Horta ao Anoitecer: Vinhos e Petiscos para Quem Sabe Comer
Na Horta, a noite começa com um gin no Peter Cafe Sport e termina com a silhueta do Pico ao fundo. Pelo meio, lapas grelhadas com manteiga de alho, queijo de São Jorge que morde de volta, e vinhos açorianos que o continente teima em ignorar.
Há uma hora na Horta em que tudo muda. Por volta das seis da tarde, quando os veleiros que passaram o dia a cruzar o canal entre o Faial e o Pico começam a recolher ao porto, a marina ganha uma energia diferente. Os mastros tilintam, os iates amarrados cheiram a sal e a motor diesel, e nas mesas dos bares junto ao cais começam a aparecer pratos pequenos, lapas grelhadas, queijo fresco com pimenta, pedaços de morcela frita, acompanhados de copos de vinho que ninguém tem pressa de acabar. É esta a Horta que interessa a quem viaja pelo estômago.
Este roteiro é para uma noite. Não para quem quer jantar num restaurante com toalha de linho e carta de vinhos encadernada, mas para quem prefere ir de sítio em sítio, comer de pé ou sentado num banco alto, provar coisas que não conhece e deixar que a conversa com quem serve decida o próximo prato. Na Horta, isto funciona como em poucas terras dos Açores, porque a cidade tem escala humana, tudo se faz a pé, e a tradição marítima trouxe uma abertura ao mundo que se nota nos sabores.
Antes de Comer: Contexto e Estômago
Se vai dedicar uma noite aos petiscos da Horta, reserve a tarde para ganhar apetite e contexto. Uma caminhada pela zona de Porto Pim, passando pela antiga Fábrica da Baleia, dá-lhe a perspectiva certa: esta era uma cidade que vivia do mar, e a cozinha local reflecte isso em cada prato. Não há petisco na Horta que não tenha o oceano a dois ingredientes de distância. Se quiser aprofundar essa história, a jornada pela herança baleeira e pesqueira da Horta coloca tudo em perspectiva, e vai fazer com que olhe para o polvo no prato de maneira diferente.
Outra forma de abrir a noite: passe pelo Museu da Horta, que tem uma secção dedicada à história agrícola e comercial da ilha. É aqui que se percebe como o Faial foi, durante séculos, terra de vinho, o verdelho açoriano, plantado em currais de pedra de basalto para proteger as vinhas do vento atlântico, era exportado para a Europa e América. Esse vinho quase desapareceu, mas está de volta, e vai prová-lo esta noite.
Primeira Paragem: A Marina e o Ritual do Gin
Toda a noite gastronómica na Horta começa no mesmo sítio, e não há razão para contrariar a tradição. O Peter Cafe Sport, na Rua José Azevedo, é provavelmente o bar mais famoso dos Açores, e com razão. Não é pelo décor (que é caótico e cheio de flâmulas de clubes náuticos do mundo inteiro), nem pelo museu de scrimshaw no andar de cima, que vale uma visita separada. É pelo facto de que desde os anos 1920 este bar é o ponto de encontro de quem cruza o Atlântico, e essa mistura de locais, velejadores e viajantes cria uma atmosfera que não se replica.
Peça um gin tónico, o Peter's é feito com gin próprio, destilado localmente, com botânicos açorianos. Acompanhe com tremoços e amendoins, que vêm para a mesa como vêm em qualquer tasca portuguesa, sem cerimónia. Não jante aqui. Beba um copo, absorva o ambiente, e siga.
Segundo Acto: As Lapas e o Vinho Branco
Saindo do Peter's, caminhe pela Rua Serpa Pinto em direcção ao centro histórico. A zona entre a marina e a Praça da República concentra vários restaurantes e tascos pequenos onde se comem petiscos sérios. O que procura são lapas grelhadas com manteiga de alho, o petisco mais açoriano que existe, e na Horta fazem-nas particularmente bem por causa da proximidade ao mar. As lapas boas são as que chegam nesse dia. Pergunte sempre.
Para acompanhar, peça um vinho branco açoriano. O verdelho do Pico é a referência, produzido nas vinhas classificadas como Património Mundial da UNESCO, na ilha que está ali mesmo do outro lado do canal. Mas há vinhos do Faial também, de produtores pequenos que recuperaram as castas tradicionais. Peça recomendação ao empregado. Nos Açores, ao contrário do continente, a carta de vinhos é curta e quase sempre local, o que é uma vantagem, porque não há decisões erradas.
