Ponte de Lima a Pé: Roteiro de Arquitectura pelo Centro Histórico
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Ponte de Lima a Pé: Roteiro de Arquitectura pelo Centro Histórico

· · Ponte de Lima

De manhã cedo, quando a luz rasante bate nas fachadas de granito e as ruas ainda estão vazias, Ponte de Lima revela o melhor catálogo compacto de arquitectura portuguesa no Minho. Um roteiro a pé que vai do românico ao neoclássico em menos de duas horas.

Ponte de Lima tem a mania de se apresentar como «a vila mais antiga de Portugal», e é verdade, tem carta de foral desde 1125, cortesia de Dona Teresa. Mas o que torna o centro histórico realmente interessante não é o título, é o que ficou de pé. Há aqui um catálogo compacto de arquitectura portuguesa que vai do românico ao neoclássico, todo concentrado numa área que se percorre em menos de duas horas. Sem autocarro turístico, sem audioguia, sem filas. Só ruas estreitas, granito de verdade e fachadas com brasões que ninguém se deu ao trabalho de arrancar.

O Ponto de Partida: A Ponte

Qualquer roteiro em Ponte de Lima começa, logicamente, na ponte. E esta merece atenção antes de a atravessar a correr para chegar ao centro. São 380 metros que juntam duas épocas distintas: a secção romana, do século I, com os seus arcos mais baixos e robustos, e a extensão medieval do século XIV, mais alta e elegante. Pare a meio. Olhe para o rio Lima a correr lento, para a Avenida dos Plátanos na margem oposta. São plátanos centenários que formam um túnel verde na margem, e ao princípio da manhã há ali um silêncio que não se encontra em mais nenhuma vila turística do Minho.

A ponte está classificada como Monumento Nacional, e é fácil perceber porquê. Não é só bonita, é um documento construído. Os silhares romanos, mais escuros e irregulares, contrastam com a cantaria medieval, mais clara e regular. Se tiver olho para estas coisas, vai notar a diferença logo nos primeiros arcos.

Praça da República e os Paços do Marquês

Depois de atravessar a ponte, entra-se directamente na Praça da República, o centro cívico da vila. Do lado esquerdo, os Paços do Marquês, hoje Câmara Municipal, dominam a praça com uma presença que não pede desculpa. O edifício data de 1469, foi residência dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira (mais tarde Marqueses de Ponte de Lima), e tem uma fachada que combina austeridade militar com elegância inesperada: duas torres quadrangulares ameiadas flanqueiam um portal e duas amplas janelas manuelinas que o neto do construtor original mandou abrir no século XVI. É um dos melhores exemplos de arquitectura senhorial do norte de Portugal.

Não se fique só pela fachada. A curva ligeira e reentrante do corpo central é um detalhe arquitectónico raro que mostra uma sofisticação invulgar para a época. A maioria das pessoas passa ao lado sem reparar. Não seja essa pessoa.

Torre da Cadeia Velha e Torre de São Paulo

Da Praça da República, caminhe para a esquerda ao longo do que resta da muralha medieval. O Rei D. Pedro I mandou construir estas muralhas no século XIV, tinham nove torres e seis portas. Hoje sobram duas torres que valem a visita.

A Torre da Cadeia Velha foi prisão até 1960 (sim, prendiam gente ali até ao tempo do Totobola) e agora funciona como posto de turismo interactivo. É uma boa primeira paragem para apanhar um mapa e orientar-se. A construção é robusta, com paredes grossas de granito e ameias que lembram que isto era para defender, não para decorar.

A poucos metros, a Torre de São Paulo tem um detalhe que vale a caminhada por si só: um painel de azulejos na fachada com a inscrição «São cabras, senhor», uma referência a uma lenda local sobre os habitantes da vila que, durante uma batalha, terão confundido cabras com soldados inimigos. É uma história que os limanos contam com um sorriso entre dentes, e o azulejo garante que ninguém a esquece.

A Igreja Matriz e a Misericórdia: Duas Igrejas, Dois Mundos

Continue pela Rua Cardeal Saraiva, uma das artérias principais do centro histórico, e vai encontrar duas igrejas frente a frente que contam histórias arquitectónicas completamente diferentes.

