Lagos ao Ritmo do Calendário: Festas que Valem o Ano
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Lagos ao Ritmo do Calendário: Festas que Valem o Ano

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O Carnaval é em fevereiro, o melhor clima é em maio e outubro, e a festa imperdível é o Banho 29, quando à meia-noite de 28 de agosto a cidade inteira entra no mar. Um calendário honesto de Lagos para fugir das filas e apanhar as festas certas.

Há duas Lagos. Há a Lagos que se vende em folhetos, com a Ponta da Piedade ao pôr do sol e cervejas a oito euros na Rua 25 de Abril em agosto. E há a Lagos que aparece quando a cidade decide festejar à sua maneira, sem pedir licença ao turismo. A segunda é muito mais interessante, e quase sempre acontece nas datas que ninguém marca no calendário antes de chegar.

O problema é simples: a maioria das pessoas vem a Lagos em julho e agosto, paga o triplo por tudo, e perde precisamente as festas que justificam conhecer esta cidade para lá das grutas. Este guia organiza o ano de Lagos pelo que realmente vale a pena, com a teimosia de quem prefere uma noite de Carnaval molhada de chuva a uma tarde de praia sobrelotada.

Fevereiro e março: o Carnaval que não finge ser do Rio

Comecemos pelo princípio do calendário festivo. O Carnaval de Lagos não tem a megalomania de Loulé nem a fama de Torres Vedras, e é exatamente por isso que sobrevive com alguma dignidade. É um Carnaval de bairro, com carros alegóricos feitos por coletividades, escolas e grupos que se conhecem todos, e que normalmente desfila pela Avenida dos Descobrimentos e pelas ruas da baixa.

Vá no domingo ou na terça-feira gorda, ao fim da tarde, quando a luz baixa e as famílias saem à rua. As crianças vão fantasiadas, há bandas de percussão, e o tom é mais sátira local do que espetáculo televisivo. É frio, muitas vezes chove, e isso faz parte. Se quiser perceber quem é quem nas associações da cidade e como a baixa está organizada, vale a pena ler antes o nosso guia de bairros de Lagos, porque o Carnaval é, no fundo, os bairros a saírem à rua.

Confirme as datas localmente todos os anos, porque variam com a Páscoa, mas conte com final de fevereiro ou início de março. A entrada é gratuita. Depois do desfile, a baixa enche e os bares ficam cheios.

Primavera: a estação que os turistas ignoram (e fazem mal)

Entre março e maio, Lagos está no seu melhor estado civil. As esplanadas voltam a abrir, o mar começa a ser nadável para os mais corajosos, e os preços ainda não enlouqueceram. É a melhor altura para fazer as coisas que em agosto se transformam em filas.

O passeio de barco pelas grutas e costa de Lagos em maio é uma experiência completamente diferente da de agosto: menos barcos, mar mais calmo de manhã, e luz mais limpa para fotografar a Ponta da Piedade. Faça-o cedo, antes das 10h, antes do vento da tarde. Pela mesma razão, a primavera é a estação alta dos golfinhos: o avistamento de golfinhos com biólogos marinhos tem mais probabilidade de sucesso quando o mar está liso e os roazes andam mais à superfície. Não é um parque temático, são animais selvagens, por isso ninguém lhe garante nada, mas a primavera joga a seu favor.

Se a primavera lhe trouxer um dia de chuva, e traz quase sempre pelo menos um, esse é o dia para entrar nas lojas tradicionais de Lagos com tempo. Não é a mesma coisa fazê-lo a transpirar em agosto a fugir do sol; é outra coisa fazê-lo numa manhã fresca de abril, conversa com calma, a comprar conservas e cerâmica a quem as conhece.

Junho: os Santos Populares à maneira do Algarve

Junho traz os Santos Populares, e aqui convém ser honesto: os arraiais de Santo António e São João em Lagos não têm a escala dos de Lisboa ou Porto. Mas têm sardinha assada na rua, manjericos, bailarico, e uma vantagem enorme que é não estar no meio de um milhão de pessoas. Por toda a baixa cheira a sardinha e a pimento assado, e as coletividades montam barracas com vinho a copo barato.

É também o mês em que a cidade começa a ligar o motor para o verão. Para perceber esta dimensão mais comunitária do Algarve, que tantas vezes desaparece debaixo do turismo, recomendo ler o nosso ensaio sobre cultura local em Faro e o Algarve autêntico: muito do que descreve aplica-se a Lagos, porque os Santos Populares são exatamente o momento em que a região se lembra de que existe para lá das praias.

Onde acabar a noite de junho

Depois da sardinha, o programa natural é descer para um copo. O Bon Vivant é o clássico da noite da baixa, com vários pisos e um terraço, e nas noites de festa enche cedo. Se preferir algo mais calmo e com mais conversa, o Mar d'Estórias funciona como loja, café e bar ao mesmo tempo, e o terraço é dos sítios mais civilizados da cidade para um copo de vinho do Algarve sem música a gritar.

