Amarante ao Entardecer: Vinho e Petiscos para Gulosos
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Amarante ao Entardecer: Vinho e Petiscos para Gulosos

· · Amarante

Amarante merece mais do que uma fotografia à ponte e um doce conventual. Ao entardecer, com um Avesso na mão e petiscos do Norte à frente, a cidade revela o seu melhor lado gastronómico. Este é o itinerário para quem fica.

Amarante tem um problema. É bonita demais para o seu próprio bem. As pessoas chegam, tiram fotografias à Ponte de São Gonçalo, comem um doce conventual e voltam para o Porto antes do jantar. É um erro. Porque Amarante ao final da tarde, quando a luz dourada bate no rio Tâmega e os bares começam a encher, é uma cidade completamente diferente. Mais lenta, mais generosa, mais interessante.

Este itinerário é para quem fica. Para quem percebe que uma cidade com esta tradição vinícola e gastronómica merece mais do que uma visita de duas horas. Vamos do fim de tarde à noite, de copo em copo e de petisco em petisco, sem pressa nenhuma.

Antes de tudo: o contexto

Amarante fica no coração da região do Vinho Verde, mas não é só Vinho Verde que aqui se bebe. A sub-região de Amarante tem vindo a afirmar-se com vinhos tintos de corpo médio e brancos com mais estrutura do que o típico Verde leve e frisante. Os produtores locais, como a Quinta da Lixa ou a Casa da Calçada (que também é hotel), têm investido em castas como Alvarinho, Avesso e Vinhão. Se chegam a Amarante a pensar que vão beber apenas aquele branco ligeiro de verão, preparem-se para uma surpresa.

Quanto a petiscos, estamos no Norte profundo. Aqui come-se presunto, queijo de cabra da Serra do Marão, enchidos fumados, e tudo o que a terra e o porco dão. Não esperem pratos elaborados com espuma de não-sei-quê. Esperem honestidade no prato e generosidade nas porções.

17h30: Começar devagar junto ao rio

O ponto de partida é a zona ribeirinha, junto à ponte. Antes de entrar em modo gastronómico, vale a pena caminhar pela margem do Tâmega. Se tiverem chegado mais cedo, talvez tenham tido tempo para uma volta de barco de recreio no Tâmega, que é uma forma perfeita de ver a cidade a partir da água. Mas agora, ao fim da tarde, o passeio a pé basta. O rio a esta hora tem uma calma particular, e os terraços começam a montar as mesas para a noite.

Se vieram de carro desde o Porto, a viagem demora cerca de uma hora pela A4. Se preferirem comboio, a linha do Douro leva-vos até Marco de Canaveses, e de lá são 20 minutos de autocarro. Não é o mais prático, mas a paisagem compensa. Aliás, Amarante é uma das melhores escapadelas a partir do Porto, e merece pelo menos um fim de tarde inteiro.

18h00: O primeiro copo no sítio certo

Vamos ao que interessa. O Torre Jardim Bar é o tipo de sítio que define o tom da noite. Tem uma localização privilegiada, com vista para o rio e para a ponte, e serve vinhos da região a copo. Peçam um branco Avesso da sub-região de Amarante, que é a casta que melhor expressa este terroir específico. Fresco, com uma mineralidade que lembra a pedra do Marão, e perfeito para acompanhar o primeiro petisco.

E aqui vai a primeira regra deste itinerário: nunca bebam sem comer. Não por questões de saúde (bom, também), mas porque os petiscos em Amarante são demasiado bons para serem ignorados. Se tiverem tábuas de queijos e enchidos, comecem por aí. O presunto do Barroso ou um queijo curado da serra são a abertura ideal.

Fiquem uma hora. Não se apressem. Em Amarante, jantar às 20h é perfeitamente normal, e ninguém vos vai julgar por estarem no segundo copo às seis e meia.

19h15: Mudar de registo

Depois do primeiro bar, caminhem pelo centro histórico. A Rua 31 de Janeiro e as ruas à volta da Igreja de São Gonçalo têm um charme particular ao entardecer. As fachadas de granito, os varandins de ferro, as lojas de doçaria conventual que ainda estão abertas. É nesta caminhada que percebem o tamanho real de Amarante: suficientemente pequena para ser percorrida a pé em 20 minutos, mas com esquinas suficientes para vos surpreender.

