Santana: Artesanato Verdadeiro Além dos Palheiros de Miniatura
Em Santana vende-se um palheiro de miniatura em plástico a três euros, a poucos metros dos originais em madeira e colmo que ainda estão de pé. Vale a pena saber a diferença antes de comprar.
A parede das casinhas de plástico
Na loja de recordações ao lado do Parque Temático da Madeira, em Santana, há uma parede inteira coberta de casinhas em miniatura: telhado triangular, paredes brancas, remates a vermelho ou azul. Custam dois ou três euros, pesam nada, e nove em cada dez foram moldadas em plástico algures fora da Madeira. Ironia pura, porque o objeto que estão a copiar, o palheiro de Santana, é uma das poucas construções tradicionais portuguesas que ainda se pode ver de pé, a sério, a cinco minutos a pé da loja. Comprar a miniatura sem nunca ter olhado para o original é como levar para casa uma fotografia de um prato sem nunca o ter provado.
Os palheiros nasceram como arrecadações de feno e abrigos de gado, com aquele triângulo de colmo a chegar quase ao chão para aguentar chuva e vento. Com o tempo, alguns ganharam janelas, uma porta pintada, e viraram casa de gente. Hoje restam poucos exemplares originais e a maioria está preservada precisamente porque virou símbolo da ilha, estampado em azulejos, ímanes e, já agora, nas tais casinhas de plástico. O truque para não sair de Santana com um souvenir vazio é simples: ver o objeto real antes de comprar a réplica.
Dormir dentro do próprio artesanato
A forma mais direta de perceber por que é que esta arquitetura vale a pena é passar lá uma noite. O Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar tem casas de campo com o desenho tradicional madeirense em pedra e madeira, rodeadas de hortas e prados, e é o tipo de sítio onde se percebe, sem folheto explicativo, porque é que estas construções foram pensadas para o clima daqui: telhados inclinados, paredes grossas, tudo virado para aguentar a chuva que sobe do Atlântico e se agarra à Laurissilva.
Se preferir vista para o mar em vez de vista para o prado, a Quinta do Furão fica sobre a costa norte, com vinha em socalcos e um restaurante que serve cozinha regional a sério, do bolo do caco à espetada, com vinho da própria quinta. É mais hotel do que casa de campo, mas continua a jogar o mesmo jogo: mostrar como se vive nesta paisagem, não só como se fotografa.
Para quem quer ainda menos gente e mais silêncio (o bom, o das galinhas ao longe e do vento nos eucaliptos, não o abstrato), há duas alternativas menores e muito bem cuidadas: a Santana in Nature Bed & Breakfast e a Ilha & Montanha - Turismo Rural. Ambas funcionam em casas pequenas, com donos que conhecem os vizinhos e sabem indicar quem ainda trabalha o vime ou quem faz o melhor bolo de mel da zona, informação que nenhum posto de turismo lhe vai dar.
O que a floresta ensina sobre o artesanato
Antes de perceber os objetos, ajuda perceber a matéria-prima. Grande parte do que se vende como artesanato em Santana, cestos, colheres, bengalas, vem de madeira e vime que cresceram ali ao lado, na orla da Laurissilva, a floresta de louro classificada pela UNESCO que cobre as encostas do norte da ilha. A caminhada guiada pelas ervas medicinais da Laurissilva em Santana é a forma mais direta de perceber essa relação: um guia local mostra que planta serve para chá, qual é usada em licores caseiros, qual dava tinta ou remédio antigamente. Sai-se da caminhada a olhar para o mel da mercearia com outros olhos, porque se sabe de onde vêm as flores.
Essa mesma floresta é o cenário da Levada do Caldeirão Verde em Santana, um dos percursos mais bonitos da ilha: parte das Queimadas, atravessa vários túneis escavados à mão e termina numa cascata que cai direto para um poço verde-esmeralda. São cerca de 6,5 km até à cascata, por isso conte com a viagem toda de volta, umas três horas de caminhada com paragens, terreno molhado o ano inteiro e lanterna do telemóvel a dar jeito nos túneis mais longos. Leve impermeável mesmo que o dia esteja limpo em Santana, porque a floresta faz o seu próprio microclima.
O que separa um bom souvenir de um mau
Regra prática, testada em muitas lojas de estrada: se o preço é redondo e igual em três lojas diferentes, é provável que venha da mesma fábrica fora da ilha. Se o vendedor sabe dizer quem fez o objeto, é sinal de que vale o dinheiro.
- Bordado Madeira a sério tem uma etiqueta de autenticação (o selo do IBTAM, o instituto que certifica o bordado feito à mão na ilha). Sem etiqueta, é quase de certeza feito à máquina noutro país.
- Vime e cestaria: prefira peças de castanheiro ou vime local, mais pesadas e irregulares que as importadas, com nós e imperfeições que mostram trabalho manual.
- Mel de cana e bolo de mel são produtos comestíveis, difíceis de fabricar em massa fora da ilha, e duram na mala sem se estragar. Melhor recordação do que qualquer ímã.
- Poncha engarrafada com selo de produtor local é outra aposta segura, desde que não vá tentar reproduzir a receita da taberna em casa, porque nunca fica igual.
- Miniaturas de palheiros em madeira, feitas por marceneiros da zona e não moldadas em plástico, ainda existem em algumas lojas pequenas fora do circuito principal. Perguntar sempre "isto é feito aqui?" não ofende ninguém e poupa dinheiro mal gasto.
Por que vale a pena parar em Santana antes de seguir viagem
Muita gente trata Santana como paragem rápida a caminho do Porto Moniz ou de Ponta Delgada, tira a foto obrigatória aos palheiros e segue. É pena, porque quem fica uma noite percebe a diferença entre um símbolo turístico e uma forma de vida que ainda funciona: gente que planta batata-doce nos socalcos, que ainda sabe fazer cestos, que conhece a floresta pelo nome das plantas. Se a viagem continuar depois para sul, os trilhos das levadas do Funchal mostram outra face da mesma ilha, mais urbana, e quem gosta de peixe grelhado deve reservar uma tarde para comer sardinha assada a sério em Câmara de Lobos. Mas isso é outra história. Em Santana, o objetivo é sair de lá com as mãos vazias de plástico e cheias do que for feito de verdade ali ao lado.