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Vila do Porto: A Última Vila Portuguesa Antes da América

· · Vila do Porto

Santa Maria não é só a ilha mais antiga dos Açores: durante quase vinte anos, a pista sobre Vila do Porto foi a última escala dos voos transatlânticos antes de atravessarem o oceano. A vila que cresceu à volta dela ainda tem esse ar de fim de linha, mas com areia dourada.

A pista que ligou os Açores à América

Em 1944, com a guerra ainda a decorrer na Europa, engenheiros americanos abriram uma pista de quase dois quilómetros no planalto sobre Vila do Porto. Não foi acaso: Santa Maria fica mais perto da América do Norte do que qualquer outra ilha açoriana, e durante quase duas décadas o Aeroporto de Santa Maria foi a última escala obrigatória dos voos transatlânticos antes da travessia do oceano. Os hidroaviões e depois os Stratocruiser da Pan Am reabasteciam aqui, os passageiros passavam a noite na vila e seguiam viagem de manhã rumo a Nova Iorque ou às Bermudas. Só quando os jactos conseguiram fazer o Atlântico sem escala, já nos anos 60, é que Santa Maria perdeu protagonismo para as Lajes, na Terceira. Ficou a pista comprida a mais para uma ilha tão pequena, ficou a vila que cresceu à sua volta, e ficou esta sensação concreta, não poética: aqui é mesmo o último pedaço de Portugal antes de o mapa passar a ser só oceano.

Hoje a pista serve sobretudo os voos regionais da SATA entre Ponta Delgada e Santa Maria, uns 30 minutos de salto, e ocasionalmente aterragens de emergência de aviões transatlânticos que preferem não pensar demasiado nisso. Chegar de barco também é possível em época alta, mas é o avião que resolve a vida a quem quer dedicar três ou quatro dias à ilha mais antiga do arquipélago.

A vila mais velha dos Açores

Vila do Porto não é só a última paragem antes do Atlântico ocidental: é também o primeiro povoado açoriano com foral, fundado por volta de 1439 por Gonçalo Velho Cabral, o mesmo capitão-donatário que abriu caminho à colonização de todo o arquipélago. Isso dá à vila um estatuto que as outras capitais de ilha não têm, e nota-se: as ruas do centro, à volta da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, têm uma escala doméstica, quase de aldeia alentejana transplantada para o meio do Atlântico, com casas caiadas de branco e portas pintadas de azul ou vermelho escuro.

Essa tranquilidade não foi sempre garantida. O Forte de São Brás de Vila do Porto, junto ao porto, é a prova disso: corsários berberes atacaram a ilha várias vezes ao longo dos séculos XVI e XVII, chegando a levar populações inteiras como escravos, e a fortificação que hoje se visita, com o seu perfil baixo e as ameias viradas ao mar, resulta de sucessivas obras de reforço para que isso não se repetisse. Vale a pena entrar não pela grandiosidade, que não tem, mas pela vista rasa sobre o porto e pela ideia de escala: perceber que esta vila pequena precisou mesmo de se defender, e levou isso a sério durante séculos.

Areia dourada onde se esperava lava negra

Quem chega a Santa Maria depois de já ter visitado São Miguel ou o Pico estranha uma coisa: a areia é dourada, não preta. Santa Maria é geologicamente a ilha mais antiga do arquipélago, com rochas sedimentares e calcários fossilíferos que os vulcões mais recentes das outras ilhas nunca produziram, e o resultado é a Praia Formosa, uma faixa de areia clara que parece ter vindo de outro arquipélago qualquer, do Caribe ou do Mediterrâneo, não dos Açores. É a praia mais procurada para nadar e para surf de nível iniciante, com um pequeno anfiteatro de rocha vulcânica escura a fazer de moldura, e é também onde a vila se reúne ao fim de semana, sem cerimónia nenhuma.

Não é a única. A costa sul e sudoeste de Santa Maria tem uma sucessão de baías pequenas, algumas só acessíveis a pé ou de barco, e essa é já a razão principal para muita gente vir cá: não há filas, não há sombrinhas alugadas, há rocha, água transparente e o barulho do mar a fazer de banda sonora.

Trilhos e piscinas naturais, sem intermediários desnecessários

Santa Maria tem uma rede de trilhos oficiais bem sinalizada, mas a ilha é pequena o suficiente e o terreno acidentado o suficiente para valer a pena, pelo menos numa das saídas, ter alguém que conheça o percurso e saiba onde a maré permite mergulhar em segurança. Para isso existem os Trilhos e Piscinas Naturais desde Vila do Porto, um programa guiado que combina caminhada costeira com paragens para nadar em poças de rocha que a maré enche e esvazia como um relógio natural. É a forma mais eficiente de ver a costa sem passar o dia a decidir se aquele carreiro estreito é ou não o caminho certo.

