Óbidos Sem Turistas: Onde se Come a Sério
A Rua Direita é o pior sítio para comer em Óbidos, e dizemos-lhe porquê. Onde beber ginjinha a sério, qual o melhor pastel de bacalhau da vila e como evitar a armadilha do copo de chocolate.
Há duas vilas dentro das muralhas de Óbidos. Uma abre por volta das dez da manhã, quando os autocarros estacionam à porta da Porta da Vila e despejam centenas de pessoas na Rua Direita, todas em busca do mesmo: um copo de chocolate dentro de uma taça de chocolate, uma magnete, uma fotografia das casas brancas com faixas azuis e amarelas. A outra vila acorda às sete, quando o único barulho na Rua da Cidadela é o de um portão de ferro a abrir e o cheiro a café a sair de uma porta entreaberta. É desta segunda vila que vamos falar. Não da postal, mas da que come.
Digo já o que penso, sem rodeios: a Rua Direita, a artéria principal por onde passa noventa por cento dos visitantes, é o pior sítio para comer em Óbidos. Não é uma crítica moral, é matemática. Quando uma rua vive de pessoas que passam uma vez e nunca mais voltam, ninguém tem incentivo para cozinhar bem. Os preços sobem, as porções encolhem, a ginjinha é industrial e o bacalhau vem congelado. Vire as costas a essa rua. Suba os degraus laterais, perca-se nas ruelas paralelas, e a vila muda de personagem em vinte metros.
A ginjinha, e como não a beber como turista
Vamos resolver isto primeiro porque é a pergunta que toda a gente faz. Sim, deve provar ginjinha em Óbidos. É um licor de ginja, doce, espesso, com um travo a amêndoa por causa do caroço. A versão servida no copo de chocolate custa cerca de um euro e meio e é uma armadilha encantadora: o chocolate é mau, derrete na mão, e abafa o licor. Beba-a uma vez pela experiência e depois faça o que os locais fazem: peça num copo de vidro pequeno, sem o teatro. Saberá melhor e ninguém o olha como se fosse a sua primeira visita.
Onde a beber a sério? Num balcão que parece um cenário e que existe há décadas: o Bar Ibn Errik Rex, na Rua Josefa de Óbidos. É escuro, cheio de garrafas até ao teto, com uma decoração que não mudou desde os anos setenta e um proprietário que serve as suas próprias misturas. Não é um bar de cocktails moderno, é um templo de licores caseiros. Peça uma ginjinha da casa, ou deixe-se aconselhar. Vá ao fim da tarde, quando os autocarros já partiram e o balcão fica para quem ali mora.
Onde almoçar quando quer comer, não fotografar
O melhor petisco de Óbidos para levar na mão e comer a andar não é a ginjinha: é o pastel de bacalhau. E há um sítio que faz disto religião. A Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau serve o pastel recheado com Queijo da Serra da Estrela, quentinho, a desfazer-se. É um conceito que existe noutras cidades, sim, e há quem torça o nariz por ser uma cadeia, mas a verdade é simples: está bem feito, é consistente, e num sítio onde tanta coisa é armadilha para turistas, um pastel que cumpre o que promete vale o desvio. Acompanhe com um copo de vinho branco da região. Custa poucos euros e resolve um almoço leve antes de continuar a subir as muralhas.
Para uma refeição sentada, a sério, com tacho e tempo, atravesse para fora do eixo turístico e procure a Capinha d'Óbidos. É aqui que a cozinha da região aparece sem disfarces: caldeiradas, peixe fresco, carnes da zona oeste, sobremesas de colher feitas em casa. A região entre Óbidos e a costa, em redor da Lagoa de Óbidos, dá marisco e peixe que muita gente associa ao Algarve sem saber que vem daqui. Se houver enguias ou um bom arroz de marisco no quadro do dia, é por aí que deve ir. Conte com uma refeição completa por valores honestos, bem abaixo do que pagaria na Rua Direita por metade da qualidade.
O que comer, concretamente
- Pastel de bacalhau com Queijo da Serra: o melhor petisco de mão da vila, quente, para comer enquanto caminha.
- Peixe e marisco da Lagoa de Óbidos: a zona oeste é despensa de Lisboa. Arroz de marisco, caldeirada, amêijoas.
- Trouxas de ovos e pão-de-ló: a doçaria conventual da região, herança das ordens religiosas. Doce, gemada, sem pudor.
- Ginjinha de Óbidos: obrigatória, mas num copo de vidro, não de chocolate, se quiser realmente prová-la.
O calendário manda na mesa
Quando vem a Óbidos define o que come, e quase ninguém avisa disto. Em março e abril, a vila enche-se para o Festival Internacional de Chocolate, e durante essas semanas tudo gira em torno do cacau, desde esculturas gigantes a pratos salgados com toque de chocolate. É divertido, mas é a altura mais cheia do ano: vá durante a semana se conseguir.
