São Vicente: Os Três Cafés Que Valem a Pausa
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São Vicente: Os Três Cafés Que Valem a Pausa

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Em São Vicente não há filas de turistas nem cappuccinos para Instagram, só três cafés que servem propósitos diferentes: pão quente ao pé da praia, uma pausa a sério com bica ou galão, e sacos de doces para levar. Aqui fica o roteiro completo de um dia.

São Vicente fica no lado da Madeira que virou as costas ao turismo de resort e virou a cara para o Atlântico aberto. É uma vila de basalto escuro, praia de calhau e uma estrada que serpenteia junto às grutas antes de subir para o interior verde. Não há fila de autocarros de excursão parados à porta de nenhum café aqui, e isso já diz muito sobre como se deve beber o café nesta vila: devagar, de pé ao balcão, a ouvir os pescadores discutirem o estado do mar em vez de turistas a fotografar cappuccinos.

Passei uma manhã inteira a percorrer os três sítios que valem mesmo a pausa em São Vicente, e cada um serve um propósito diferente. Um é para o pequeno-almoço rápido antes da praia. Outro é para sentar e não fazer nada durante uma hora. O terceiro é para levar doces para a viagem de regresso. Aqui fica o roteiro, com o que pedir em cada um, e como encaixar os três num só dia sem pressa nenhuma.

Padaria do Calhau LDA: o pão de quem já está de fato de banho

O nome não é acidente. "Calhau" é a palavra que os locais usam para descrever a praia de seixos escuros logo ali ao fundo da rua, e esta padaria funciona como o posto avançado de quem vai passar o dia na Praia de São Vicente. Chega-se cedo, compra-se pão ainda quente e um sumo, e sobem-se os cem e poucos metros até à areia escura, ainda fria do orvalho da noite.

Peça o pão do dia, simples, ainda a fumegar quando corta. Não é o sítio para delicadezas de pastelaria francesa, é o sítio para um pequeno-almoço madeirense a sério: pão, manteiga, café instantâneo ou galão, e talvez uma fatia de bolo se estiver em exibição no balcão nesse dia. Quem preferir esticar a manhã pode seguir depois até ao Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente, as piscinas naturais construídas sobre a rocha vulcânica a poucos minutos a pé, onde o mar entra e sai das poças como se as tivessem talhado de propósito para nadar.

Quando ir

Antes das 9h, quando o pão ainda está a sair do forno e a vila ainda não acordou de vez. Depois disso é só uma padaria de bairro como outra qualquer, o que também não é mau, mas perde a piada de apanhar o calor do forno em cima do balcão.

Coffee House: a única pausa a sério da vila

O nome em inglês engana um bocado, mas a Coffee House é exactamente o que promete: um sítio para sentar, pedir um café como deve ser e ficar ali um tempo sem ninguém a apressar. Depois de uma manhã a andar entre a praia e as piscinas naturais, é aqui que se pousa o corpo.

Peça uma bica se quiser o clássico português, curto e forte, ou um galão se preferir esticar o café com leite e fazer disso a bebida da tarde toda. Se houver bolo do caco na vitrine, o pão-bolo achatado típico da Madeira, tradicionalmente cozido em chapa de pedra e servido com manteiga de alho, vale a pena perguntar, mesmo fora da hora do pequeno-almoço. Nem toda a pastelaria madeirense o tem sempre disponível, por isso pergunte antes de assumir que está no menu.

A Coffee House funciona bem como intervalo a meio do dia para quem está de carro a caminho de uma caminhada mais longa. Se o plano é subir até à Levada do Rei a partir de São Vicente, um trilho de floresta laurissilva que arranca não muito longe da vila, este é o sítio certo para abastecer de cafeína antes de enfiar as botas e desaparecer entre samambaias e til centenários.

Corvopan Padaria Pastelaria: o que se leva para a viagem

Se a Padaria do Calhau é para comer ali mesmo e a Coffee House é para sentar, a Corvopan é para levar. É uma pastelaria de produção mais alargada, com mais opções na vitrine, e funciona bem como último ponto de abastecimento antes de voltar para o Funchal ou para qualquer outro lado da ilha.

Peça um saco de pastelaria variada: broa de milho se estiver disponível, alguma coisa recheada com doce de fruta, e não hesite em perguntar por bolo de mel se calhar em época festiva. É um doce escuro e denso, feito tradicionalmente com melaço de cana em vez de mel de abelha apesar do nome, e é uma das assinaturas doces da ilha. Fora da época festiva, a vitrine varia consoante o que sai do forno nesse dia, por isso vale sempre mais a pena perguntar o que está mais fresco do que pedir por nome específico.

A Corvopan é o sítio prático para quem vai a caminho de um dia mais longo de estrada. Se a ideia é continuar viagem para sul e comparar a cena gastronómica da ilha, vale a pena ler depois sobre onde comer sardinha assada a sério em Câmara de Lobos, ou planear uma passagem pelo Funchal em junho, quando a cidade enche de atum, levadas e noites de festival.

Como encaixar os três num só dia

A lógica geográfica de São Vicente ajuda: a vila é pequena, tudo fica a uma caminhada curta de tudo. Um dia bem passado por aqui pode ser assim: pequeno-almoço na Padaria do Calhau antes das 9h, depois praia ou piscinas naturais até ao meio-dia, café a sério na Coffee House por volta da uma da tarde, e uma paragem na Corvopan a caminho do carro para levar doces para o resto da viagem.

Para quem tem mais tempo, vale alargar o dia com uma caminhada. A zona norte da Madeira tem trilhos de levada que competem em beleza com qualquer coisa que se encontre perto do Funchal, e há sempre boas referências sobre os trilhos de levada essenciais para abril para quem quer comparar rotas. Mas o trilho que arranca mesmo aqui, a Levada do Rei, tem a vantagem de terminar exactamente onde começou o dia: perto de café quente e pão fresco.

Quando não é só sobre café

São Vicente também tem os seus momentos de festa, e vale a pena planear a visita à volta deles se a data encaixar. O Arraial dos Lameiros é a festa popular que transforma a vila numa versão mais ruidosa e mais animada de si mesma, com comida de rua, música ao vivo e a vila inteira lá fora até tarde. Nesses dias, esqueça os horários normais das padarias, tudo se ajusta ao ritmo da festa, e as filas nos três cafés podem ser a única fila que vai encontrar em São Vicente durante o ano inteiro.

Fora da época de festas, São Vicente é um sítio calmo, e é precisamente essa calma que torna os três cafés interessantes. Não há concorrência feroz por mesa, não há filas, não há pressão para libertar o lugar assim que se termina o café. Isso é raro na Madeira turística, e vale a pena aproveitar enquanto dura.

O essencial em números

  • Um café simples (bica) ronda os 0,80 a 1 euro em qualquer um dos três sítios; um galão custa um pouco mais.
  • Pão e pastelaria doce individual normalmente ficam abaixo de 2 euros por unidade.
  • Os três locais ficam a uma distância caminhável entre si, sem necessidade de carro dentro da vila.
  • Confirme localmente os horários de abertura, que podem variar consoante a época do ano.

São Vicente não vai aparecer em nenhuma lista das dez melhores pastelarias da Madeira, e ainda bem. É o tipo de vila onde se vai buscar pão porque se tem fome, não porque se leu sobre isso num guia turístico chique. Mas agora já leu, por isso aproveite a vantagem: chegue cedo, peça o pão ainda quente, e deixe o resto do dia acontecer devagar, com o mar a bater nos calhaus lá em baixo como pano de fundo.

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