Setúbal Não É Praia de Surfista: E Ainda Bem
Quem chega à Arrábida com prancha de surf vai-se embora desiludido: aqui o mar não faz ondas, faz espelhos de água turquesa onde quem realmente sabe surfar são os golfinhos do Sado. Um guia sem fabricar swell que não existe.
Chega sempre alguém a Setúbal com a prancha amarrada ao tejadilho, à procura de ondas, e vai-se embora confuso. A costa da Arrábida não tem swell digno desse nome, e isso não é um defeito, é geografia: a serra corta o vento de norte, a baía vira-se a sul, e o mar que resulta disso é mais parecido com uma piscina gigante de água salgada do que com o Atlântico bravo de Peniche ou da Ericeira. Se procura ondas, siga para a Costa da Caparica ou mais a sul, para o Meco. Se procura o mar como coisa para se sentir, não só para se combater, fique por aqui. Setúbal não é sobre subir a uma onda. É sobre remar devagar, mergulhar em água transparente, e perceber que às vezes quem "anda" na água melhor do que qualquer surfista é um golfinho.
Porque não há ondas na Arrábida (e o que há em vez disso)
A explicação é simples e vale a pena entender antes de chegar desiludido: a Serra da Arrábida forma um escudo natural que protege a baía de Setúbal da ondulação atlântica. O resultado é uma água calma, muitas vezes com visibilidade de vários metros, cor turquesa que parece fora de lugar em Portugal continental. É por isso que a Praia da Figueirinha parece saída de um postal do Mediterrâneo e não do Atlântico. Não vai apanhar ondas aqui, mas vai nadar em águas que, em pleno agosto, chegam a ultrapassar os 22 graus, o que para o padrão português já é muito.
Isto muda a forma como se pensa "andar no mar" na região. Em vez de pranchas de surf, o que se vê são pranchas de stand-up paddle a deslizar sem esforço, caiaques a contornar a costa rochosa, snorkel entre os rochedos, e, mais ao largo, barcos a motor devagar atrás de golfinhos. É um outro tipo de adrenalina, mais lenta, mas não menos real.
As três praias que definem a Arrábida
Nem todas as praias da serra são iguais, e vale a pena saber a diferença antes de perder a manhã à procura de estacionamento.
Praia da Figueirinha: a mais fácil, a mais cheia
É a porta de entrada, literalmente: tem a estrada quase a chegar à areia, parque de estacionamento grande (que em agosto enche antes das 10h, aviso desde já), apoio de praia, e um areal generoso que aguenta multidão sem parecer sardinha em lata. Boa para quem vai com crianças ou não quer caminhar. A água é rasa perto da margem, ideal para os primeiros minutos de quem nunca esteve na Arrábida.
Praia dos Galapinhos: a que aparece em todas as listas, com razão
A Praia dos Galapinhos foi eleita várias vezes uma das melhores praias da Europa, e percebe-se porquê assim que se desce a escadaria de madeira até à baía. É pequena, é fechada por rocha calcária de ambos os lados, e a água tem aquele azul que parece tratado em Photoshop mas não é. O preço a pagar é literal: a descida (e a subida, no fim do dia, com as pernas já cansadas de nadar) é longa, e no verão o acesso costuma ser condicionado, com número limitado de pessoas em simultâneo. Vá cedo, antes das 9h se puder, ou aceite que vai ter de esperar.
Praia do Creiro: para quem quer sossego
Menos falada, mais discreta, a Praia do Creiro fica voltada para o estuário do Sado em vez de para o mar aberto, o que lhe dá uma água ainda mais parada, quase de rio. É a escolha certa para quem já passou por Figueirinha e Galapinhos e quer uma tarde sem tanta gente a pisar a toalha ao lado.
