Santarém Sem Autocarros de Turismo: Um Fim de Semana
Enquanto todos seguem para Fátima ou Óbidos, Santarém fica ali ao lado com a maior concentração de igrejas góticas do país e uma varanda sobre o Tejo que quase ninguém visita. Um fim de semana inteiro na cidade, entre pastelarias rivais, uma caminhada de meditação numa quinta e um almoço sem nenhum turista à mesa ao lado.
Porque é que quase ninguém pára em Santarém
A maioria de quem passa por Santarém está a caminho de outro sítio. Fátima fica a quarenta minutos, Óbidos está mais perto do imaginário turístico do que da geografia, e a A1 despeja milhares de carros por dia a poucos quilómetros da cidade sem que quase ninguém saia da autoestrada. É um erro que só percebe quem já cá dormiu uma noite. Santarém tem a maior concentração de igrejas góticas do país, uma varanda sobre o Tejo que envergonha miradouros muito mais fotografados, e uma tradição de campinos e touros que não existe com esta intensidade em mais lado nenhum de Portugal. Passar aqui um fim de semana inteiro, sem pressa de seguir viagem, é perceber que a cidade nunca precisou de se vender a ninguém, porque durante séculos foi ela a decidir quem entrava e quem ficava de fora das muralhas da Alcáçova.
Sexta à noite: dormir bem sem gastar de mais
Para uma escapadinha de dois dias sem complicações logísticas, ficar no Santarem Hostel resolve o alojamento com contas simples: preços de hostel, staff que conhece a cidade e não empurra roteiros de autocarro, e uma localização a pé da zona histórica que evita a tentação de andar de carro dentro da cidade velha, onde os estacionamentos são poucos e as ruas estreitas obrigam a manobras que ninguém tem paciência para fazer às nove da noite.
Depois de largar a mala, não vá logo jantar. Suba ao Jardim das Portas do Sol ao fim da tarde, instalado sobre as ruínas da antiga Alcáçova, quando a luz cai sobre a lezíria e o Tejo fica cor de cobre. É gratuito, está sempre aberto, tem um centro de interpretação da cidade romana por baixo dos pés, e é provavelmente a vista mais subestimada do centro de Portugal. Foi também aqui perto, segundo a lenda, que o corpo de Santa Iria terá sido encontrado depois de descer o rio desde Tomar, dando o nome à cidade. Verdade ou lenda, é a história que os santarenos contam há séculos, e ouvi-la ali, com o rio lá em baixo, faz mais sentido do que ler sobre ela num folheto.
Sábado de manhã: café, não café da manhã de hotel
Santarém tem duas pastelarias que competem há décadas pela lealdade dos locais, e qualquer santareno tem opinião sobre qual é melhor. A Pastelaria Bijou fica mesmo no centro e tem uma clientela fiel de quem trabalha ali perto: café tirado depressa, balcão cheio às nove da manhã, conversa de bairro que não pára para turista nenhum. Já a Pastelaria de Santa Clara tem mais espaço para sentar e é onde as famílias levam os avós ao domingo. A recomendação honesta é simples: comece na Bijou para o café rápido, de pé, e deixe a Santa Clara para um pequeno-almoço mais demorado, sentado, sem pressa nenhuma de sair. Peça um galão e um pastel de nata ou uma torrada, e deixe o resto do balcão para quem já sabe o que quer sem olhar para a montra.
Depois do café: a cidade gótica a pé
Santarém ganhou a alcunha de capital do gótico por boas razões. A Igreja de Santa Maria de Marvila tem o interior forrado por cerca de 65 mil azulejos do século XVII sobre uma estrutura que remonta ao século XII, com um portal manuelino que vale a paragem só por si. A Igreja de São João de Alporão, hoje núcleo arqueológico do museu municipal, guarda o túmulo de D. Duarte de Menezes e está a poucos minutos a pé, geralmente sem fila nenhuma à porta. O Seminário, construído pelos jesuítas a partir de 1676 e hoje sé da diocese, tem um interior barroco em talha dourada que costuma estar vazio mesmo a meio de um sábado de manhã, o que por si só diz muito sobre quantos visitantes de facto entram na cidade velha em vez de a atravessar de carro. Suba depois à Torre das Cabaças, torre-relógio do século XIV transformada em pequeno museu do tempo, para uma vista diferente sobre os telhados a partir dos seus 22 metros.
