Santarém em Três Cafés: O Que Pedir
Guia

Santarém em Três Cafés: O Que Pedir

· · Santarém

Três pastelarias, um roteiro a pé pelo centro histórico, e a descoberta de que Santarém tem doçaria conventual própria que a maioria de Portugal nunca provou. Comece pela fatia, acabe no prato do dia.

Santarém tem um problema de marketing. É a cidade que toda a gente atravessa a caminho do Alentejo ou do Algarve, a que se vê da autoestrada empoleirada sobre a lezíria, e raramente a que se visita de propósito. Isso é um erro, e o erro corrige-se com café. Não café genérico de máquina de gasolineira, mas o café servido em três casas que, juntas, contam a história de uma cidade que foi capital do gótico português e continua a ser, sem se armar em nada, capital de uma doçaria conventual que poucos fora da região conhecem bem.

A ideia é simples: uma manhã, três paragens, um roteiro a pé pelo centro histórico que não exige mapa, só apetite.

Pastelaria de Santa Clara: as fatias que dão nome à casa

Comece aqui. A Pastelaria de Santa Clara não escolheu o nome ao acaso: as Fatias de Santa Clara são um doce conventual de Santarém, feito com gema de ovo e açúcar, denso e amarelo como só a doçaria de convento sabe ser. É o tipo de coisa que se pede com uma bica curta, porque o doce é suficientemente intenso para não precisar de acompanhamento açucarado no café.

Não há necessidade de pressa aqui. Peça a fatia, peça a bica, e sente-se junto à montra a ver quem entra: senhoras que vêm buscar a encomenda para o almoço de domingo, um ou outro turista despistado que topou com o lugar por acaso. É essa mistura que torna a pastelaria mais interessante do que a maioria das casas de doces com nome bonito e produto genérico.

O que pedir

  • Fatia de Santa Clara com uma bica curta
  • Se houver, pergunte pelas queijadas da casa, variam consoante o dia

Pastelaria Bijou: a bica de bairro que não muda

A dez minutos a pé, a Pastelaria Bijou é o oposto do sítio para turista fazer fotografia. É o café de bairro no sentido mais literal: balcão comprido, empregados que já sabem o pedido de metade da clientela, e um pastel de nata que não tenta reinventar nada, só faz bem o que sempre fez. É aqui que se percebe a diferença entre uma pastelaria pensada para quem vive na rua ao lado e uma pensada para quem passa uma vez.

O conselho é pouco original mas honesto: peça um galão e um pastel de nata quente, sente-se ao balcão em vez da mesa, e ouça as conversas. Santarém fala de agricultura, de futebol e de tourada em partes praticamente iguais, e o balcão da Bijou é uma boa amostra disso a qualquer hora da manhã.

O que pedir

  • Galão e pastel de nata, servido quente se pedir
  • Torrada com manteiga, para quem quer o essencial e nada mais

Central Café Restaurante: quando a manhã vira almoço

Por volta do meio-dia, a lógica muda e o Central Café Restaurante assume o papel de âncora do roteiro. Como o nome indica, não é só café: é o tipo de casa que serve bica de manhã e prato do dia ao almoço, sem cerimónia. Se chegar por volta da uma, vale a pena perguntar pela sugestão do dia em vez de pedir do menu fixo, porque é aí que geralmente está a comida mais fresca e mais barata.

É também o sítio certo para fechar o roteiro dos três cafés com uma bica a seguir ao almoço, sentado numa esplanada a ver o movimento da rua. Santarém não tem pressa, e depois de três cafés e uma fatia de convento, também não devia ter.

O que pedir

  • Prato do dia ao almoço, pergunte antes de pedir do menu fixo
  • Bica depois de comer, no balcão ou na esplanada

Onde dormir e como organizar o roteiro

Quem quiser fazer este roteiro com calma, sem correr atrás do último comboio para Lisboa, pode ficar no Santarem Hostel, a poucos minutos a pé do centro histórico. É a opção mais prática para quem quer acordar cedo, chegar à Pastelaria de Santa Clara antes das filas de sábado, e ainda ter tempo para subir ao Miradouro das Portas do Sol antes do calor da tarde apertar.

Santarém fica a menos de uma hora de comboio de Lisboa, o que torna este roteiro perfeitamente possível como escapadela de um dia. Mas se há coisa que este artigo defende é que Santarém não é sítio para se despachar. Fique uma noite, faça os três cafés com calma, e só depois decida se segue viagem para o Alentejo.

Depois do café: a cidade em câmara lenta

Para quem quiser esticar a visita para lá da doçaria, Santarém tem um lado mais contemplativo que poucos exploram. A meditação caminhada na Quinta Carvalhas é uma boa forma de equilibrar o excesso de açúcar da manhã com uma caminhada tranquila pela paisagem da lezíria, o tipo de contraste que faz sentido numa cidade que vive entre a solenidade do gótico e a informalidade do balcão de café.

E para quem gosta de esticar a viagem, há quem use Santarém como ponto de partida para experiências mais inesperadas, como o surf para iniciantes organizado a partir de Santarém, prova de que a cidade, apesar de estar no interior, não é tão desligada da costa quanto a lezíria à sua volta sugere.

O roteiro, resumido

Comece pela Pastelaria de Santa Clara e a sua fatia conventual, com uma bica curta. Siga a pé até à Bijou para o galão de balcão e o pastel de nata que não falha. Feche o dia no Central Café Restaurante, onde o café se transforma em almoço sem aviso prévio. Durma no Santarem Hostel se quiser fazer isto com tempo, e não com pressa de comboio.

Santarém não pede desculpa por ser calma. Pede é que se lhe dê uma manhã inteira, três cafés, e a paciência de ouvir o que a cidade tem para dizer entre uma bica e outra.

pastelarias Santarém Lisboa e Vale do Tejo doçaria conventual cafés