Em julho e agosto, o Mercado Medieval transforma a vila num teatro a céu aberto, com tabernas de frango assado no espeto, javali, pão escuro e hidromel servido em canecas de barro. É turístico, claro, mas a comida é genuinamente boa e o ambiente à noite, com tochas acesas nas muralhas, justifica o bilhete de entrada. Coma de pé, com as mãos, e beba o hidromel mesmo que ache que não vai gostar. No Natal, a Óbidos Vila Natal traz castanhas assadas e doces de época. Cada estação tem a sua mesa.
Se gosta de perceber a comida pela bebida que a acompanha, vale a pena sair um pouco da vila. A tradição vinícola desta zona é antiga e séria, e a visita às caves históricas da Quinta do Sanguinhal mostra os vinhos e aguardentes que estão por trás de muito do que se bebe à mesa por aqui. É a melhor maneira de entender porque é que a região oeste tem uma cultura de licores e vinhos próprios, e não apenas a ginjinha das montras.
Dormir onde também se come bem
Óbidos é pequena, e a melhor decisão que pode tomar é ficar a dormir dentro das muralhas. A vila esvazia-se ao fim do dia, e o privilégio de ter as ruas de pedra quase só para si, ao anoitecer e ao amanhecer, é a verdadeira razão para passar cá a noite. E acontece que os melhores sítios para dormir também resolvem o jantar.
No topo, literalmente, está a Pousada Castelo de Óbidos, instalada no próprio castelo medieval. Dormir entre muralhas com mais de oitocentos anos não é barato, mas o restaurante serve cozinha portuguesa num cenário que nenhum outro sítio da vila consegue igualar. Mesmo que não fique hospedado, vale uma reserva para jantar numa noite especial.
Para algo com mais personalidade e menos solenidade, o The Literary Man Óbidos Hotel é um hotel construído à volta de livros, com dezenas de milhares de volumes nas paredes e um bar de gin que é dos melhores sítios da vila para acabar a noite. Óbidos é, afinal, uma vila literária da UNESCO, e este hotel é a expressão mais completa dessa identidade. Beba um gin entre estantes depois do jantar; é mais Óbidos do que qualquer copo de chocolate.
E para quem quer requinte sereno, a Casa das Senhoras Rainhas, junto à igreja de Santa Maria, junta quartos elegantes a um restaurante que leva a cozinha a sério. É o tipo de sítio onde se janta devagar, sem pressa de apanhar o último autocarro, porque o quarto está logo ali em cima.
Como chegar, e o erro que toda a gente comete
Óbidos fica a cerca de uma hora a norte de Lisboa. De carro, é a A8; mas o estacionamento dentro das muralhas é proibido e os parques à volta enchem cedo no verão. O truque é simples: chegue antes das dez da manhã ou depois das quatro da tarde, e fica com lugar e com a vila quase vazia. De transportes públicos, há autocarros expresso da Rede Expressos a partir do terminal de Sete Rios em Lisboa, que demoram cerca de uma hora. É a opção mais descansada se não quiser conduzir.
O erro que quase todos cometem é vir num bate-volta de meio dia, chegar ao meio da manhã com os autocarros, andar a Rua Direita de uma ponta à outra, beber a ginjinha no copo de chocolate e ir-se embora ao princípio da tarde. Veem a vila no seu pior momento e levam dela a impressão de uma armadilha turística. Faça o contrário. Chegue tarde, fique a dormir, jante devagar, acorde cedo e caminhe as muralhas com o nevoeiro ainda agarrado às ameias. A Óbidos das sete da manhã não tem nada a ver com a Óbidos do meio-dia.
Para lá da mesa
Comer bem em Óbidos é também perceber a vila à volta do prato. Entre as caminhadas e os jantares, reserve uma tarde para o roteiro pelos murais e pela arte urbana da vila literária, que mostra um lado contemporâneo de Óbidos que escapa a quem só anda na rua principal. É a prova de que esta não é uma vila congelada no tempo, mas um sítio vivo onde a tradição e o presente convivem nas mesmas paredes.
Se ficou com vontade de continuar a explorar a região à volta de Lisboa pela comida e pelos costumes, há mais para descobrir. Vale a pena perceber as tradições e os bairros mais autênticos de Lisboa antes ou depois de Óbidos, e quem viaja na Páscoa não deve perder o roteiro dos doces de Páscoa em Mafra, a meia hora de distância, onde a doçaria conventual ganha outra dimensão nesta época do ano.
No fim, Óbidos resume-se a uma escolha. Pode ser a vila do copo de chocolate, fotografada e esquecida em duas horas. Ou pode ser a vila do pastel de bacalhau quente comido num degrau de pedra, da ginjinha bebida ao balcão de um bar antigo, do peixe da lagoa servido longe da multidão e do gin bebido entre livros quando os autocarros já partiram. A segunda demora mais tempo e custa mais alguns euros. Vale cada um deles.