Praia Fluvial do Pinhão
Pinhão
Vinte e quatro painéis de azulejos da Fábrica Aleluia, instalados em 1937, contam o ciclo do Vinho do Porto nas paredes da estação. Vá antes das dez da manhã, antes dos autocarros chegarem, e leia-os painel a painel: a paisagem pintada é exatamente a mesma que se vê do lado do rio.
Há estações que são pontos de passagem e há estações que são destinos. A Estação Ferroviária do Pinhão pertence categoricamente à segunda categoria. Inaugurada em 1880 como parte da Linha do Douro, esta pequena estação no Largo da Estação, 5085-037 Pinhão, transformou-se ao longo do século XX num dos lugares mais fotografados do interior português. E não é por acaso. São os 24 painéis de azulejos da Fábrica Aleluia, instalados em 1937, que fazem dela uma espécie de museu a céu aberto, onde o ciclo de produção do Vinho do Porto está pintado nas paredes exteriores e interiores como se fosse um livro de histórias gigante.
O conselho honesto: vá pela manhã cedo, antes das dez. Os autocarros de turismo começam a despejar visitantes a meio da manhã e o pequeno átrio fica sobrelotado num instante. Ao princípio do dia, com a luz do Douro ainda a entrar de viés, consegue-se ler os azulejos com calma, painel a painel, sem ter de esperar que alguém termine de tirar a selfie da praxe.
Os 24 painéis representam cenas do quotidiano duriense: a vindima nos socalcos, o pisar das uvas em lagar, o transporte do vinho nos barcos rabelos pelo rio até Vila Nova de Gaia, as paisagens da região demarcada mais antiga do mundo. Há painéis com camponeses, com igrejas, com pontes e com a própria geografia vertiginosa do vale. Não é arte abstrata: é etnografia pintada. E foi feita por uma fábrica de Aveiro, a Aleluia, que ainda hoje existe.
Reparem nas datas e nas assinaturas em baixo dos painéis. Reparem no detalhe das vestes dos trabalhadores. Reparem em como a paisagem nos azulejos é exatamente a mesma que se vê do outro lado da linha férrea, descendo até ao Douro. É essa duplicação, o azulejo a refletir a vista real, que torna a estação tão particular. Para perceber melhor o contexto desta paisagem trabalhada e da arquitetura que a sustenta, vale a pena ler o nosso guia sobre a geometria do xisto e o património do tempo no Douro.
A forma certa de chegar à Estação do Pinhão é, sem ironia nenhuma, de comboio. A Linha do Douro parte do Porto, na estação de São Bento ou Campanhã, e o trajeto até ao Pinhão demora cerca de duas horas e meia. É uma das viagens de comboio mais cénicas da Europa, com o último troço a correr colado ao rio. Pague mais um euro pela primeira classe se conseguir, vale a pena pelos lugares de janela.
De carro, vem-se pela A4 até Vila Real e depois pela N322 que serpenteia até ao vale. O estacionamento no Pinhão é limitado, principalmente nos meses altos. Há um parque junto à estação e algum espaço pago no centro. Em julho, agosto e setembro, contem com paciência. A estação fica no centro da vila, a dois minutos a pé do cais e dos hotéis ribeirinhos. Tudo no Pinhão se faz a pé.
Os horários da estação acompanham os comboios da CP, e mudam consoante a época. Não há um horário fixo de "bilheteira aberta para visitar os azulejos", o que confunde muita gente. Na prática, o átrio com os azulejos é acessível durante o horário de funcionamento ferroviário e, fora disso, quase tudo é visível do lado da rua. Para confirmar comboios, consulte diretamente a página oficial da CP para a estação do Pinhão ou ligue 707 210 220. Não confie em horários antigos publicados em blogues, mudam com frequência.
A estação demora-se uns vinte minutos a apreciar bem. Depois disso, o programa óbvio é descer ao rio. A poucos metros da estação está o cais onde partem os cruzeiros de uma e duas horas pelo Douro, normalmente em barcos rabelos modernos. Os preços andam pelos 15 a 20 euros para o circuito curto, paga-se à hora, à porta. Não é preciso reserva fora da época alta.
Se o calor apertar, e no Douro aperta sempre, a Praia Fluvial do Pinhão é a saída lógica para um banho rápido antes do almoço. Para quem prefere subir em vez de descer, sugerimos o nosso roteiro pelos terraços e miradouros do Douro, que organiza por ordem lógica os pontos altos com vista sobre a confluência do Pinhão e do Douro. E se a paragem for sobretudo enológica, a nossa seleção de sítios para beber o Douro no Pinhão filtra o que vale e o que é armadilha de turista.
O Pinhão é, na escala do Douro, um sítio pequeno. Tem menos de seiscentos habitantes. E no entanto, esta estação tornou-se um dos cartões postais mais reproduzidos do interior do país, ao lado do Convento de Cristo ou do Mosteiro da Batalha. A razão é simples: condensa, num único edifício, três coisas em que Portugal é genuinamente bom. A azulejaria, a paisagem trabalhada do Douro e a memória ferroviária do século XIX. Ir ao Pinhão e não passar pela estação é como ir ao Porto e ignorar a Ribeira. Tecnicamente possível, mas francamente absurdo.