Festival Med de Loulé: Música do Mundo no Algarve
Quatro noites de junho em que o centro histórico de Loulé fecha aos carros e abre os palcos a mais de cem concertos do Mediterrâneo, África e mundo árabe. Onde dormir, onde comer arroz de polvo antes do primeiro concerto, e porque é que os palcos pequenos são sempre os melhores.
Há um momento, por volta das onze da noite no final de junho, em que a Rua 5 de Outubro deixa de ser uma rua e passa a ser um corredor de cheiros e ritmos. Um cozinheiro tunisino agita uma frigideira de merguez, três passos à frente uma senhora vende caracóis num copo de plástico, e algures num palco escondido atrás do convento do Espírito Santo uma cantora cabo-verdiana ataca uma morna que faz a multidão parar a meio do gole. É isto o Festival Med. Não é a Womad, não é o Boom, não é uma daquelas coisas em que se vai dançar de purpurinas até de manhã. É uma cidade inteira a transformar-se em palco durante quatro noites, e é, sem grande discussão, o melhor festival de música do mundo a sul do Tejo.
O que é, afinal, o Festival Med
O Festival Med nasceu em 2004, organizado pela Câmara Municipal de Loulé, e a ideia era simples: pegar no centro histórico, fechá-lo aos carros, encher os largos de palcos e trazer músicos do Mediterrâneo, de África, do mundo árabe, da América Latina. Vinte anos depois, a coisa cresceu. Hoje passam por aqui mais de cem concertos em quatro noites, espalhados por uma dúzia de palcos, e o programa atravessa fado, gnawa marroquino, kuduro angolano, flamenco, klezmer, electrónica balcânica. Não é eclectismo de catálogo. É curadoria a sério, daquela em que se sente que alguém ouviu o disco antes de meter o artista no cartaz.
Acontece sempre nos últimos dias de junho, normalmente de quinta a domingo. As datas exactas mudam todos os anos, por isso confirme no site oficial. O bilhete diário ronda os 15 a 18 euros e o passe para os quatro dias costuma andar pelos 35. Para o que se ouve, é roubado. Para o que se come e se bebe pelo caminho, é um bom investimento em felicidade.
Porque é que isto não é só mais um festival
A diferença está na geografia. A maioria dos festivais constrói uma cidade temporária num descampado. O Med faz o contrário: usa uma cidade que já existe, com 800 anos em cima dela, e enfia a música dentro das paredes. Há concertos no pátio do Convento de Santo António, no Largo D. Pedro I, em frente à Igreja de São Clemente, ao lado das muralhas mouriscas. Vai-se de um palco a outro a pé, em cinco minutos, e pelo caminho passa-se por casas onde as pessoas estão à janela em camisola interior a ver o desfile com ar de quem já viu isto vinte vezes e continua a achar piada.
Onde dormir (e porquê dormir em Loulé, e não em Vilamoura)
Vou ser directo: muita gente que vai ao Med dorme em Vilamoura, Quarteira ou Almancil, porque é onde têm hotel reservado para a semana. Erro. O festival acaba às três da manhã, os táxis ficam impossíveis, e o melhor da experiência é precisamente conseguir voltar a pé, atordoado, pelas ruelas vazias com o cheiro de chouriço grelhado ainda agarrado à roupa.
Se quiserem ficar dentro do perímetro, a CASA BRAVA é a escolha óbvia para quem não quer voltar a fazer check-in em hotéis de cadeia com lobby aromatizado a baunilha. Casa de pedra recuperada com bom gosto, pé direito alto, cozinha onde se pode aterrar com uma caixa de pastéis de nata de manhã. Reserve com três meses de antecedência se quiserem apanhá-la no fim de semana do festival, porque os louletanos que sabem das coisas avisam os amigos cedo.
Plano B
Se não houver vaga em alojamento local dentro do centro, considerem ficar nas aldeias do interior. Querença, Salir, Alte. Sobe-se cinco minutos de carro, dorme-se no fresco, e de manhã acorda-se com galos em vez de turistas a fazerem rolar malas pela calçada. Para um perfil mais activo, podem combinar a estada com o retiro de yoga na Serra de Loulé no Wild View, que é o antídoto perfeito para três noites a dormir mal por causa do baixo dos bongós a ressoar pelas janelas.
Como atacar a cidade antes do festival começar
Os concertos começam ao final da tarde, geralmente por volta das 19h, mas a cidade abre-se desde o meio-dia. Quem chega cedo e quer fazer turismo a sério tem aqui um problema bom: Loulé é uma cidade densa, com sete museus pequeninos espalhados pelo centro, e é fácil perder-se a tentar ver tudo. A maneira inteligente de o fazer é seguir o roteiro da maratona de museus pelos sete polos. Funciona como um mapa do tesouro, ao ritmo certo, e termina à hora exacta para se entrar no festival sem ter os pés a arder.
