problema, ninguém vinha cá. Agora o problema inverteu-se: toda a gente vem, mas quase todos fazem exactamente a mesma coisa. Ponte romana, selfie. Igreja de Santa Maria, selfie. Ilha de Tavira, guarda-sol alugado a preço de ouro. Almoço num restaurante com menu plastificado em quatro línguas. Regresso ao hotel com a sensação vaga de que isto "é giro" mas podia ser qualquer sítio do Mediterrâneo.
Não tem de ser assim. Tavira é uma das cidades mais bonitas do Algarve, talvez a mais bonita, se me perguntarem, mas precisa de ser explorada com alguma intenção. Este é o roteiro para um fim de semana em que se come bem, dorme-se melhor, e se regressa a casa com histórias que não cabem num story de Instagram.
Sexta à Noite: Chegar e Não Ter Pressa
Se vierem de carro, o ideal é chegar ao final da tarde. A A22 é uma auto-estrada quase deserta (ao contrário da EN125, que é um exercício de paciência e fé) e em menos de três horas desde Lisboa estão a estacionar. Se preferirem comboio, a estação de Tavira fica a dez minutos a pé do centro, uma raridade no Algarve, onde a maioria das estações parecem ter sido construídas propositadamente longe de tudo.
Para dormir, esqueçam os resorts genéricos da beira-mar. A Fazenda Nova Country House, a poucos minutos de carro do centro, é o tipo de sítio que justifica a viagem por si só. Uma propriedade rural com piscina, rodeada de laranjais, onde o pequeno-almoço é feito com produtos locais e o silêncio à noite é real, não o silêncio ensaiado de um resort com música ambiente no lobby. Reservem com antecedência, especialmente entre Junho e Setembro.
Na primeira noite, resistam à tentação de jantar logo na zona ribeirinha. Em vez disso, caminhem pela Rua da Liberdade até encontrarem uma tasca sem ementa em inglês. Peçam o que houver de peixe fresco, em Tavira, o atum é rei, sobretudo entre Maio e Setembro, quando a safra está no auge. O atum de cebolada, quando bem feito, é um dos grandes pratos do Algarve. Não precisa de molhos complicados nem de apresentação instagramável, precisa de peixe fresco e de alguém que saiba o que está a fazer.
Sábado de Manhã: O Mercado e o Café
Acordem cedo. O Mercado Municipal de Tavira é melhor antes das 10h, quando os locais ainda estão a fazer compras e os vendedores têm paciência para conversar. Não é um mercado turistificado como o Time Out em Lisboa, é um mercado de bairro onde se compra peixe com cabeça, fruta com formas imperfeitas, e queijo fresco que ainda cheira a leite. Aos sábados há mais movimento e variedade.
Depois do mercado, café. Os portugueses não fazem brunch, fazemos uma bica e um pastel de nata em pé ao balcão, pagamos um euro e tal, e seguimos vida. Se quiserem adoptar este ritual, há cafés históricos no centro que servem exactamente isso, sem necessidade de reserva nem de esperar quarenta minutos por uma mesa. Procurem um com esplanada virada para o rio Gilão e deixem-se ficar.
A Parte da Cultura Que Ninguém Faz
Toda a gente visita a Igreja de Santa Maria do Castelo (e devem fazê-lo, é ali que está, alegadamente, o túmulo de Dom Paio Peres Correia). Mas quase ninguém sobe ao Castelo de Tavira com calma. Não é um castelo grandioso como Óbidos ou Guimarães, é um recinto pequeno, com um jardim dentro das muralhas e uma vista que abrange os telhados de Tavira, a Ria Formosa ao fundo e, em dias limpos, o mar. A entrada é gratuita e, fora de Agosto, terão o sítio praticamente só para vocês.
Se a cultura local do Algarve vos interessa a sério, vale a pena ler o nosso guia sobre as tradições e vivências de Faro para contexto, muito do que se vive em Tavira partilha raízes com Faro, desde as chaminés rendilhadas aos azulejos que cobrem as fachadas.
Sábado à Tarde: Vinho, Não Sangria
Aqui está o segredo que a maioria dos visitantes não conhece: Tavira tem uma tradição vinícola que está a renascer. A região foi produtora de vinho durante séculos, os Romanos já o faziam, mas a filoxera e o turismo de massas quase a apagaram. Agora, há uma nova geração a recuperar castas antigas e a produzir vinhos que não encontram em mais lado nenhum.
