Setúbal Sem Gastar: Praias, Petiscos e Barco Grátis
As melhores praias de Setúbal são gratuitas, os golfinhos veem-se sem pagar barco e o choco frito custa o que deve custar. Eis como fazer a cidade num dia inteiro sem gastar de mais.
Setúbal tem um problema de reputação injusto: fica a menos de uma hora de Lisboa, mas continua a ser tratada como paragem de fim de semana em vez de destino a sério. Isso é bom para a carteira. Enquanto Sintra e Cascais cobram preço de capital em tudo, Setúbal ainda funciona como cidade portuguesa normal, onde um café custa o que deve custar e as melhores praias do país são grátis.
Isto não é um guia de "como poupar" com dicas óbvias tipo "leve água de casa". É um roteiro de um dia inteiro em Setúbal a gastar o mínimo possível sem passar a manhã inteira arrependido de não ter ido à praia boa por ser paga (não é) ou de ter fugido do choco frito por parecer caro (não é, e é obrigatório).
A manhã: praia sem pagar entrada nenhuma
Comece cedo, antes das 10h se for verão, porque o parque de estacionamento da Praia da Figueirinha enche rápido em agosto e ninguém quer pagar por um lugar de parque privado quando há alternativa gratuita mais cedo. A Figueirinha é a praia mais acessível da Arrábida, dentro do parque natural, com areia larga e água que costuma estar mais calma do que se espera para um sítio tão exposto ao Atlântico.
Se tiver carro e paciência para uma estrada estreita e sinuosa, siga para a Praia dos Galapinhos. Já foi eleita uma das melhores praias da Europa por revistas de viagem, o que normalmente é sinónimo de preço inflacionado em qualquer coisa à venda por perto. Não aqui: a entrada continua grátis, só paga se quiser aluguer de chapéu de sol ou espreguiçadeira, e mesmo assim vale a pena pensar duas vezes porque a praia é pequena e enche depressa. Chegue antes das 9h ou aceite que vai caminhar um bocado a mais pela serra a partir de um parque alternativo.
Para quem quer fugir de gente e não se importa de caminhar quinze minutos por trilho de terra batida, a Praia do Creiro é a recompensa. Fica virada para o estuário do Sado em vez do mar aberto, por isso a água é mais parada, quase de lago, o que a torna ótima para quem vai com crianças ou simplesmente não gosta de ondas. Não há chiringuito, não há nada para comprar, o que significa zero tentação de gastar e o máximo de razão para levar sandes de casa.
O truque do meio-dia: golfinhos sem pagar passeio de barco
Aqui está a parte que a maioria dos guias de viagem esquece de mencionar: não precisa de pagar um passeio de barco para ver golfinhos no Sado. O grupo de golfinhos residentes do estuário é uma das poucas populações residentes de golfinho-roaz da Europa, e em dias calmos são visíveis a partir de miradouros na margem, sobretudo perto da foz, sem gastar um euro. Claro que um passeio de barco aumenta muito a probabilidade de avistamento e vale o dinheiro se o orçamento permitir, mas se o objetivo é fazer a cidade ao mínimo, vale a pena tentar a sorte de terra primeiro antes de decidir se compensa pagar.
O mesmo estuário oferece birdwatching sério, sem custo nenhum além de uns binóculos emprestados se tiver. As salinas e sapais à volta do Sado são paragem de aves migratórias, e mesmo sem saber identificar uma espécie de outra, o cenário de água rasa, sal e silêncio já vale a caminhada.
Almoço: onde comer bem sem pagar preço de turista
Setúbal é a cidade do choco frito, ponto final. Qualquer conversa sobre comida aqui que não mencione isto primeiro está a mentir. A tradição diz para comer numa das tasquinhas simples perto do mercado ou da avenida junto ao rio, não nos restaurantes com esplanada virada para o Sado que cobram mais pela vista do que pela comida. O prato certo é choco frito com arroz de tomate e uma cerveja gelada, e em qualquer casa que sirva turistas locais em vez de autocarros de excursão isto não deve custar muito mais do que uma refeição de tasca em qualquer cidade média portuguesa.
Evite os sítios com menu fotografado à entrada em cinco idiomas. Não é regra absoluta, mas é um bom sinal de alerta em qualquer cidade turística portuguesa. O mercado municipal, com o edifício decorado a azulejo, é bom para comprar fruta e queijo para picnic de praia em vez de gastar em restaurante duas vezes no mesmo dia.
Fim de tarde e noite: bebida com vista, sem espremer a carteira
Para o pôr do sol, esqueça os bares turísticos da marginal com preços dobrados. O Stichini Bar é o tipo de sítio que os próprios moradores de Setúbal frequentam, sem grande produção, sem menu de cocktails com nomes pretensiosos, só bebida bem feita a preço justo. É o antídoto perfeito depois de um dia inteiro de praia e sol, quando o que se quer é sentar, não decidir nada e deixar a noite acontecer devagar.
Se sobrar energia, caminhar pela cidade velha à noite é grátis e subestimado. As ruas estreitas perto da Sé, com roupa estendida entre prédios e o som ocasional de televisão pela janela aberta, mostram mais sobre Setúbal do que qualquer atração paga.
O que vale pagar (porque nem tudo deve ser grátis)
Fazer a cidade num orçamento apertado não significa recusar gastar em tudo. Significa gastar bem, nas coisas certas. Se o passeio de barco pelos golfinhos estiver dentro do orçamento, vale claramente o dinheiro, porque a experiência guiada aumenta muito a chance de ver os animais de perto e normalmente inclui explicação sobre o ecossistema do estuário que compensa o investimento. Da mesma forma, um jantar decente de choco frito não é luxo, é a razão de se estar em Setúbal, e cortar aqui é economia mal feita.
Onde cortar sem dó: parques de estacionamento privados junto às praias mais concorridas em julho e agosto, aluguer de equipamento de praia que se pode facilmente levar de casa, e qualquer restaurante com fila de autocarros de turismo lá fora.
Como chegar e quanto custa a logística
De comboio desde Lisboa (estação do Oriente ou Roma-Areeiro) até Setúbal é a opção mais barata e sem stress de estacionamento na cidade. Depois, para chegar às praias da Arrábida, será preciso autocarro local, boleia ou carro alugado, já que não há comboio direto até lá. Em agosto, quando o trânsito para a Figueirinha e Galapinhos fica lento, muita gente opta por táxi ou Uber partilhado desde a estação, o que sai mais barato do que parecer à primeira vista se dividido por várias pessoas.
Um dia inteiro em Setúbal, feito com cuidado, fica muito abaixo do que se gastaria num dia equivalente em Sintra ou Cascais, e a experiência de praia é, honestamente, melhor. Isso não é opinião controversa, é apenas verdade que ainda pouca gente percebeu.
Resumo prático para o dia
- Manhã: Praia da Figueirinha ou Galapinhos, cedo, para fugir do trânsito e do parque pago
- Meio-dia: tentativa de avistar golfinhos ou aves a partir da margem do Sado, sem custo
- Almoço: choco frito numa tasca simples, longe da marginal turística
- Tarde: Praia do Creiro para quem quer sossego, ou passeio pela cidade velha
- Noite: Stichini Bar para uma bebida sem preço inflacionado
Setúbal não pede desculpa por não ser Sintra, e ainda bem. É uma cidade que se deixa fazer bem sem exigir muito, o que a torna, para quem viaja com atenção ao orçamento, uma das apostas mais seguras da região de Lisboa.