A Igreja Matriz (Igreja de Santa Maria dos Anjos) tem fundações medievais, mas o que se vê hoje é o resultado de séculos de intervenções. A nave central e as duas naves laterais estão separadas por pilares com capitéis clássicos. O interior tem tectos de madeira apainelada na nave e abóbada de berço em pedra na capela-mor, uma mistura que revela as diferentes fases de construção. O elemento mais marcante da fachada é a rosácea neo-gótica, introduzida em 1932 e inspirada na Igreja de São Francisco, no Porto. Pode parecer um anacronismo, mas funciona surpreendentemente bem.

Do outro lado, a Igreja da Misericórdia é mais contida mas não menos interessante. Arquitectura maneirista e barroca numa planta de nave única. O portal maneirista encimado por uma imagem da Virgem é elegante sem ser ostensivo. Lá dentro, procure o púlpito em talha dourada e o frontal de altar que representa o Milagre da Multiplicação dos Pães, é uma peça notável que muitas vezes passa despercebida porque os visitantes já estão a pensar no almoço.

O Teatro Diogo Bernardes: Jóia do Século XIX

Se há um edifício em Ponte de Lima que merece uma paragem mais demorada, é o Teatro Diogo Bernardes. Encomendado em 1893 por um grupo de cidadãos locais liderados por João Rodrigues de Morais, o projecto é do arquitecto António Adelino de Magalhães Moutinho, arquitecto municipal de Viana do Castelo. Foi inaugurado a 19 de Setembro de 1896 com a Companhia de Ópera Cómica Portuguesa.

O teatro segue o modelo italiano, planta longitudinal com dois corpos rectangulares em eixo, distribuídos por cinco pisos. O auditório tem planta em ferradura rodeada por três níveis de balcões com arcos abatidos. O tecto é abobadado e o arco do proscénio é também em arco abatido. Originalmente tinha pinturas no tecto e um pano de boca com uma vista panorâmica de Ponte de Lima, da autoria de Eduardo Reis, infelizmente as pinturas desapareceram.

Depois de anos de degradação, a Câmara adquiriu o edifício em 1992 e as obras de recuperação, assinadas pelo arquitecto Luís Faro Viana, terminaram com a reinauguração em 1999. Hoje é um espaço cultural activo, consulte a programação antes de ir, porque assistir a um espectáculo aqui é a melhor forma de apreciar o interior.

Onde Comer Depois do Passeio

Arquitectura dá fome. E Ponte de Lima resolve esse problema com competência.

O Restaurante O Lagar é uma escolha sólida, com cozinha regional bem executada. O arroz de sarrabulho e o bacalhau são apostas seguras. Fica no centro, portanto encaixa perfeitamente no final deste roteiro.

Se preferir algo com mais carácter no espaço, o Restaurante Beco das Selas ocupa um beco, como o nome indica, e tem uma atmosfera mais intimista. A cozinha minhota aqui é honesta e directa. Peça o que for da região e da estação. A carta de vinhos verdes é, como seria de esperar nesta zona, generosa.

Para Prolongar a Estadia

Se o passeio arquitectónico o deixou com vontade de ficar mais tempo, e Ponte de Lima tem esse efeito, há duas experiências que recomendo.

Para quem precisa de descomprimir a sério, o Ritual do Silêncio no Axis Wellness é um programa de bem-estar que leva o conceito de descanso ao limite. Não é o típico spa de hotel, é uma experiência pensada para desligar de verdade.

Outra opção é o Refúgio Silencioso no Carmo's Boutique Hotel, que combina o conforto de um boutique hotel com a paisagem do Minho. É o tipo de sítio onde se chega para uma noite e se fica três.

Notas Práticas

O roteiro que descrevi faz-se confortavelmente em hora e meia a duas horas, dependendo de quanto tempo perde a olhar para detalhes em cantaria (e deveria perder bastante). Use calçado confortável, há troços em calçada de granito que escorrega quando chove, e no Minho chove com frequência.

A melhor hora para fazer este percurso é de manhã cedo, antes das dez. A luz rasante faz maravilhas nas fachadas de granito e as ruas estão praticamente vazias. Ao sábado de manhã há o mercado na margem do rio, funciona há séculos, literalmente, e vale a pena combinar as duas coisas.

Para quem vem de carro, há parqueamento gratuito junto à margem do Lima, perto da Avenida dos Plátanos. De transportes públicos, há ligações regulares a partir de Viana do Castelo e Braga, mas confirme horários localmente porque variam com a estação.

E se estiver a explorar a região, Barcelos fica a menos de meia hora e tem o seu próprio interesse, desde os museus que valem a pena (e os que não) até cafés onde se bebe café a sério.

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