Gerês à Chávena: O Que Pedir em Cada Café
No Gerês, o café chega em chávena grossa e serve de pretexto para ficar mais um bocado. Da Gelataria com lareira ao Lurdes Capela e ao bolo de discos com amêndoa e canela, eis o que pedir, e onde, nesta vila de montanha.
Vamos ser honestos: ninguém vai ao Gerês pelo café de especialidade. Não há latte art, não há grãos single-origin da Etiópia, não há baristas com avental de linho a explicar notas de frutos vermelhos. E ainda bem. O Gerês é um sítio onde o café chega em chávena grossa, forte como deve ser, e serve sobretudo para ancorar uma conversa longa ou para dar energia antes de uma manhã de trilhos no parque nacional.
Mas isso não quer dizer que a experiência de café no Gerês não tenha o seu encanto particular. Pelo contrário. Aqui, cada café é um micro-universo: faz de pastelaria, de restaurante, de sala de estar pública. Quem procura sofisticação urbana vai ao Porto. Quem quer perceber como funciona uma vila de montanha, e comer coisas que não encontra em mais lado nenhum, senta-se num café do Gerês e presta atenção.
O contexto: uma vila termal com personalidade
A Vila do Gerês, oficialmente Caldas do Gerês, é um lugar estreito encaixado entre montanhas, com uma rua principal que sobe e desce ao longo de uns bons quilómetros. A avenida principal concentra a maioria dos cafés e restaurantes, e no verão enche-se de visitantes que vêm para os trilhos, para as cascatas e para as piscinas naturais do Parque Nacional da Peneda-Gerês. No inverno, o cenário muda completamente: metade dos estabelecimentos fecha, e os que ficam abertos ganham uma intimidade que vale a pena procurar.
O café aqui custa o que custa no interior do Minho, por volta de €0,70 a €1, e a maioria dos sítios serve também bolos, petiscos e refeições completas. A distinção rígida entre café, pastelaria e restaurante não existe no Gerês. Um sítio onde janta cabrito assado ao almoço é o mesmo onde toma uma bica às quatro da tarde.
Gelataria do Gerês: o café com lareira
Se há um sítio na vila que funciona genuinamente como café de fim de tarde, é a Gelataria do Gerês. O nome engana, sim, tem gelados, e no verão é para aí que todos vão. Mas a verdadeira razão para vir aqui é o espaço interior, com lareira acesa nos meses frios e uma montra de bolos que muda conforme o dia.
O que pedir: no inverno, um chocolate quente e uma fatia do que estiver mais bonito na vitrine. No verão, os gelados artesanais em cone ou crepe merecem a fila. Mas se vai a meio da tarde e quer só um café com algo doce, peça um café e pergunte se têm bolo de discos, o doce tradicional do Gerês, feito com amêndoa, canela e recheio de creme de ovos. Nem sempre há, mas quando há, não hesite. É denso, é doce, é exatamente o tipo de coisa que se come depois de três horas a subir trilhos.
A Gelataria não é um sítio de grandes revelações gastronómicas, mas é honesta e tem o mérito de ser um dos poucos espaços na vila pensado para se estar, sem pressão de pedir uma refeição completa. A esplanada, nas tardes de sol, dá para a rua principal e é um bom ponto de observação da vida local.
Lurdes Capela: onde o café vem depois da refeição da vida
O Lurdes Capela não é um café. É um restaurante, e dos mais conhecidos do Gerês, já na terceira geração de família, com mais de seis décadas de história. Mas incluo-o aqui por duas razões: primeiro, porque o café que se bebe depois de comer aqui é o tipo de café que se bebe com os olhos meio fechados, de felicidade. Segundo, porque é o lugar onde melhor se compreende a cultura de mesa do Gerês.
A cozinha é a lenha, a ementa é a da serra: polvo, cabrito assado no forno, vitela barrosã, bacalhau e o famoso «pedaço», um bife panado acompanhado por migas de broa, couve e mel, e chalotas. É porção generosa, preço justo, e a sala tem 45 lugares, o que quer dizer que no verão é preciso chegar cedo ou esperar.
O que pedir: almoce aqui, o cabrito ou o pedaço, sem hesitar, e depois peça um café e uma aguardente de mel. A aguardente do Gerês, destilada na região, é um digestivo sério que não se encontra com esta qualidade fora do Minho. Se preferir algo mais suave, peça um licor de mel ou de medronho, conforme o que tiverem. É o tipo de final de refeição que justifica ter vindo à serra.
Para quem anda a explorar trilhos na zona, o Lurdes Capela funciona bem como paragem de almoço antes ou depois de uma caminhada pela Geira, a antiga estrada romana que atravessa o parque. Almoça-se bem, bebe-se o café, e segue-se caminho com a energia reposta.