Aprender: SUP e caiaque em vez de prancha de surf
Não há escolas de surf a sério na Arrábida, pela razão óbvia já explicada, mas há cada vez mais oferta de stand-up paddle e caiaque, sobretudo a partir de Setúbal cidade e da zona ribeirinha. Para quem nunca experimentou, é a forma mais fácil de "andar na água" sem cair constantemente: bastam vinte minutos de instruções e já se consegue manter o equilíbrio em água plana. Confirme localmente os operadores disponíveis na época em que visita, porque a oferta muda de ano para ano, mas o princípio mantém-se: águas calmas como as da Arrábida são o cenário ideal para aprender, não para arriscar uma queda de prancha de surf em cima de rochas.
Quem anda mesmo bem nesta água: os golfinhos do Sado
Se há alguém que sabe surfar em Setúbal, não usa prancha. O estuário do Sado tem uma das poucas populações residentes de golfinhos-roazes da Europa, e vê-los a acompanhar a proa de um barco, literalmente a "surfar" a onda de pressão criada pelo casco, é a experiência mais próxima de surf que este destino oferece. Há passeios organizados que saem regularmente da zona ribeirinha de Setúbal à procura destes animais, e vale a pena reservar com antecedência em época alta. Para perceber o que esperar antes de embarcar, vale a pena ler o guia completo sobre os golfinhos no Sado em Setúbal, que explica horários, duração dos passeios e a probabilidade real de avistamento (não é garantida, são animais selvagens, mas as hipóteses são boas).
O mesmo estuário é também um dos melhores locais do país para observação de aves, com sapais que atraem flamingos, garças e uma quantidade impressionante de aves migratórias consoante a época do ano. Quem gosta de natureza mais silenciosa, sem motor de barco, deve olhar para a experiência de birdwatching no Estuário do Sado, que descreve bem o que se pode observar e onde.
Depois da água: onde parar sem sair da praia
Um dia de praia na Arrábida não precisa de terminar quando se sai da água. O Stichini Bar é o tipo de sítio que existe para exatamente este momento: pés ainda cheios de areia, pele a picar de sal, e vontade de uma bebida gelada com vista sobre o mar em vez de voltar já para o carro. É informal, é descontraído, e é preferível chegar já com o corpo cansado do dia do que vestido a rigor.
Como chegar e quanto gastar
De Lisboa, a Arrábida faz-se em pouco mais de meia hora de carro pela A2 e depois pela estrada de serra N379-1, que por si só já vale a viagem: as curvas sobre a falésia, com o mar lá em baixo a mudar de azul consoante a luz, são um dos troços mais bonitos de estrada em Portugal. Em agosto, a estrada pode ficar congestionada nos fins de semana e há municípios que colocam autocarros de shuttle a partir de Setúbal para aliviar o trânsito e a pressão sobre os parques de estacionamento, vale a pena confirmar localmente se está em funcionamento na altura da visita.
Quanto a custos: a entrada nas praias é livre, mas o estacionamento nas praias da Arrábida costuma ter uma taxa modesta em época alta, cobrada por hora ou por dia consoante a praia, e os lugares esgotam cedo em dias de sol forte. Os passeios de barco para observação de golfinhos têm preços que variam consoante a duração e o operador, mas costumam rondar valores acessíveis para uma manhã ou tarde de atividade, e compensa reservar online com antecedência em julho e agosto.
O essencial para quem vai pela primeira vez
- Chegue cedo (antes das 9h) se quiser lugar de estacionamento em Figueirinha ou Galapinhos no verão.
- Leve chinelos ou sapatilhas de água: o fundo em várias zonas é rochoso, não areia solta.
- A descida a Galapinhos é longa e sem sombra, leve água.
- Reserve o passeio de golfinhos com antecedência em época alta.
- Não espere ondas. Espere água limpa, luz forte, e um ritmo mais lento do que o resto da costa portuguesa.
No fim, talvez seja isso que torna Setúbal diferente de qualquer destino de surf do país: aqui ninguém está a lutar contra o mar, à espera da onda perfeita que nunca chega no tempo certo. Está-se simplesmente dentro dele, devagar, a par de quem sabe mesmo nadar naquelas águas há muito mais tempo do que qualquer turista com prancha debaixo do braço.