Açores em Maio: Trilhos, Lagoas e o Verde de Ponta Delgada
Em maio, São Miguel está no seu melhor: trilhos vazios, lagoas cheias das chuvas de inverno, e cozido das Furnas sem fila. O guia prático para explorar os Açores antes das multidões de verão, de Sete Cidades às estufas de ananás.
Maio nos Açores é o mês em que tudo conspira a favor do viajante. O inverno já foi, o verão ainda não chegou com as suas hordas de cruzeiros, e a ilha de São Miguel está num ponto de equilíbrio raro: verde até doer nos olhos, temperaturas entre os 16 e os 21 graus, e uma luz atlântica que faz qualquer fotografia de telemóvel parecer profissional. Se há uma janela perfeita para explorar a ilha a pé, de carro e com o estômago disponível, é esta.
O que muda em Maio
Vamos ser honestos: as hortênsias em plena floração são mais de junho e julho. Em maio, os arbustos já mostram os primeiros botões, mas o espetáculo total vem depois. O que maio oferece, e que vale mais do que qualquer sebe florida, é a ilha sem multidões. Os trilhos estão vazios às oito da manhã, os restaurantes não exigem reserva com três dias de antecedência, e os miradouros, que no pico do verão parecem parques de estacionamento, são só seus.
A temperatura da água ronda os 17-18°C, o que significa que nadar é para os corajosos ou para quem tem fato de neoprene. Mas as piscinas naturais, como as da Ferraria, onde a água aquece com atividade vulcânica, já são perfeitamente confortáveis. E os dias têm luz até quase às oito da noite, o que dá tempo para tudo.
Sete Cidades: Acordar cedo compensa
Não há como fugir: Sete Cidades é o postal dos Açores, e com razão. A lagoa dupla, uma verde, outra azul, separadas por uma ponte, vista do Miradouro da Vista do Rei é daquelas paisagens que justificam uma viagem. Mas o truque está no timing. Chegue às 7h30 e terá o miradouro para si. Às 10h, os autocarros de excursão já lá estão.
O trilho que recomendo não é o mais famoso. Esqueça a descida óbvia até à lagoa (que depois obriga a subir tudo de volta). Em vez disso, faça o trilho circular que contorna a caldeira pelo topo, são cerca de 11 quilómetros, dificuldade moderada, e as vistas mudam a cada curva. Há trechos entre túneis de hortênsias que em maio já começam a ganhar cor, e outros onde caminha literalmente na crista da caldeira com o Atlântico de um lado e a lagoa do outro.
Leve água suficiente e um corta-vento. O tempo muda depressa, pode sair de Ponta Delgada com sol e encontrar nevoeiro na caldeira. Faz parte do encanto, até porque quando o nevoeiro abre de repente, o efeito é cinematográfico.
Lagoa do Fogo: O trilho que vale o esforço
Se Sete Cidades é o postal, a Lagoa do Fogo é o segredo mal guardado. Fica no centro da ilha, dentro de uma caldeira mais íngreme e menos acessível, e essa dificuldade filtra naturalmente o número de visitantes. Há vários pontos de acesso, mas o trilho que desce até à margem da lagoa, com início perto do Miradouro da Lagoa do Fogo, demora cerca de 45 minutos na descida e o dobro na subida. O caminho é irregular, com pedra solta e lama quando chove (e em maio chove com frequência), por isso leve botas de trilho a sério.
O esforço compensa. A praia de areia branca na margem da lagoa, com a cratera vulcânica em redor e zero infraestruturas, é das paisagens mais dramáticas da Europa. Em maio, com a vegetação exuberante e a lagoa cheia das chuvas de inverno, o cenário está no seu melhor.
Furnas: Onde a terra cozinha
Furnas merece um dia inteiro. Não meio dia, não uma paragem de duas horas, um dia. A lógica é esta: de manhã, caminhada à volta da Lagoa das Furnas (trilho fácil, plano, cerca de uma hora). Vá até à zona das caldeiras, onde o cozido das Furnas é enterrado de manhã cedo em buracos no chão vulcânico e retirado ao meio-dia. Vários restaurantes da vila preparam o cozido, pergunte localmente qual tem melhor reputação nesse momento, porque muda.
O cozido das Furnas não é um prato subtil. É carne de vaca, porco, chouriço, morcela, batata, couve, cenoura, tudo cozinhado lentamente pelo calor da terra durante horas. O resultado é uma textura única, com um travo mineral que não se consegue replicar em cozinha nenhuma. Custa tipicamente entre 15 e 20 euros por pessoa.
À tarde, o Parque Terra Nostra é obrigatório. A piscina termal de água ferrosa, a 35-40°C, tem uma cor castanho-dourada que mancha fatos de banho claros (leve um escuro). O jardim botânico em redor é um dos mais impressionantes da Europa, com espécies de todo o mundo plantadas desde o século XVIII. A entrada ronda os 10 euros, confirme localmente o valor atualizado.
