Santana: Um Roteiro a Pé Entre Telhados Triangulares
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Santana: Um Roteiro a Pé Entre Telhados Triangulares

· · Santana

Em Santana, na costa norte da Madeira, chove quase 1.880 mm por ano, e foi essa chuva que desenhou as famosas casas triangulares de colmo. Um roteiro a pé pela vila, da igreja ao Núcleo de Casas Típicas, com levadas e boas camas à mistura.

A 509 metros de altitude, na costa norte da Madeira, chove como em poucos sítios da ilha: cerca de 1.880 milímetros por ano, distribuídos por uma humidade quase constante que alimenta a laurissilva à volta da vila. Foi essa chuva, mais do que qualquer impulso estético, que desenhou a arquitetura de Santana. As casas tradicionais, pequenas, com cerca de quatro metros por sete, têm telhados triangulares de colmo que descem quase até ao chão, paredes caiadas de branco e portas e janelas pintadas de vermelho com remates a azul. A inclinação do telhado não é capricho: escoa a água antes que ela tenha hipótese de se infiltrar. No sótão guardava-se o cereal, no piso térreo dividiam-se cozinha e quarto. É arquitetura de sobrevivência que, com o tempo, se tornou cartão-postal.

Isto não é um centro histórico no sentido em que Évora ou Óbidos são centros históricos, com muralhas e traçado medieval. Santana é outra coisa: uma vila de montanha onde o património se mede em telhados, não em fachadas nobres. E é precisamente por isso que vale a pena andar por ela devagar, a pé, com tempo para perceber por que razão estas casas continuam a ser a imagem mais repetida da Madeira em qualquer postal.

O Roteiro: Da Igreja ao Parque Temático

Fontanário de Santa Ana e a Igreja Paroquial

Comece junto à Igreja Paroquial de Santana, no centro da vila. Ao lado fica o Fontanário de Santa Ana, um chafariz classificado como Monumento de Interesse Local desde 2000, inaugurado a 1 de junho de 1955 pelo então Presidente da República. Não é um monumento grandioso, mas é o tipo de detalhe que explica como uma vila pequena trata o seu património: com cuidado, sem exagero. Pare aqui dois minutos antes de continuar.

O Núcleo de Casas Típicas

A poucos passos, junto à Câmara Municipal, está o Núcleo de Casas Típicas de Santana, um conjunto de casinhas de colmo reconvertidas para venda de produtos artesanais e locais. A entrada é gratuita e o local funciona como uma espécie de sala de estar pública da vila: é aqui que se percebe a escala real destas casas, muito mais pequenas do que qualquer fotografia sugere. Não espere um museu convencional. Espere portas abertas, gente da terra a vender broa, licores e bordados, e uma dúzia de casas em fila que parecem saídas de uma ilustração infantil.

Parque Temático da Madeira

Se tiver mais uma hora, vale desviar-se até ao Parque Temático da Madeira, na periferia da vila. Aberto desde 2004 e espalhado por mais de sete hectares, tem réplicas das casas de colmo em tamanho ampliado, pavilhões multimédia sobre a história da ilha e um pequeno lago. É mais turístico do que o centro da vila, com bilhete à parte (confirme o preço localmente), mas as fotografias junto às casas gigantes são, sem ironia, das mais partilhadas da Madeira. Leve-o como sobremesa do roteiro, não como prato principal.

Dormir Entre Telhados de Colmo

Santana não é só um sítio para visitar de carro num dia. Ficar cá muda a experiência: ao final da tarde, quando os autocarros de turismo já partiram, a vila fica só para quem lá dorme. A Quinta do Furão é a opção mais conhecida, um hotel sobre a falésia norte com vinha própria e vista para o Oceano Atlântico sem nada pelo meio até ao horizonte. Para quem prefere algo mais rústico e mais barato, a Ilha & Montanha - Turismo Rural oferece alojamento em ambiente de turismo rural, entre campos e vacas, a poucos minutos do centro.

Há ainda duas alternativas com casas independentes: o Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar, que reproduz em pequena escala a lógica das casas tradicionais mas com conforto moderno, e a Santana in Nature Bed & Breakfast, mais pequena e pessoal, para quem prefere o contacto direto com os donos do que a estrutura de um hotel.

Depois das Casas: Levadas na Floresta

Santana é também porta de entrada para algumas das melhores caminhadas de levada da Madeira, e seria desperdício vir até cá só para ver telhados. A Levada do Caldeirão Verde em Santana: Guia do Caminhante leva-o por um dos trilhos mais bonitos da ilha, através de túneis escavados à mão e floresta de laurissilva, património mundial da UNESCO. Para quem prefere um ritmo mais lento e mais focado na paisagem do que no exercício, a Ervas Medicinais da Laurissilva: Caminhada Guiada em Santana é uma caminhada guiada centrada nas plantas e ervas medicinais da floresta, uma forma diferente de perceber por que razão esta zona da ilha é tão húmida, tão verde e tão distinta do resto da Madeira.

Como Chegar e Quando Ir

De carro, a partir do Funchal, conte cerca de 40 a 45 minutos pela via rápida VE1/ER101. De autocarro, a linha 103 da SIGA liga o Terminal do Teleférico, no Funchal, a Santana, com viagens a cada quatro horas e um trajeto de cerca de 1h20, por poucos euros. Não é rápido, mas a estrada em si já vale a viagem, com vistas sucessivas sobre a costa norte.

Vá de manhã, se puder. As casas de colmo ficam mais fotogénicas com luz lateral e sem os autocarros de excursão que chegam a meio da manhã. E leve impermeável: a chuva que fez estas casas parecerem-se com o que são pode aparecer sem aviso, mesmo em pleno verão.

Se este for um dia dentro de uma viagem mais longa pela Madeira, vale a pena encaixar Santana num roteiro maior. Quem vier do Funchal pode aproveitar para conhecer também as levadas essenciais do Funchal em abril, e quem for até à costa sul não deve sair da ilha sem parar em Câmara de Lobos para comer sardinha assada a sério. Para quem viaja em junho, há ainda um guia próprio sobre o Funchal em junho, entre atum, levadas e noites de festival, útil para encaixar Santana num roteiro de vários dias.

O Que Fica

Santana não tenta ser sofisticada. Não há aqui arquitetura de arquiteto, nem fachadas barrocas para fotografar de ângulo certo. O que há é uma solução prática, quase teimosa, para viver debaixo de quase dois metros de chuva por ano, que por acaso ficou bonita. Ande devagar pela vila, pare no Fontanário, entre nas casinhas do Núcleo, e depois suba a uma levada para perceber de onde vem toda aquela água. É um roteiro curto, mas dificilmente esquecível.

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