Setúbal a Pé: os Bairros que Vale a Pena Andar
Toda a gente passa por Setúbal a caminho da Tróia e ignora a cidade que fica entre o Sado e a Arrábida. Do Mercado do Livramento ao Castelo de São Filipe, passando por um bar sem pretensões junto à doca, esta é a Setúbal que se anda, não a que se atravessa de carro.
Toda a gente que passa por Setúbal está, na verdade, só de passagem para a Tróia. Chegam, apanham o ferry, e a cidade fica reduzida a um parque de estacionamento com vista para o rio. É um erro. Setúbal anda-se, e anda-se bem, com o Sado de um lado e a Serra da Arrábida do outro a lembrar constantemente que esta cidade nasceu entre água e pedra. Não é preciso carro para perceber isso, é preciso é sair da Avenida principal e entrar nas ruas que a cortam.
Do Mercado à Praça: o centro histórico a pé
Comece pela Praça de Bocage, ao final da manhã, quando os cafés já têm gente sentada e ninguém tem pressa nenhuma. É o centro nervoso da cidade velha, com a Igreja de São Julião a um lado e as esplanadas a servirem bicas a um ritmo que não muda há décadas. Daqui, cinco minutos a pé levam ao Mercado do Livramento, e este é o ponto que não se salta: é um dos mercados de peixe mais bonitos do país, azulejos de Bordalo Pinheiro a decorar as paredes, bancas de peixe fresco desembarcado horas antes na doca ao lado. Vá cedo, antes das 10h, antes de o calor começar a pesar sobre o peixe e sobre as pessoas.
Setúbal tem um prato que a define e é o choco frito, tirinhas de choco fritas e servidas com arroz de tomate ou simplesmente com uma fatia de limão. Não é sofisticado, é exactamente o contrário disso, e é por isso que funciona. Qualquer tasca a dez minutos a pé do mercado o serve, e a diferença entre uma versão boa e uma medíocre está sempre no óleo estar realmente quente e o choco não ter sido frito com uma hora de antecedência.
Da praça, suba por uma das ruas estreitas até à Igreja de Jesus, obra de Boitac do final do século XV, com aquelas colunas retorcidas em nó que são um dos primeiros exemplos do estilo manuelino em Portugal. Não é um monumento com filas, é uma igreja pequena e sóbria que a maioria dos visitantes de Lisboa nunca chega a ver, o que já diz alguma coisa sobre o quanto Setúbal continua por explorar.
A Avenida Luísa Todi e a doca ao fim da tarde
A Avenida Luísa Todi corre paralela ao rio e é onde a cidade se estica ao final da tarde: gente a correr, casais a passear cães, pescadores a arrumar redes na doca. Ande até à Doca do Comércio e veja os barcos de pesca a chegar, ainda com as gaivotas a persegui-los. É também daqui que partem os passeios pelo estuário do Sado, e se nunca viu golfinhos num rio, este é um dos poucos sítios da Europa onde isso ainda acontece regularmente. A experiência de observação de golfinhos no Sado em Setúbal sai directamente daqui e vale a manhã inteira, mesmo que o mar esteja cinzento.
Para quem prefere pássaros a golfinhos, o estuário tem uma das maiores populações de aves aquáticas do país, flamingos incluídos em certas alturas do ano, e há passeios organizados especificamente para isso. A observação de aves no estuário do Sado é mais lenta, mais silenciosa, e talvez por isso mesmo mais interessante do que parece no papel.
Quando escurece, a vida muda de rua. O Stichini Bar é um dos sítios certos para uma noite sem grandes planos: música ao vivo com regularidade, ambiente sem pretensões, o tipo de bar onde se acaba a falar com quem está ao lado sem ter havido apresentações. Fica a uma curta caminhada da doca, o que significa que dá para fazer o trajecto inteiro, mercado, avenida, jantar de choco frito, bar, sem entrar num carro.
Subir ao Castelo de São Filipe
Se há uma caminhada que compensa o esforço em Setúbal, é a subida ao Castelo de São Filipe. É íngreme, sobretudo nos últimos minutos, e em Agosto convém fazê-la de manhã cedo ou já perto do pôr-do-sol, porque não há sombra nenhuma no caminho. A recompensa é uma vista que abrange a cidade inteira, o estuário, a península de Tróia do outro lado da água e, em dias limpos, a Arrábida a fechar a paisagem a oeste. O castelo foi construído no século XVI para defender a barra do Sado, tem uma capela interior forrada a azulejos, e hoje funciona parcialmente como pousada, mas os terraços exteriores são de acesso livre e é ali que se fica a maior parte do tempo, simplesmente a olhar.
Depois da cidade: a Arrábida a pé
Setúbal sem a Arrábida é uma cidade incompleta, e embora a serra em si peça carro ou autocarro para lá chegar, uma vez lá dentro o programa é inteiramente pedestre. A estrada N379-1 que corta a serra tem miradouros a cada curva, mas é preciso sair do carro e andar para perceber a escala da coisa.
A Praia dos Galapinhos já foi eleita uma das melhores praias da Europa, e a fama trouxe multidões, mas trouxe também um pormenor que filtra sozinho a maior parte delas: chega-se a pé, por uma escadaria de várias centenas de degraus a descer a falésia, e o que desce tem de subir depois, com o sol já alto. Vá cedo, leve água a mais, e perceba que o esforço faz parte da experiência, não é um obstáculo a evitar.
Mais recolhida e com menos gente é a Praia do Creiro, que se alcança a partir do Portinho da Arrábida por um caminho junto às falésias, com a água verde-turquesa típica desta costa a aparecer aos poucos por entre os arbustos. É o tipo de caminhada que se faz devagar, parando para olhar o mar lá em baixo, não porque seja longa mas porque não há motivo nenhum para apressar.
Já a Praia da Figueirinha é a opção para quem quer areia sem tanta escalada, uma faixa larga e acessível que serve de ponto de partida para quem depois quer caminhar ao longo da costa em direcção às praias mais escondidas da serra. É também, por ser mais fácil de alcançar, a mais cheia em Agosto, o que não a torna menos bonita, apenas menos indicada para quem procura sossego.
Notas práticas
- O centro histórico de Setúbal anda-se inteiro em duas a três horas com calma, do Mercado do Livramento ao Castelo de São Filipe.
- A subida ao castelo é gratuita nos terraços exteriores; leve água, sobretudo no Verão.
- Para as praias da Arrábida, o transporte público é limitado fora da época alta, e mesmo de carro o estacionamento junto à Figueirinha e aos Galapinhos enche cedo em dias de sol.
- Os passeios de barco para golfinhos ou observação de aves partem da doca perto da Avenida Luísa Todi, normalmente pela manhã, quando o rio está mais calmo.
- Reserve uma noite para jantar perto do mercado e acabar no Stichini Bar, é o combo que resume Setúbal melhor do que qualquer miradouro.
Setúbal não pede pressa. É uma cidade de escadas para subir, doca para atravessar e um rio que traz golfinhos até à porta de casa. Fique cá uma noite a mais do que planeava, o resto de Portugal continua no dia seguinte.