Monsaraz: A Praia Que Ninguém Espera Encontrar no Alentejo
O Alentejo não tem oceano, mas Monsaraz tem uma praia fluvial escondida na base da colina do castelo, com água quente e quase ninguém antes das dez da manhã. Entre um mergulho no Alqueva e um jantar de cozinha alentejana, sobra ainda tempo para dormir debaixo de um dos céus mais escuros da Europa.
A pergunta errada
Chega-se a Monsaraz a perguntar pelas praias e recebe-se sempre a mesma cara de surpresa de quem não é dali: "Praias? Aqui?" O Alentejo não tem oceano à porta, mas tem qualquer coisa que a maioria dos turistas de verão nem sabe procurar: o Lago Alqueva, a maior massa de água artificial da Europa Ocidental, que lambe a base da colina onde o castelo de Monsaraz vigia o horizonte há setecentos anos. Não há ondas, não há areia grossa nem barracas de praia a vender bebidas a preço de aeroporto. Há água quieta, calor seco e, se se souber a que horas ir, quase ninguém à volta.
A praia fluvial, onde a aldeia desce até à água
A poucos minutos de carro do largo principal, a estrada desce da colina em curvas apertadas até à margem do lago, onde fica a praia fluvial de Monsaraz. Esqueça a ideia de praia atlântica: aqui a entrada na água é gradual, o fundo é mais estável e o mergulho parece mais nadar numa piscina gigante do que enfrentar o mar. Em julho e agosto a água aquece o suficiente para se ficar horas dentro dela, o que compensa perfeitamente a ausência de brisa marítima e de ondas.
Mesmo ao lado, o Parque de Merendas da Praia Fluvial de Monsaraz resolve o problema de quem quer ficar o dia inteiro: mesas à sombra de árvores, espaço para estender a toalha depois do almoço e a possibilidade de levar comida própria em vez de pagar preço de zona turística por um prato de plástico. É o tipo de sítio que os alentejanos usam aos domingos em família e que os visitantes descobrem tarde demais, já depois de terem gasto o dinheiro do almoço num café qualquer da vila lá em cima.
Como fugir às multidões
Monsaraz enche a partir das onze da manhã, quando os autocarros de excursão despejam grupos nas ruas de calçada da vila. A praia segue o mesmo ritmo, mas com um atraso de uma hora, porque primeiro toda a gente quer fotografar o castelo antes do calor apertar. A fórmula para ter o lago quase só para si é simples:
- Chegar à água antes das dez da manhã, quando ainda só lá estão os locais a nadar antes de irem trabalhar.
- Evitar sábados e domingos de agosto, que são, sem exceção, os dias mais cheios do ano em toda a região.
- Voltar ao final da tarde, depois das dezoito horas, quando o sol perde força e a luz sobre o lago fica dourada, mas a maioria dos visitantes de dia já foi embora para jantar.
- Se o objetivo for mesmo sossego total, os dias de semana em junho ou setembro têm quase a mesma temperatura da água e uma fração da gente.
- Estacionar perto da praia em vez de na vila: em dias de pico o parque de estacionamento do castelo enche primeiro, e quem estaciona junto ao lago ganha tempo que outros perdem a subir e a descer a colina.
Entre mergulhos, o resto de Monsaraz
Ninguém fica na água o dia inteiro, e é aí que Monsaraz ganha a destinos de praia a sério: há para onde ir sem apanhar o carro durante uma hora. O Cromeleque do Xerez é um círculo de menires que antecede as pirâmides do Egito e que, ao contrário do mais conhecido Cromeleque dos Almendres perto de Évora, raramente tem mais do que um punhado de visitantes a qualquer hora do dia. Entrada livre, sem bilheteira, sem horário rígido: chega-se, anda-se entre as pedras e sente-se aquele silêncio estranho de um sítio que já viu muitos milénios passarem sem pressa nenhuma.
Para quem viaja com crianças, ou simplesmente gosta de coisas fora do comum, o Parque Megafauna Monsaraz é uma paragem que ninguém espera encontrar no meio do Alentejo: um parque ao ar livre com esculturas de megafauna, animais gigantes já extintos recriados à escala real. É diferente de tudo o resto na região e resolve perfeitamente aquelas duas horas depois do almoço em que ainda é cedo demais para voltar à água mas tarde demais para outra coisa mais exigente.