Se quiser prolongar a experiência termal, a Poça da Dona Beija oferece várias piscinas a diferentes temperaturas, com um ambiente mais arranjado e iluminação noturna. É mais turístico que o Terra Nostra, mas funciona bem ao final do dia.
Ponta Delgada: A base com personalidade
Ponta Delgada não é só ponto de partida, é uma cidade com vida própria e que merece atenção. As Portas da Cidade, junto ao mar, são o ponto de referência, mas o centro histórico tem ruas com carácter que pedem deambulação sem mapa. A Rua do Marquês e as ruelas em volta da Igreja Matriz têm lojas de produtos locais, cafés onde o galão custa pouco mais de um euro, e uma escala humana que faz bem.
Para comer, o roteiro gastronómico por Ponta Delgada que preparámos dá conta das melhores mesas da cidade. Mas em traços largos: o peixe fresco é rei, o bife regional com molho de pimenta da terra (uma pimenta picante cultivada nos Açores) é uma instituição, e os queijos locais, especialmente o de São Jorge, que vem da ilha vizinha mas está em toda a parte, merecem um lugar na mesa.
E não saia da ilha sem visitar as estufas de ananás em Fajã de Baixo. O ananás dos Açores é cultivado em estufas desde o século XIX, num processo lento e artesanal que produz frutos mais pequenos e intensamente doces. As plantações ficam a poucos minutos do centro de Ponta Delgada e várias permitem visita.
Onde ficar: Turismo rural é a resposta certa
Ponta Delgada tem hotéis de cadeia e apartamentos no centro, mas a melhor forma de experimentar São Miguel é ficar fora da cidade. O turismo rural aqui não é rústico por obrigação, é sofisticado, rodeado de verde, e põe-nos no meio da paisagem que viemos ver.
A Herdade do Ananás é a escolha óbvia para quem quer mergulhar na cultura agrícola da ilha sem abdicar de conforto. A Quinta da Abelheira tem uma localização que funciona como base para explorar tanto o leste como o oeste da ilha. E a Quinta da Casa Grande oferece aquele ambiente de casa senhorial açoriana que vale por si.
Qualquer uma destas opções coloca-nos a 15-25 minutos de carro do centro de Ponta Delgada, o que é perfeito. Carro alugado é essencial nos Açores, os transportes públicos existem mas são escassos e lentos. Reserve com antecedência para maio, porque a oferta não é enorme e os preços sobem à medida que o verão se aproxima. Conte com 30-50 euros por dia para um carro pequeno.
Baleias e mar
Maio é um dos melhores meses para observação de baleias nos Açores. As grandes espécies migratórias, cachalotes residentes, mas também baleias-azuis e baleias-comuns em passagem, estão ativas. As saídas partem do porto de Ponta Delgada e duram tipicamente meio dia. Não é garantido ver baleias (desconfie de quem prometa isso), mas a taxa de avistamento em maio é alta. Os golfinhos são quase certos.
Vista-se em camadas, leve protetor solar mesmo com nuvens, e saiba que o enjoo no mar é real, tome medidas preventivas se for suscetível. Os preços variam entre operadores, mas conte com 55-70 euros por pessoa para uma saída de meio dia.
Além de São Miguel
Se tiver tempo, saltar para outra ilha transforma a viagem. A SATA tem voos inter-ilhas frequentes e relativamente acessíveis. O Faial, com a Horta como base, é uma escolha forte, o nosso guia de 24 horas na Horta mostra como aproveitar mesmo com tempo limitado. O Peter Café Sport, o Vulcão dos Capelinhos, a marina pintada por velejadores de todo o mundo, há muito condensado numa ilha pequena.
Logística prática
Os voos de Lisboa e Porto para Ponta Delgada demoram cerca de 2h30. A Ryanair, a SATA e a TAP operam a rota, e em maio os preços ainda são razoáveis, entre 50 e 120 euros ida e volta se reservar com um mês de antecedência. Há também voos diretos de algumas cidades europeias.
Para uma semana em maio, um orçamento realista (sem voo) fica entre 70 e 120 euros por dia para duas pessoas, incluindo alojamento em turismo rural, carro alugado, refeições e uma ou duas atividades. Os Açores não são baratos como eram há dez anos, mas continuam mais acessíveis que a maioria dos destinos insulares europeus.
Uma última nota: maio nos Açores significa chuva. Não todos os dias, não o dia inteiro, mas chuva. Aceite-a como parte da experiência. Traga um bom impermeável, calçado que aguente lama, e a disposição certa. O verde que faz destas ilhas um lugar único no mundo não acontece por acaso.