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Monsaraz de Pedra: Um Roteiro a Pé Dentro das Muralhas

· · Monsaraz

Uma rua com menos de trezentos metros, um castelo com uma praça de touros lá dentro, e cinco mil anos de pedra alinhada de propósito. Este roteiro caminha por Monsaraz da forma como ela foi construída: devagar, e sem desperdiçar espaço.

Monsaraz não se caminha, dobra-se. A vila inteira cabe num promontório tão apertado que a Rua Direita, a única artéria que a atravessa de ponta a ponta, mede menos de trezentos metros. Isso é bom. Significa que não há como se perder, e significa também que cada esquina, cada portal de cantaria, cada fresta na muralha foi pensada para durar séculos, porque não havia espaço para desperdiçar pedra. Este é um roteiro para quem gosta de arquitetura sem preciosismo: cal branca, granito, ardósia, e uma economia de meios que qualquer arquiteto minimalista assinaria hoje.

Como chegar e quando ir

Monsaraz fica a cerca de 15 km de Reguengos de Monsaraz, já dentro do concelho, e a pouco mais de uma hora de Évora de carro. Não há comboio nem autocarro frequente que valha a pena, por isso conte com carro próprio. O estacionamento é fora das muralhas, num parque junto à entrada principal, gratuito na maior parte do ano, e a vila faz-se toda a pé a partir daí. Vá de manhã cedo, antes das 10h, ou ao final da tarde depois das 17h. Ao meio-dia, em julho e agosto, os autocarros de turismo despejam grupos inteiros na Rua Direita e a experiência de caminhar entre casas caiadas transforma-se numa fila de gente a fotografar montras de artesanato. Fora dessas horas, e sobretudo fora de época, a vila devolve-se a quem lá mora, que ainda não é muita gente, menos de cem residentes permanentes.

A entrada pela Porta da Vila

O roteiro começa, naturalmente, numa das portas da muralha medieval. A estrutura defensiva que hoje vemos resulta sobretudo de obras dos séculos XIII e XIV, depois da reconquista cristã, mas o sítio já era estratégico muito antes disso: quem controla este promontório controla a vista sobre o vale do Guadiana. As muralhas fazem-se de xisto e granito local, sem argamassa refinada, o suficiente para aguentar sítios e para continuar de pé setecentos anos depois. Repare na espessura dos panos junto à porta principal, e na forma como a estrada de acesso obriga a curva, um truque comum na arquitetura militar medieval para dificultar o avanço de qualquer ataque frontal.

Rua Direita: uma aula de arquitetura popular alentejana

A partir da entrada, a Rua Direita sobe suavemente até ao castelo. Aqui está o melhor da arquitetura vernacular do Alentejo, condensada numa rua só: casas térreas ou de um andar, paredes grossas caiadas de branco (a cal não é decoração, é isolamento térmico, mantém o interior fresco nos 40 graus de agosto), e barras de cor, azul ou ocre, à volta das portas e janelas, uma tradição que remonta à ideia de afastar insetos com sulfato de cobre misturado na tinta. Repare nas cantarias de granito: ombreiras, padieiras e soleiras talhadas numa única peça, um trabalho de canteiro que hoje custaria uma fortuna e que aqui é normal, invisível, funcional. Muitas destas casas têm datas gravadas nas padieiras, séculos XVII e XVIII, prova de que a rua não parou de ser habitada e remodelada ao longo do tempo.

Não é uma rua museu, mesmo que pareça. Ainda há gente a estender roupa nas janelas e a guardar lenha de sobreiro nos pátios. Essa mistura de vida quotidiana e cenário perfeito é precisamente o que torna Monsaraz diferente de outras vilas históricas mais arrumadas para turista ver.

O pelourinho e os Paços do Concelho

A meio da subida, na antiga praça central, fica o pelourinho manuelino, coluna de pedra que assinalava a autonomia jurídica da vila, e o edifício que serviu de antigos paços do concelho. É um exemplo claro de como estas pequenas praças alentejanas organizavam poder civil, religioso e comercial num raio de cinquenta metros: tudo o que a vila precisava para funcionar cabia ali.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa

Continuando a subida, a Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Lagoa, ergue-se com uma fachada maneirista do século XVI, mais sóbria do que exuberante, como é hábito no Alentejo interior. O interior guarda um túmulo gótico atribuído a um antigo governador, e a simplicidade das naves contrasta de propósito com a riqueza barroca que se vê em igrejas de cidades maiores como Évora. Aqui a mensagem arquitetónica é outra: austeridade como forma de devoção, não de pobreza.

O castelo e a praça de touros dentro da muralha

No topo, o Castelo de Monsaraz, mandado erguer por Dom Dinis no início do século XIV sobre uma fortificação anterior doada aos Cavaleiros Templários. As muralhas do castelo abraçam, de forma pouco comum, uma pequena praça de touros popular construída no espaço interior, entre a torre de menagem e o pano da muralha. É uma sobreposição estranha e fascinante: arquitetura militar medieval reaproveitada, séculos depois, para tourada popular, sem nunca deixar de ser, ao mesmo tempo, miradouro. Suba ao adarve para a vista sobre a albufeira do Alqueva, o maior lago artificial da Europa Ocidental, que desde 2002 mudou completamente a paisagem e a economia desta zona do Alentejo.

