Aprender Mirandês e Pauliteiros em Miranda do Douro: O Workshop
Um mergulho prático na cultura da Raia com a associação Galandum Galundaina. Entre o som das gaitas e o toque dos paus, aprende-se que o Mirandês está bem vivo no planalto.
O Planalto Mirandês: Onde a Cultura se Sente no Pulso
Chegar a Miranda do Douro exige uma certa dose de persistência. A viagem pelo planalto de Trás-os-Montes, com a paisagem a estender-se em tons de castanho e ocre, prepara o espírito para algo diferente. Não é apenas o fim da linha em Portugal; é o início de um território com uma identidade tão forte que se sente mal estacionamos o carro perto da Sé. Aqui, a cultura não está em redomas de vidro; está viva, fala-se e dança-se. E a melhor forma de a perceber não é através de um folheto turístico, mas sim sujando as mãos (ou, neste caso, cansando os braços) num workshop de língua mirandesa e dança dos pauliteiros.
O operador que torna isto possível é a Associação Cultural Galandum Galundaina. Se nunca ouviu falar deles, saiba que são os grandes responsáveis por terem tirado o pó à música tradicional mirandesa, levando-a aos palcos do mundo sem a descaracterizar. Eles gerem o espaço cultural L'Arribada e organizam estas sessões práticas que nos colocam no centro do furacão cultural da Raia. Como já tínhamos explorado no guia sobre A Língua da Raia: Um Mergulho na Identidade Mirandesa e na Dança dos Pauliteiros, estas tradições são o que define esta região.
O Primeiro Passo: "Buonos Dies" e a Língua que Resiste
O workshop começa geralmente com a palavra. O Mirandês é a segunda língua oficial de Portugal, mas não se engane: não é um sotaque nem um dialeto do português. Tem regras, tem gramática e tem uma sonoridade que nos remete para o asturo-leonês medieval. Na primeira hora da sessão, sentamo-nos com um dos formadores da Galandum Galundaina, muitas vezes pessoas que cresceram a ouvir esta língua em casa, para aprender o básico.
O desafio começa logo na pronúncia do "lh". Esqueça o som de "filho". No mirandês, o "lh" no início das palavras (como em lhéngua ou lhuna) tem uma vibração diferente, mais frontal. É um exercício físico para a língua e para os ouvidos. O formador explica como a língua sobreviveu isolada entre as fragas do Douro e o planalto, servindo de código secreto para uma população que sempre viveu de costas voltadas para Lisboa e de frente para a fronteira. Aprender a dizer "Como te bais?" (Como vais?) ou "Obrigado" (Obrigado ou Gracyas dependendo do contexto) é o primeiro passo para ganhar o respeito dos locais. Quando sair do workshop e entrar num café na Rua da Costanilha, verá que os velhos habitantes o olham de outra forma se arriscar uma destas expressões.
Mãos nos Paus: O Ritmo dos Pauliteiros
Depois da teoria, vem o suor. A segunda parte do workshop é dedicada à Dança dos Pauliteiros. Se pensa que é apenas uma dança folclórica de homens com saias a bater com paus, está muito enganado. É uma coreografia de guerra, de precisão e, acima de tudo, de ritmo. Os formadores entregam-nos dois paus de carvalho (os "paulitos"), pesados e secos, e explicam a base: o ritmo da gaita de foles mirandesa.
Aprender os "lhaços" (as coreografias) exige coordenação. Começamos com movimentos simples de pernas e, gradualmente, introduzimos o toque dos paus. O som do embate do carvalho é seco e forte. Há uma energia crua neste momento. Não é para ser gracioso; é para ser firme. O formador guia-nos pelos passos fundamentais, explicando que cada lhaço tem um nome e uma história, muitas vezes ligados a tarefas agrícolas ou a episódios históricos. A gaita de foles, acompanhada pelo bombo e pela caixa, dita a velocidade. Quando o grupo acerta o ritmo e os oito pares de paus batem em uníssono, a sensação de força coletiva é impressionante. É o momento alto do workshop, onde percebemos que esta dança não é apenas espetáculo; é um ritual de pertença.
Dicas de Quem Já Lá Esteve
A minha recomendação é que tente marcar este workshop para o final da tarde, quando o sol começa a baixar sobre as Arribas do Douro. A luz torna-se mais quente e a acústica do espaço cultural ganha outra dimensão. Outro detalhe importante: leve calçado confortável, preferencialmente ténis com boa aderência. Vai saltar, vai rodar e vai querer ter os pés bem assentes na terra. Não se preocupe se falhar os passos, a paciência dos formadores da Galandum Galundaina é lendária, e o objetivo aqui é a experiência, não a perfeição técnica.
Quanto à melhor altura para reservar, os meses de Primavera (Abril a Junho) e o início do Outono (Setembro e Outubro) são ideais. O calor no planalto mirandês pode ser impiedoso em Julho e Agosto, tornando a parte física do workshop bastante exigente. No entanto, se coincidir com o Festival Intercéltico de Sendim ou com o festival itinerante "L Burro i l Gueiteiro", terá a oportunidade de ver estes workshops num contexto festivo, com muito mais gente e animação.
Onde Comer e o que Skip
Depois de duas horas de mirandês e pauliteiros, vai ter fome. Esqueça as dietas. Está na terra da Posta Mirandesa. Recomendo o restaurante O Mirandês ou a Taberna da Costanilha. Peça a posta bem alta, grelhada com sal grosso, e acompanhe com o vinho local. O que deve evitar? Aqueles menus turísticos pré-fabricados que prometem "show de pauliteiros" com jantar incluído em locais sem alma. Vá à fonte, vá à associação, e viva o workshop de forma genuína.
Este workshop custa cerca de 15€ por pessoa em sessões de grupo organizadas, mas o valor pode variar se quiser uma sessão privada. É obrigatório contactar a Galandum Galundaina com antecedência através do site deles ou por email, já que os workshops não acontecem todos os dias sem marcação. Vale cada cêntimo e cada gota de suor.
No final, o que levamos de Miranda do Douro não são as fotos da Sé ou as compras em Espanha, mas sim o som dos paus a bater e a descoberta de que, num canto remoto de Portugal, há uma língua que se recusa a calar. É uma experiência física, sonora e intelectual que nos muda a perspetiva sobre o que é ser português.