O ponto não negociável é o Castelo de Loulé. Não é Sintra, não é Marvão, mas tem o que conta: parede mourisca do século XII, vista privilegiada sobre os palcos do festival, e uma das galerias municipais lá dentro. Sobe-se à muralha ao fim da tarde, vê-se a praça a encher por baixo, e por dois euros tem-se o que algumas pessoas pagam quarenta para ter num miradouro em Lisboa. Aproveitem antes das 18h, porque depois fecha.
O que comer (e o que evitar)
Durante o festival montam-se barracas de comida do mundo no recinto: cuscuz marroquino, samosas indianas, ceviche peruano, falafel sírio. Algumas são óptimas, outras são turismo gastronómico de média qualidade a 12 euros o prato. A regra é simples: se a barraca tem fila de portugueses, é boa. Se só tem turistas distraídos a tirar fotografias ao prato antes de comerem, fujam.
Mas a verdade é que o melhor sítio para jantar antes do festival continua a ser o Restaurante Bocage. Não é o sítio mais bonito da cidade, não tem decoração de revista, e o empregado vai-vos tratar como se vos conhecesse há vinte anos mesmo que seja a primeira vez que lá entram. Peçam o arroz de polvo se estiver na carta do dia, ou o cherne grelhado, ou a feijoada de búzios. Vinho da casa, pão com manteiga de sardinha, café no fim. Sai-se de lá pronto para aguentar três bandas seguidas sem precisar de cair num churrasco às duas da manhã.
Pequenos-almoços de salvação
Aviso aos navegantes: vão dormir tarde, e o pequeno-almoço do hotel não vai existir. Procurem uma pastelaria no Largo Tribunal ou na Rua 9 de Abril, peçam um pastel de massa tenra (especialidade de Loulé, salgado, parecido com pastel de Chaves), um galão e zero ambições. A cidade trata-vos do resto.
A logística do festival, sem floreados
Os palcos principais costumam ser quatro ou cinco, e há sempre um circuito de palcos menores, mais íntimos, dentro de pátios e claustros. O programa sai em meados de maio. Truque de profissional: não façam plano fechado para a noite toda. Escolham dois concertos imperdíveis e deixem o resto ao acaso. As melhores descobertas acontecem sempre quando se ouve baixo a sair de um portão entreaberto e se decide ir ver o que é.
- Bilhetes: compram-se online no site do festival ou nas bilheteiras à entrada do recinto. Levem trocos, há sempre filas no multibanco da Rua da Barbacã.
- Mobilidade: tudo se faz a pé. O centro fecha aos carros. Se vierem de Faro, há autocarros da Vamus até cerca das 21h, depois é táxi (uns 20 a 25 euros) ou Uber, quando há.
- Casas de banho: distribuídas pelo recinto, mas para evitar filas saiam um pouco do circuito principal, há cafés que deixam ir lá dentro.
- O que levar: calçado confortável (calçada portuguesa, três dias seguidos, façam as contas), uma camisola fina para depois da meia-noite, dinheiro em notas pequenas para as barracas.
O dia seguinte: como recuperar
Quem aguenta os quatro dias inteiros é candidato a internamento por exaustão. A solução é gerir bem o dia. Aproveitem as manhãs para explorar o Algarve a sério, longe das praias lotadas. Se viajarem com crianças, há um guia honesto sobre Silves para famílias que cobre bem a alternativa cultural, a meia hora de carro.
Para quem quer perceber melhor o substrato cultural do festival, o guia sobre cultura local em Faro e o guia de bairros de Lagos ajudam a compor o puzzle. O Med não acontece por acaso em Loulé. Acontece porque o Algarve, longe da espuma das piscinas resort, é uma terra de fronteira, de gente que ouviu sempre o que vinha do outro lado do mar. A música mediterrânica daqui não é exotismo importado, é vizinhança.
Opinião não solicitada
Se for a vossa primeira vez no Med, façam três coisas: cheguem na quinta-feira, comam no Bocage antes de tudo começar, e dediquem uma noite inteira aos palcos pequenos, sem olhar para o programa. Saltem a tentação de irem ao concerto principal só porque está toda a gente lá. As melhores noites do meu Med foram sempre num pátio com 200 pessoas e um grupo cabo-verdiano que ninguém conhecia, em vez de uma multidão de cinco mil a ver alguém vagamente famoso.
E sim, vão tirar fotografias. Vão postar nas redes sociais. Vão chegar a casa a dizer aos amigos que descobriram um festival incrível. Mas façam um favor à cidade: voltem fora de junho. Loulé tem mercado municipal aos sábados de manhã que é um espectáculo por si só, tem aldeias serranas a meia hora, tem a Fonte Benémola para passear num domingo. O Med abre a porta. O resto do Loulé fica para quem ficar.