Se encontrar cracas na ementa, peça sem hesitar. Estes pequenos crustáceos, que parecem rochas agarradas ao prato, são um manjar raro, difíceis de apanhar, cada vez mais protegidos, e com um sabor a mar concentrado que não se parece com mais nada. Estão entre as coisas mais caras da ementa, mas valem cada euro.
Terceiro Acto: Queijos, Enchidos e o Tinto
Depois do marisco, mude de registo. Procure um sítio que sirva tábuas de queijos e enchidos açorianos. O queijo de São Jorge, curado, picante, com aquele travo que quase morde de volta, é obrigatório. É feito na ilha vizinha e chega fresco ao Faial. Combine-o com linguiça da terra, a chouriça açoriana fumada com especiarias que veio da tradição dos emigrantes, e com um pouco de inhame cozido, que é a base da alimentação tradicional do Faial.
Aqui, mude para tinto. Os tintos açorianos não competem com o Douro ou o Alentejo, são mais leves, mais rústicos, e isso é parte do charme. Ou então faça o que muitos locais fazem: peça um copo de vinho de cheiro, o tinto de mesa que se bebe nos Açores há gerações, feito com a casta isabella. Não é um vinho sofisticado, e os enólogos do continente torceriam o nariz, mas tem personalidade, um aroma frutado intenso e um sabor que é puro Açores. Se quer autenticidade, é isto.
O Polvo e a Questão do Molho
Em qualquer noite de petiscos nos Açores, vai cruzar-se com polvo. Na Horta, o polvo à lagareiro, assado no forno com batata a murro e muito azeite, é um clássico que funciona como petisco partilhado ou como prato principal. Mas a minha sugestão: peça polvo guisado em vinho de cheiro, quando houver. É um prato mais humilde, menos fotogénico, mas o sabor é superior, o vinho amacia a carne e cria um molho denso que exige pão para limpar o prato.
A propósito de pão: o pão de milho açoriano, o bolo lêvedo do Faial, ligeiramente doce, denso, perfeito para molhos, é uma das grandes descobertas para quem não conhece a cozinha das ilhas. Não é pão de restaurante; é pão de padaria, e as melhores padarias fecham cedo. Se vir num sítio qualquer, agarre.
A Marina à Noite: Digestivo e Horizonte
A Horta à noite é uma cidade silenciosa. Depois das dez, muitos restaurantes começam a fechar, e a marina torna-se o centro de gravidade. Volte ao cais, não necessariamente ao Peter's, há outros bares na zona, e peça um digestivo. Aguardente de medronho dos Açores, se encontrar; licor de maracujá, que é açoriano até à medula; ou uma aguardente velha da terra. Sente-se numa esplanada virada para o canal. Se a noite estiver limpa, a montanha do Pico aparece como uma silhueta escura com 2.351 metros de altura do outro lado da água. Com um copo na mão e o estômago cheio de lapas e queijo, é a melhor vista dos Açores.
Notas Práticas
A Horta é uma cidade pequena. Todo este roteiro faz-se a pé, num raio de 500 metros a partir da marina. Conte com 40-60€ por pessoa para uma noite de petiscos generosa com vinho, os Açores não são baratos, mas também não são Lisboa.
A melhor altura para este roteiro é entre Junho e Setembro, quando os dias são longos e a marina está cheia de veleiros internacionais. Mas funciona todo o ano, a Horta é cosmopolita para o seu tamanho, como pode confirmar no nosso guia de 24 horas na Horta.
Sobre vinhos: se este roteiro lhe abrir o apetite para a gastronomia açoriana, o nosso guia gastronómico de Ponta Delgada é o passo seguinte. A cozinha de São Miguel tem outra escala e outros ingredientes, mas a mesma lógica: produto local, tratado com respeito, servido sem pretensão.
Reserve o fim da tarde para explorar a cidade a pé antes de comer, a caminhada histórica pela Horta é a melhor forma de perceber a cidade antes de a provar. E se quiser os melhores sítios para ver o pôr-do-sol com um copo na mão, o nosso guia de miradouros e rooftops da Horta resolve a questão.
Uma última nota: nos Açores, pergunte sempre o que é fresco. A ementa pode ter vinte pratos, mas o que interessa é o que o pescador trouxe de manhã e o que a dona da casa decidiu cozinhar. Diga ao empregado que quer o que há de bom hoje, e confie. Na Horta, isso nunca desilude.