Antes das muralhas: arquitetura de há cinco mil anos

Se este roteiro fosse só sobre pedra medieval, ficaria incompleto. A cerca de dez minutos de carro de Monsaraz está o Cromeleque do Xerez, um conjunto megalítico do Neolítico que prova que esta paisagem já era organizada arquitetonicamente muito antes de qualquer castelo. Os menires foram deslocados no início dos anos 2000 por causa da subida das águas do Alqueva, um dos poucos casos em Portugal de um monumento pré-histórico literalmente mudado de sítio para sobreviver a uma obra hidráulica moderna. Vale a visita como contraponto: primeiro havia pedras alinhadas com o sol, depois vieram as muralhas alinhadas com a guerra, depois vieram as casas alinhadas com a rua. É a mesma lógica de organizar o espaço, três mil anos de distância entre cada camada.

Para quem gosta de esculturas ao ar livre com outra escala, o Parque Megafauna Monsaraz oferece um contraste quase cómico depois de tanta pedra antiga: um parque com réplicas de animais de grande porte, pensado sobretudo para quem viaja com crianças e precisa de queimar energia depois de uma manhã de subidas e descidas dentro da vila.

Onde comer depois da caminhada

Descer o promontório dá fome, e Monsaraz tem opções sérias para uma vila do seu tamanho. A Taverna Os Templários joga com o nome da ordem que ocupou o castelo, mas o que interessa é a cozinha alentejana sem grandes voltas: migas, ensopados, queijo de Serpa como entrada. Peça a açorda se estiver na ementa do dia, é o prato que separa uma taverna a sério de uma armadilha para turistas. Para uma refeição um pouco mais cuidada, com pratos que saem da caixa tradicional sem trair o Alentejo, a Sahida é a aposta certa, sobretudo se procurar uma esplanada com vista. Já a Xarez Restaurante Bar funciona bem para um fim de tarde mais relaxado, petiscos e um copo de tinto enquanto o sol desce sobre o Alqueva, ideal para fechar o dia sem pressa.

À noite: o céu que a albufeira ajudou a proteger

Monsaraz está dentro da Reserva Dark Sky Alqueva, uma das primeiras do mundo com esta certificação, e a ausência de poluição luminosa nesta zona do Alentejo é tão real como a arquitetura que se vê de dia. Depois do jantar, vale a pena trocar as ruas de calçada por uma sessão de observação de estrelas. Há duas experiências organizadas na zona que valem a reserva antecipada: Observar Estrelas em Monsaraz: Céu Escuro do Alqueva, mais informal e pensada para quem está hospedado na vila, e A Imensidão do Cosmos: Observação Astronómica no Observatório do Lago Alqueva, num observatório dedicado, com telescópios mais potentes e explicação técnica sobre o que se está a ver. Se só tiver uma noite em Monsaraz, esta é a atividade que compensa ficar em vez de seguir viagem ao final da tarde.

Para arrefecer: a praia fluvial

Com o calor do Alentejo, sobretudo entre junho e setembro, uma manhã inteira a subir e descer ruas de calçada pede uma pausa junto à água. O Parque de Merendas da Praia Fluvial de Monsaraz fica junto à albufeira, com sombra de árvores e mesas de piquenique, um sítio simples e sem pretensões para almoçar levado de casa e mergulhar antes de voltar à vila para o pôr do sol.

Quanto tempo reservar, e quanto custa

O roteiro dentro das muralhas faz-se com calma em duas a três horas, incluindo subida ao castelo e paragem na igreja. A entrada na vila é livre, o castelo também não cobra bilhete de entrada ao adarve. As experiências de observação de estrelas custam normalmente entre 15 e 30 euros por pessoa, dependendo do operador e do equipamento usado, e devem ser marcadas com antecedência, sobretudo em noites de lua nova, quando a procura sobe. Uma refeição completa numa das tabernas da vila fica geralmente entre 15 e 25 euros por pessoa, vinho incluído.

Continuar viagem para norte

Se o roteiro por Monsaraz for só a primeira paragem de um périplo maior pelo interior alentejano, vale a pena somar Portalegre ao itinerário, já mais a norte, no distrito com o mesmo nome. Os guias Portalegre a Pé: Os Bairros Que Valem a Caminhada e Portalegre Sem Armadilhas: Um Fim de Semana Real ajudam a organizar essa segunda etapa sem cair nos erros óbvios de quem visita a cidade só de passagem.

Monsaraz não precisa de metáforas para impressionar. Precisa só de que se olhe com atenção para uma padieira de granito, se conte quantos séculos separam um cromeleque de um castelo, e se aceite que uma vila de trezentos metros de rua principal pode ocupar uma tarde inteira sem que se dê por isso.

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