A meio da manhã: sair da cidade sem sair da experiência
Se o objetivo é mesmo fugir do óbvio, a Meditação Caminhada na Quinta Carvalhas em Santarém é o oposto de qualquer roteiro apressado: uma caminhada lenta por entre vinha e olival, com paragens propositadas para respirar e ouvir o campo em vez de o fotografar. Não é para quem quer riscar pontos de um mapa, é para quem já decidiu que este fim de semana não vai ter pressa nenhuma. Reserve com antecedência, é uma atividade pequena e as vagas não são infinitas.
Para quem prefere adrenalina em vez de silêncio, existe também a opção pouco óbvia de sair de Santarém em direção ao mar: o programa Surf a Partir de Santarém: Ondas para Iniciantes em Junho organiza a deslocação até à costa para quem quer experimentar ondas de principiante sem tratar da logística sozinho. É um contraste completo com o resto do fim de semana e é exatamente por isso que funciona: sai-se do Ribatejo profundo a caminho do Atlântico, e volta-se à noite com sal na pele e uma história diferente para contar.
Sábado ao almoço: mesa cheia, sem turista à vista
Para o almoço de sábado, o Central Café Restaurante é a escolha certa: é onde se janta e almoça em Santarém quando não se está de férias, o que por si só já diz muito. Peça o prato do dia, quase sempre bacalhau ou carne de porco à moda da região, e não procure inovação onde não é preciso: aqui o que interessa é a mesa cheia, o vinho da casa a copo e o ritmo de quem come devagar porque tem a tarde livre pela frente. A região à volta de Santarém está dentro da DOC Tejo, e não é por acaso que a casa de vinho da região aparece em quase todas as mesas sem que ninguém precise de o pedir por nome.
Se a visita coincidir com a primeira quinzena de junho, vale a pena reorganizar o fim de semana à volta da Feira Nacional de Agricultura, também chamada Feira do Ribatejo, que enche a cidade de campinos a cavalo, provas de forçados e exposições de gado. Não é um espetáculo montado para turista, é a feira agrícola mais importante do país a acontecer à porta de casa, com toda a cultura equestre do Ribatejo em exibição sem qualquer encenação extra.
Domingo: devagar, e sem roteiro
O domingo em Santarém não pede plano. Depois de outro café, na Bijou ou na Santa Clara conforme a preferência já definida no dia anterior, caminhe até ao Convento de São Francisco, reaberto ao público em 2009 depois de décadas fechado, e deixe o resto do dia em aberto. Se o fim de semana correu bem, vai perceber que a cidade não lhe deu nenhum momento de postal, mas deu-lhe várias horas de vida real, o que é mais difícil de encontrar e mais difícil de esquecer.
Se este fim de semana lhe souber a pouco e quiser continuar a fugir das rotas mais óbvias, vale a pena olhar também para os doces de Páscoa em Mafra como próxima paragem: outra tradição de pastelaria conventual que segue a mesma lógica de Santarém, mais sabor do que postal. E se a curiosidade for antes por bairros e tradições urbanas, os guias sobre a cultura local em Lisboa e sobre os bairros de Sintra seguem o mesmo princípio: ir a pé, devagar, e deixar que a cidade conte a história em vez de a resumir num folheto.
O essencial em números
- Dormir: Santarem Hostel, a preços de hostel, a poucos minutos a pé da cidade velha
- Comer: café na Pastelaria Bijou ou na Pastelaria de Santa Clara, almoço no Central Café Restaurante
- Fazer: caminhada de meditação na Quinta Carvalhas, ou fuga de surf até à costa em junho
- Ver: Jardim das Portas do Sol, Igreja de Santa Maria de Marvila, Igreja de São João de Alporão, Torre das Cabaças, Seminário
- Quando ir: qualquer altura do ano, mas a primeira quinzena de junho junta o gótico à Feira do Ribatejo
- Como chegar: comboio ou A1 desde Lisboa, cerca de uma hora de viagem