A vila lá em cima, antes ou depois da água
Vale a pena subir à vila cedo, antes das excursões, ou já ao final da tarde, quando os autocarros partiram. As ruas de calçada estreita entre casas caiadas de branco, o castelo com vista sobre a planície e o lago, a Igreja Matriz e o pelourinho no largo principal fazem-se em meia hora com calma, mas ganham outra qualidade sem grupos de vinte pessoas a bloquear a rua principal. Um gelado ou um café na esplanada junto às muralhas, com o Alqueva espalhado lá em baixo, é o tipo de pausa que compensa qualquer atraso no plano do dia.
Onde comer depois da praia
A cozinha alentejana não perdoa quem chega esfomeado da água à procura de uma salada leve. É comida pensada para quem trabalhou a terra, e continua a ser servida assim: açorda, migas, ensopado de borrego, queijo de Serpa a escorrer da casca. Em Monsaraz há três moradas que resolvem bem esta fome de fim de tarde.
A Sahida tem vista sobre a planície e o lago, o que a torna a escolha óbvia para quem quer o pôr do sol com o jantar, mas o mérito não é só a vista: a cozinha respeita os pratos tradicionais sem os complicar demasiado. No Xarez Restaurante Bar o ambiente é mais descontraído, bom para quem quer petiscar e beber um copo de tinto de Reguengos sem cerimónia depois de um dia inteiro de calções molhados. E a Taverna Os Templários, dentro das muralhas, é a escolha para quem quer comer rodeado da pedra da vila velha, num espaço pequeno que em época alta obriga a reservar com antecedência.
Nenhum destes sítios é barato ao nível de tasca de bairro, mas também nenhum cobra os preços de armadilha turística que se veem noutras vilas históricas do país. A região produz o próprio vinho, e pedir a garrafa da casa costuma ser a decisão mais acertada da refeição.
A noite compensa o dia
Se a praia é a surpresa de dia, a noite em Monsaraz é a razão de peso para ficar a dormir na região em vez de voltar logo para Évora ou Lisboa. A zona do Alqueva foi reconhecida como destino de turismo de estrelas, com uma das menores taxas de poluição luminosa da Europa, e isso nota-se assim que o sol se põe: a Via Láctea aparece a olho nu, sem esforço nenhum e sem precisar de subir a nenhuma montanha.
Quem quer levar isto a sério pode reservar a experiência A Imensidão do Cosmos: Observação Astronómica no Observatório do Lago Alqueva, com telescópios e explicação guiada, ideal para quem nunca percebeu bem o que está a ver quando olha para cima. Para uma experiência mais simples e ao ar livre, sem equipamento pesado, há também Observar Estrelas em Monsaraz: Céu Escuro do Alqueva, pensada para quem prefere só estender-se numa manta e deixar os olhos habituarem-se ao escuro. Ambas exigem reserva prévia e os preços variam consoante a época, por isso vale confirmar disponibilidade antes de subir a colina ao final do dia.
Antes de partir
Monsaraz fica a cerca de cinquenta minutos de carro de Évora e a pouco mais de duas horas de Lisboa, mas não há transporte público que resolva bem o trajeto até à praia fluvial, por isso carro próprio é praticamente obrigatório. O estacionamento na vila é limitado e enche cedo no verão: quem for passar o dia é melhor deixar o carro perto da praia e subir à vila a pé mais tarde, em vez do contrário. Leve chapéu, água e protetor solar: entre a praia, o cromeleque e o parque de merendas, o dia passa-se quase todo ao ar livre e sem muita sombra pelo caminho.
Vale ainda notar que Monsaraz é só um dos lados do Alentejo que vale a pena explorar fora do óbvio. Para quem gosta desta ideia de fugir às rotas turísticas mais previsíveis, o guia Portalegre Sem Armadilhas: Um Fim de Semana Real segue a mesma lógica noutra ponta da região, com a mesma promessa de menos gente e mais substância.
No fim, quem vem a Monsaraz à procura de uma praia como as do Algarve vai ficar desiludido. Quem vier disposto a trocar ondas por água parada, areia fina por sombra de sobreiro e animação de bar de praia por um céu cheio de estrelas, sai daqui a perguntar por que ninguém lhe tinha falado disto antes.