Santarém à Noite: O Guia Sincero da Vida Noturna
Santarém não tem clubes até de manhã, mas tem uma feira em junho que enche o recinto todas as noites e um miradouro sobre o Tejo onde a vida noturna se mede em horas de conversa. Este guia diz onde ir e, sem rodeios, onde não vale a pena esperar mais.
Vamos começar pelo que Santarém não é: não é Lisboa, não tem uma rua cheia de bares que fecham às seis da manhã, e se vieste à procura de DJ sets e filas para entrar num clube, vais sair desiludido antes da meia-noite. Mas quem despacha Santarém como "cidade morta à noite" nunca ficou por lá um fim de tarde de junho, com o Tejo lá em baixo a ficar cor de laranja e o cheiro a churrasco a subir das Portas do Sol. A vida noturna de Santarém não se mede em copos, mede-se em horas de conversa à mesa de um café e numa feira que, uma vez por ano, transforma a capital do gótico numa das maiores festas populares do país.
A Feira Que Muda Tudo
Se há uma altura para perceber a Santarém noturna, é em junho, durante a Feira Nacional da Agricultura, no Parque de Exposições do Complexo Ribatejo. Não é um evento discreto: são semanas de concertos ao ar livre, provas de vinho, campinos, touradas e um recinto que enche todas as noites com gente de toda a região e muita gente de fora. É a prova de que Santarém sabe fazer festa, só que faz à sua maneira, ligada à terra, ao Ribatejo e às tradições campinas, não a uma agenda de vida noturna cosmopolita. Se calhares a viagem com a Feira, ajusta as expectativas: dormir perto do centro vale ouro, porque vais querer caminhar até casa e não apanhar táxi.
Portas do Sol ao Pôr do Sol
Fora da época da Feira, a melhor "noite" em Santarém começa antes de escurecer. O jardim das Portas do Sol, dentro do antigo castelo mouro, é o miradouro mais óbvio da cidade e continua a ser o melhor: lezíria a perder de vista, o Tejo a serpentear lá em baixo, e bancos suficientes para ficares até o céu mudar de cor. Não há bar dentro do jardim, leva uma garrafa de vinho verde ou passa antes por um dos cafés do centro histórico para um café para levar. É gratuito, está aberto até tarde no verão, e é o tipo de sítio que os santarenos levam os amigos de fora sem precisar de explicar porquê.
Onde o Café Substitui o Bar
A vida noturna real de Santarém acontece à mesa. Numa cidade do Ribatejo, sair à noite muitas vezes significa esticar o jantar até às tantas numa pastelaria ou num café com esplanada, não trocar de bar de hora a hora. A Pastelaria Bijou é desse tipo de sítio: uma pastelaria clássica que serve de ponto de encontro tanto ao final da tarde como depois do jantar, quando apetece só um café e uma fatia de bolo antes de ir para casa. A Pastelaria de Santa Clara tem o mesmo espírito, perto do antigo convento que lhe dá o nome, e é onde vais encontrar famílias inteiras a prolongar a sobremesa até muito depois de o prato principal ter sido levantado.
Para jantar com vista para o movimento da cidade, o Central Café Restaurante é a escolha óbvia: mesmo no centro, com esplanada, é o tipo de sítio onde se janta tarde, se fica para o digestivo, e se acaba a conversar com a mesa do lado sem ter combinado nada. Não esperes música ao vivo garantida todas as noites, mas em noites de verão o ambiente de esplanada cheia já faz o trabalho. Um café ronda o euro, um jantar completo com vinho fica normalmente entre os quinze e os vinte e cinco euros por pessoa, preços de cidade do interior, não de capital.
Estudantes, Repúblicas e as Poucas Noites Que Restam
Santarém tem o Instituto Politécnico, o que quer dizer que há uma população estudantil que mantém viva uma cena de noites de bar mais informal, sobretudo à quinta e sexta-feira, longe do calendário turístico. É essa energia estudantil, mais do que qualquer roteiro de bares badalados, que dá à cidade as suas noites mais animadas fora da época da Feira. Não vais encontrar guias detalhados online sobre onde é que os estudantes bebem esta semana, porque isso muda todos os semestres, mas se andares pelo centro numa noite de quinta-feira vais perceber rapidamente onde está o movimento, é normalmente onde estão as bicicletas encostadas e a música mais alta.
Dormir Perto e Recuperar Bem
Para quem quer aproveitar uma noite mais longa sem se preocupar com o regresso a casa, o Santarem Hostel resolve o problema: fica perto do centro histórico, tem preços de hostel e é a base lógica para quem vem de fora só para a Feira ou para um fim de semana mais tranquilo entre cafés e miradouros. Depois de uma noite mais animada, ou mesmo só depois de uma semana cansativa, a Meditação Caminhada na Quinta Carvalhas em Santarém é o contraponto perfeito: uma manhã lenta, ao ar livre, na paisagem agrícola que rodeia a cidade, sem telemóvel e sem ressaca de decibéis.
Quando Santarém Não Chega
Sejamos claros: se o plano é dançar até de manhã, Santarém não é o destino. É a Lisboa, a cerca de uma hora de comboio a partir da estação de Santarém, que tem essa vida noturna, e vale a pena ler sobre isso antes de decidir onde passar a noite, o nosso guia sobre cultura local em Lisboa e a alma dos seus bairros ajuda a perceber onde ir. Para quem prefere trocar bares por paisagem e patrimoónio, os arredores de Lisboa também compensam a viagem: o guia de bairros de Sintra e o roteiro de doces de Páscoa em Mafra são boas desculpas para um dia inteiro fora de Santarém, sobretudo se estiveres a planear vários dias na região.
E se o que procuras é adrenalina em vez de copos, considera trocar a noite pela manhã seguinte: o programa de surf a partir de Santarém, com ondas para iniciantes em junho, é uma boa forma de gastar energia de dia, deitar cedo, e voltar a sair à noite com pilhas recarregadas em vez de arrastar uma ressaca pela cidade.
Como Chegar e Quanto Vai Custar
Santarém está bem servida por comboio a partir de Lisboa (estação Oriente ou Santa Apolónia), com viagens que rondam os quarenta e cinco minutos a uma hora, o que faz de Santarém um destino de fim de semana fácil de encaixar mesmo vindo da capital só para a noite. De carro, a viagem pela A1 demora cerca de quarenta minutos em condições normais de trânsito. Dentro da cidade, o centro histórico é pequeno e faz-se todo a pé, o que significa que entre o jardim das Portas do Sol, as pastelarias do centro e o Central Café não vais precisar de táxi nenhuma vez, só de calçado confortável e, se for verão, um casaco leve para quando o vento sobe do Tejo depois do pôr do sol.
No fim de contas, a vida noturna de Santarém não finge ser o que não é. É uma cidade que sabe fazer uma festa quando decide fazê-la, a sério, na Feira, e que no resto do ano prefere o ritmo mais lento de um café que não fecha à pressa e de um miradouro onde ninguém está a olhar para o telemóvel. Para quem sabe o que vai encontrar, isso não é um problema, é o ponto.