A melhor forma de entender isto é através de uma experiência no Al-Lagar, onde se pode provar vinho local e perceber esta história directamente com quem a está a escrever. É o tipo de experiência que transforma uma viagem de "bonito" para "inesquecível", e garanto-vos que vão querer trazer garrafas para casa.
Se ainda tiverem energia ao final da tarde, caminhem até à zona da Quatro Águas, de onde partem os barcos para a Ilha de Tavira. Mas em vez de irem para a praia principal (que no Verão parece uma sardinha em lata), perguntem pelo percurso até à praia do Barril. A caminhada de cerca de um quilómetro pelo passadiço de madeira, com a Ria Formosa de um lado e o outro, é mais bonita do que qualquer praia. E quando chegarem, encontram o famoso Cemitério das Âncoras, centenas de âncoras enferrujadas dispostas na areia, memória da antiga armação de atum. É um dos sítios mais fotogénicos do Algarve e não custa um cêntimo.
Sábado à Noite: Jantar a Sério
Para o jantar de sábado, sejam mais ambiciosos. Tavira tem restaurantes que fariam inveja a muitas cidades maiores. Procurem sítios onde o peixe e o marisco venham do mercado daquela manhã. Peçam conquilhas (amêijoas pequenas, salteadas com azeite e alho), arroz de lingueirão se estiver disponível, ou simplesmente peixe grelhado com batata cozida e salada. Em Tavira, a cozinha não precisa de truques, precisa de matéria-prima, e isso aqui não falta.
Uma nota sobre preços: jantar bem em Tavira ainda é surpreendentemente acessível comparado com Lagos ou Albufeira. Um jantar para dois com vinho, peixe e entrada fica entre 40€ e 70€ nos sítios bons, fora dos restaurantes de hotel. Paguem sempre em dinheiro se puderem, alguns dos melhores sítios ainda funcionam assim.
Domingo: Ria Formosa e Despedida
O domingo deve ser lento. Se ficaram na Fazenda Nova, aproveitem o pequeno-almoço prolongado, merecem. Depois, dediquem a manhã à Ria Formosa. Este parque natural é um dos ecossistemas mais importantes da Europa, com mais de 200 espécies de aves, e a melhor forma de o explorar é de barco. Há passeios que partem de Tavira com guias locais que conhecem cada canal, procurem operadores na zona de Quatro Águas. Os preços variam, mas rondam os 25-40€ por pessoa para um passeio de duas a três horas. Confirme horários localmente, pois dependem das marés.
Se o birdwatching não for o vosso forte, a alternativa é alugar bicicletas e pedalar pela Ecovia do Litoral, que passa por Tavira. O troço entre Tavira e a zona de Santa Luzia, a "capital do polvo", é plano, bonito, e demora menos de meia hora. Em Santa Luzia, almocem polvo. Não há grande ciência na escolha do restaurante, em Santa Luzia, o polvo é bom em todo o lado porque chega fresco todos os dias. Polvo à lagareiro ou arroz de polvo são as apostas seguras.
Antes de Partirem
Passem pela zona da Rua da Galeria, no centro de Tavira, onde há pequenas lojas de artesanato e produtos locais. Comprem flor de sal da Ria Formosa (muito melhor que a de Guérande, lá disse), mel de alfarroba, ou conservas de atum, os melhores souvenirs são os que se comem.
E se este fim de semana vos deixou com curiosidade sobre o resto do Algarve fora dos circuitos habituais, espreitem o nosso guia de bairros de Lagos para planear a próxima escapadela. Ou, se Albufeira vos surpreende pelo lado que não esperavam, há mais para descobrir na cultura local de Albufeira do que as discotecas da Strip deixam adivinhar.
O Essencial
- Quando ir: Maio-Junho ou Setembro-Outubro. Evitem Agosto a menos que gostem de multidões e calor acima dos 35°C.
- Como chegar: Carro via A22 (portagens electrónicas, registem-se na Via Verde Visitors) ou comboio desde Lisboa (cerca de 3h30, com transbordo em Faro).
- Orçamento para o fim de semana: Contem com 300-500€ para duas pessoas, incluindo alojamento, refeições e experiências. Mais se optarem por alojamento premium.
- O que não fazer: Não almocem na primeira fila junto ao rio, os restaurantes com melhor relação qualidade-preço estão sempre uma ou duas ruas para dentro.