Parem numa pastelaria e comprem um doce de São Gonçalo. Sim, são aqueles doces com forma fálica. Sim, têm uma história que remonta a rituais de fertilidade. Não, não precisam de tirar uma fotografia para o Instagram, mas provavelmente vão fazê-lo. O sabor é o de um doce de ovos clássico, com massa folhada. Nada de especial a nível técnico, mas o contexto torna-os irresistíveis.

19h45: O jantar que conta

É aqui que a noite ganha substância. O Pobre Tolo é o tipo de restaurante que Amarante precisa e merece: com personalidade, sem pretensão, e com uma cozinha que respeita o produto sem o complicar. O nome já diz muito sobre a atitude do sítio.

A cozinha nortenha é o que brilha aqui. Em Amarante, as referências gastronómicas são claras: vitela barrosã, cabrito da serra, bacalhau preparado de mil maneiras, e sempre, sempre, o azeite generoso do Douro como base de tudo. Peçam o que vos parecer bem e confiem no que a cozinha manda. No Norte, raramente se come mal quando se segue a tradição.

Para acompanhar, saiam do Vinho Verde e experimentem um tinto da região. Os tintos de Amarante, feitos com Vinhão e às vezes com lotes que incluem Touriga Nacional, têm uma rusticidade franca que combina perfeitamente com carnes e queijos curados. Peçam sugestão ao serviço, que normalmente conhece os produtores locais.

Um jantar com vinho para duas pessoas em Amarante raramente ultrapassa os 50 a 70 euros, o que no contexto gastronómico português é uma excelente relação qualidade-preço. Comparem com os preços de Lisboa e chorem de alegria.

21h30: A noite ainda não acabou

Depois do jantar, a tentação é ir para o hotel. Resistam. A noite em Amarante tem um capítulo final que vale a pena, especialmente às sextas e sábados.

O Spark Bar é onde os locais vão quando querem prolongar a noite. Tem uma energia diferente dos sítios mais turísticos junto ao rio, e é onde vão encontrar amarantinos a conversar sobre futebol, política e vinhos em partes iguais. Peçam um gin tónico ou voltem ao vinho. Se o barman estiver de bom humor, peçam-lhe para vos sugerir algo fora da carta.

É neste tipo de bar que percebem a diferença entre visitar uma cidade e estar numa cidade. Os turistas já foram embora. Os que ficam são os que percebem que Amarante depois das nove é um lugar à parte.

Notas práticas para a noite perfeita

Algumas coisas que devem saber antes de irem:

  • Reservem restaurante, especialmente ao fim de semana. Amarante é pequena e os bons sítios enchem rápido.
  • Se não quiserem conduzir de volta ao Porto depois de uma noite de copos (e não devem), há alojamento de qualidade na cidade. A Casa da Calçada é a opção de luxo, mas há também turismo rural excelente nos arredores.
  • O estacionamento no centro é limitado mas gratuito em muitas ruas. Cheguem antes das 18h para encontrar lugar mais facilmente.
  • Os doces conventuais de Amarante são famosos, mas comprem-nos em lojas tradicionais, não em lojas de souvenirs. A diferença nota-se.

E no dia seguinte?

Se ficaram a dormir, o dia seguinte em Amarante tem muito para oferecer. De manhã, podem pedalar pela Ecopista do Tâmega com a Amarante Trilhos, um passeio de bicicleta que segue a antiga linha de comboio e passa por paisagens que justificam a ressaca. É plano, é fácil, e o ar fresco da manhã faz milagres.

Depois, se quiserem continuar a explorar o Norte, tanto Braga como Guimarães ficam a menos de uma hora e são destinos com peso próprio. Mas isso é outra história, e outro artigo.

Por agora, o que importa é isto: Amarante ao entardecer, com um copo de Avesso na mão e uma tábua de petiscos à frente, é uma das melhores experiências gastronómicas que o Norte de Portugal oferece. Não precisa de estrelas Michelin nem de menus de degustação com 12 momentos. Precisa de bom produto, bom vinho e tempo. Sobretudo tempo.

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