Para quem quer uma visão mais ampla da ilha, incluindo praias que não se veem da estrada principal, a SMATUR organiza saídas que juntam vários pontos da costa num só dia, com transporte incluído, o que poupa a chatice de andar a decifrar estradas rurais sem sinalização em busca de um acesso à praia que existe mas que ninguém pensou em indicar num mapa.

Onde dormir: quintas em vez de hotéis de cadeia

Santa Maria nunca teve o boom de construção hoteleira que atingiu São Miguel na última década, e isso é bom para quem prefere dormir em espaços com história em vez de blocos de betão junto à piscina. A Quinta do Falcão é o exemplo certo: uma propriedade rural nos arredores de Vila do Porto, com o tipo de silêncio que só existe quando a estrada mais próxima tem pouco tráfego e as vacas do vizinho são o único ruído de fundo. É a opção óbvia para quem quer acordar já dentro da paisagem em vez de ter de conduzir até lá todas as manhãs.

Em termos de comida, a regra em Santa Maria é simples: peixe fresco, queijo local e o vinho de casta Verdelho que ainda se produz numa ilha pequena demais para se dar ao luxo de ter grandes vinhas, mas grande o suficiente para manter viva uma tradição vitivinícola que remonta aos primeiros colonos. Não é a ilha para procurar alta cozinha; é a ilha para comer bem, sem pose, numa tasca de bairro onde o peixe do dia chegou de facto nessa manhã.

Miradouro da Macela e o resto da ilha

Para uma primeira leitura da geografia da ilha, o Miradouro da Macela é a paragem certa: dali vê-se boa parte da costa sul, o contraste entre os campos agrícolas em socalcos e o azul do Atlântico, e numa tarde limpa consegue perceber-se porque é que os primeiros colonos escolheram esta zona para se fixar, protegida do vento predominante mas aberta ao mar.

Quem tiver mais um ou dois dias deve subir ao Pico Alto, o ponto mais elevado da ilha, com vistas que em dias de céu limpo chegam a São Miguel, e descer depois até aos Anjos, a povoada baía do norte onde a tradição local diz que Cristóvão Colombo desembarcou em 1493, na viagem de regresso da primeira travessia ao Novo Mundo, para cumprir uma promessa religiosa. Não há forma de confirmar isto com certeza absoluta, mas a pequena ermida junto ao mar, e o facto de a história ser contada há mais de cinco séculos, já vale a visita por si só.

Depois de Santa Maria: saltar para outras ilhas

Santa Maria funciona bem como primeira ou última paragem de uma viagem mais longa pelos Açores, precisamente porque tem ligações aéreas diretas a Ponta Delgada e, sazonalmente, a outras ilhas do grupo central. Quem seguir viagem até à Terceira encontra em Angra do Heroísmo uma cidade de escala completamente diferente, e vale a pena planear bem esse dia: o guia Angra do Heroísmo em 24 Horas, ao Ritmo Local ajuda a não perder tempo com decisões óbvias, e o plano B de Quando Chove em Angra do Heroísmo é útil para quem sabe que o tempo açoriano muda quatro vezes antes do almoço.

Para quem preferir continuar até ao grupo ocidental, a Horta, no Faial, oferece uma paragem completamente diferente, mais cosmopolita e marcada pela cultura náutica internacional que ali se instalou desde sempre; o guia Horta em 24 Horas: O Cosmopolitismo no Coração do Atlântico resume bem porque é que tantos navegadores escolhem ali fazer escala antes de atravessar o oceano, exatamente como os aviões faziam em Santa Maria há oitenta anos.

Quando ir e quanto gastar

A melhor época para Santa Maria vai de maio a outubro, com julho e agosto a garantir a água mais quente para nadar, embora também sejam os meses de maior procura pelos poucos alojamentos disponíveis, pelo que reservar com antecedência compensa. Um voo Ponta Delgada-Santa Maria em época baixa pode custar bastante menos de 100 euros ida e volta; alugar carro na ilha é essencial, já que os táxis são poucos e a rede de transportes públicos é reduzida, com preços de aluguer geralmente abaixo dos praticados em São Miguel. Contando alojamento simples, carro alugado e refeições em tascas locais, um dia em Santa Maria fica normalmente bem abaixo do custo médio de um dia em São Miguel na época alta, o que é mais um argumento a favor de esticar a viagem por aqui antes de voltar para o continente, ou antes de seguir para a América, se for esse o destino final.

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