Os cafés da avenida: sem nome de destaque, com função essencial
A avenida principal da Vila do Gerês tem uma série de cafés e snack-bares que se sucedem sem grande distinção visual. Nenhum deles ganha prémios de design, e a maioria tem a mesma ementa de sandes mistas, tostas, bolos industriais e café de máquina. Mas é aqui que se vive o verdadeiro ritual do café no Gerês: a paragem rápida antes do trilho, o descanso a meio da tarde, o sítio onde se consulta o mapa e se decide se se vai ou não à cascata.
A minha recomendação: não se preocupe demasiado com qual escolher. Sente-se no que tiver melhor esplanada nesse dia, peça uma bica e uma tosta mista, e use o tempo para planear o que fazer a seguir. Se estiver com energia para uma aventura mais intensa, o canyoning no Rio Arado é das experiências mais memoráveis que se pode ter no parque, e convém ir com o estômago leve e a cafeína no sangue.
Um conselho prático: nos meses de julho e agosto, estes cafés ficam cheios ao ponto de não haver lugar sentado. Se quer tranquilidade, vá antes das 10h ou depois das 17h.
Essentia do Gerês: o desvio contemporâneo
O Essentia do Gerês é provavelmente o estabelecimento mais contemporâneo da zona. A proposta é diferente do típico restaurante serrano: cozinha mediterrânica com toques internacionais, apresentação mais cuidada, ambiente mais polido. Não é o sítio onde vai comer cabrito à moda da serra, mas é uma alternativa bem-vinda para quem está no Gerês há alguns dias e quer variar.
O que pedir: aqui o café funciona melhor como parte de uma refeição completa. Os sobremesas merecem atenção, pergunte o que têm do dia. O café em si é correcto, sem ser de especialidade. A vantagem do Essentia é o ambiente e o serviço, que tendem a ser mais consistentes do que noutros sítios da vila.
Confirme os horários localmente, especialmente fora da época alta, como muitos estabelecimentos na zona, o Essentia pode ter horários reduzidos no inverno.
O bolo de discos: o doce que vale a viagem
Se há uma coisa que deve mesmo comer com o café no Gerês, é o bolo de discos, também chamado simplesmente bolo de Gerês. É uma receita tradicional da região: camadas finas de massa intercaladas com recheio de creme de ovos, amêndoa moída e canela. Cada camada é como um disco (daí o nome), e o resultado é um bolo denso, perfumado, que casa extraordinariamente bem com um café forte.
Não se encontra em todos os cafés, e as versões variam. Algumas pastelarias da vila fazem-no de forma artesanal, outras vendem versões mais industriais. Pergunte sempre se é feito na casa. Quando é, nota-se imediatamente, o creme é mais fresco, a massa mais fina, o sabor de amêndoa mais presente.
Para lá do café: o que beber no Gerês
A região do Minho é terra de vinho verde, e no Gerês bebe-se vinho verde como se bebe água, com naturalidade e em quantidade. Nos restaurantes, é quase sempre a opção mais barata e mais adequada para acompanhar as refeições pesadas da serra. Peça o da casa e raramente ficará desiludido.
A aguardente de mel é a outra bebida obrigatória. Produzida localmente, é o digestivo de eleição e aparece em quase todos os restaurantes e cafés da vila. Há quem a beba pura, há quem a misture com café, uma espécie de café com cheirinho que no Gerês atinge uma dimensão própria.
Informações práticas
A Vila do Gerês fica no concelho de Terras de Bouro, distrito de Braga. Chega-se de carro em cerca de uma hora desde Braga, pela N304. Não há transportes públicos frequentes, por isso o carro é quase obrigatório.
No verão, o estacionamento é um problema sério. Chegue cedo, antes das 10h, se quiser estacionar perto da vila. Nos fins de semana de julho e agosto, prepare-se para caminhar.
Se está a planear uma viagem mais alargada pelo Minho, vale a pena combinar o Gerês com uma passagem por Barcelos, que fica a menos de uma hora. A cidade tem uma cena de café surpreendentemente boa para o tamanho que tem, e também merece uma visita pelos museus, alguns valem a pena, outros nem tanto. Para quem viaja com crianças, há um guia honesto que ajuda a separar o essencial do dispensável.
O Gerês não é um destino de café no sentido cosmopolita. Mas é um destino onde o café tem um papel, de pausa, de ritual, de pretexto para ficar mais um bocado. E às vezes, o melhor café é simplesmente aquele que se bebe com vista para a serra, depois de um dia bem vivido.