Agosto: o Banho 29, a melhor festa de Lagos

Se houver uma única data para apontar no calendário, é esta. Na noite de 28 para 29 de agosto, Lagos celebra o Banho 29, uma tradição antiga ligada a São João Degolado em que, à meia-noite, a cidade desce à Meia Praia e à zona ribeirinha para tomar banho de mar. Diz a tradição que esse banho cura e protege para o ano inteiro.

Na prática, é uma noite em que toda a cidade, locais e visitantes, vai à beira-mar. Há barracas, música, gente sentada na areia até de madrugada, e a meia-noite com pessoas a entrar na água de roupa e tudo. Não é uma festa pensada para turistas, é uma festa que aconteceu durante gerações e à qual os turistas felizmente foram convidados. Vá, leve uma toalha, não leve grandes expectativas de organização, e deixe-se levar pela noite.

Antes do banho, faz todo o sentido jantar com vista. O Luca's Rooftop Restaurant dá-lhe Lagos do alto e é um bom ponto de partida para uma noite que vai acabar molhada e a rir. Reserve com antecedência nos dias à volta de 29 de agosto, porque a cidade está cheia e os melhores terraços esgotam.

Verão: o Festival dos Descobrimentos e a memória incómoda

Lagos tem uma relação complicada e fascinante com o seu passado. Foi daqui que partiram caravelas, e foi aqui que funcionou um dos primeiros mercados de escravos da Europa, hoje memorial na antiga praça. O Festival dos Descobrimentos, que costuma decorrer no verão na zona ribeirinha, é uma recriação histórica com mercado de época, artesãos, música antiga e encenações.

É divertido para famílias e bem feito do ponto de vista cenográfico, mas o melhor é ir com olhar crítico. A parte mais honesta de Lagos é justamente a que não romantiza esta história, e visitar o memorial e o Mercado de Escravos faz parte de entender a cidade tanto quanto o festival. Confirme as datas e a programação localmente, porque variam de ano para ano e nem sempre acontece.

Lagos com crianças no verão

Se viajar com miúdos, o Festival dos Descobrimentos é um bom dia, e a recriação histórica costuma agradar. Para alargar o programa familiar a outras zonas do Algarve sem cair nas armadilhas habituais, o nosso guia honesto de Silves com crianças é o complemento óbvio: Silves fica a meia hora e tem castelo, rio e sombra a sério, coisa que em pleno agosto se agradece.

Outono: a estação secreta

Setembro e outubro são, na minha opinião direta, a melhor altura para visitar Lagos. A água do mar ainda está quente do verão, as multidões foram embora, os preços baixam, e a cidade volta a respirar ao seu ritmo. As festas grandes acabaram, mas é quando se faz a melhor Lagos do dia a dia: mercado de manhã, almoço sem fila, fim de tarde nas falésias sem cotovelos a empurrar.

É também a melhor altura para repetir o passeio de barco às grutas com mar manso e luz dourada, ou para finalmente entrar com calma nas lojas da baixa. Outubro tem dias de céu limpo que parecem oferecidos. Aproveite-os.

Dezembro: o Natal e a passagem de ano à beira-rio

O Natal em Lagos é discreto e por isso bonito. A baixa enche-se de iluminações, há um mercado de Natal junto à ribeira em alguns anos, e a cidade ganha um ar de vila pequena que em agosto desaparece por completo. É a altura de comprar presentes com sentido nas lojas tradicionais em vez de num centro comercial qualquer.

A passagem de ano costuma ter fogo de artifício sobre a marina e a ribeira, com muita gente concentrada na zona ribeirinha. Não tem a megalomania de outras cidades, mas tem a vantagem de se conseguir andar e ver o mar ao mesmo tempo. Jante cedo, encontre um lugar com vista para a água, e fique.

Como usar o calendário a seu favor

A lição é simples e impopular: as melhores festas de Lagos não coincidem com a alta estação. O Carnaval é em fevereiro, o Banho 29 é no fim de agosto quando o pior aperto já passou, e o melhor clima é em maio, setembro e outubro. Se conseguir, fuja de julho e da primeira metade de agosto, quando paga mais para gozar menos.

  • Carnaval: fevereiro ou março, gratuito, vá ao fim de tarde.
  • Santos Populares: junho, sardinha na rua, acabe a noite no Bon Vivant ou no Mar d'Estórias.
  • Banho 29: noite de 28 para 29 de agosto, a festa imperdível, jante antes no Luca's.
  • Festival dos Descobrimentos: verão, confirme datas, bom com crianças.
  • Natal e fim de ano: dezembro, discreto e sem multidões, à beira-rio.

Confirme sempre as datas exatas junto da Câmara Municipal de Lagos ou do posto de turismo antes de viajar, porque os calendários mudam de ano para ano. Mas o princípio mantém-se: venha quando a cidade festeja por ela e não para si, e leve uma toalha em finais de agosto. Vai precisar dela.

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