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São Vicente à Chuva: Grutas, Padarias e Um Bom Café

· · São Vicente

Em São Vicente a chuva não cancela o dia, só muda o plano: grutas de lava com 890 mil anos, três padarias com o forno quente e um complexo balnear que fica mais interessante precisamente quando o mar está bravo.

São Vicente fica no lado errado da ilha para quem quer sol garantido. É costa norte, virada para o vento que sobe do Atlântico e esbarra na parede da serra, o que por cá se traduz numa regra simples: quando chove no norte, chove mesmo, e às vezes chove durante três dias seguidos sem que ninguém no café ache motivo para comentar. Quem vem do sul, de Câmara de Lobos ou do Funchal, costuma achar estranho: lá em baixo há sol, aqui em cima a estrada da ER101 desaparece dentro de uma nuvem. Não é falta de sorte, é geografia. E a boa notícia é que São Vicente não é uma vila que dependa da praia para funcionar.

Comece pelas grutas, não pela costa

A primeira coisa que qualquer local sugere quando o céu fecha são as Grutas e Centro do Vulcanismo, no Sítio do Pé do Passo, a poucos minutos do centro. São túneis de lava com quase 900 metros percorríveis, formados há cerca de 890 mil anos quando esta parte da ilha ainda estava a ser construída por erupções sucessivas. A visita é guiada, dura cerca de 45 minutos dentro das grutas propriamente ditas, e o centro de interpretação por cima explica de forma simples e visual como a Madeira nasceu do fundo do oceano. Abre todos os dias, das 10h às 19h (fecha só a 25 de dezembro), e a entrada ronda os 8 euros para adultos, com desconto para crianças e seniores. Leve casaco: lá dentro está sempre uns bons graus abaixo da temperatura à superfície, chova ou faça sol.

É, sem exagero, a melhor resposta que São Vicente tem para um dia de mau tempo. Não é uma atração de recurso, é o motivo pelo qual muita gente vem à vila mesmo quando o boletim meteorológico não ajuda.

Depois, aqueça as mãos numa padaria a sério

Se há um consolo universal para a chuva no norte da Madeira, é uma padaria com o forno ainda quente. Em São Vicente há três moradas que resolvem isso sem drama. A Padaria do Calhau LDA é a escolha certa para quem quer pão do dia e um doce simples ao balcão, sem cerimónia: entra-se molhado, sai-se com um saco quente debaixo do braço. A Corvopan Padaria Pastelaria tem mais variedade de pastelaria, boa para quem quer sentar cinco minutos e ver a chuva bater no vidro com um bolo do caco ou uma broa na mesa. E se o que precisa é de uma cadeira confortável, wi-fi e um café bem tirado enquanto espera a bátega passar, é para a Coffee House que se vai. Nenhuma destas três é sofisticada nem finge ser: são o tipo de sítio onde se resolve uma manhã de chuva sem gastar mais do que uns poucos euros, e onde ninguém estranha se ficar ali uma hora a ver o tempo passar.

O que pedir

  • Bolo do caco quente, com manteiga de alho se oferecerem, é sempre a aposta segura numa manhã fria.
  • Um café curto e uma broa madeirense na Corvopan custam o suficiente para não pesar na consciência nem na carteira.
  • Se estiver com fome a sério, pergunte pelo pão do dia na Padaria do Calhau: é feito para durar o dia todo, não para foto.

O Complexo Balnear, mesmo com o mar em fúria

Parece contraintuitivo sugerir um complexo balnear num dia de chuva, mas o Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente vale a visita mesmo sem entrar na água. As piscinas naturais talhadas na rocha, junto à foz da ribeira, ganham um carácter completamente diferente quando o Atlântico está agitado: as ondas rebentam contra os paredões de basalto a poucos metros de onde normalmente as famílias tomam sol, e o espetáculo, visto de um dos espaços cobertos ou do bar do complexo com um café na mão, vale por si. Não é o dia para nadar, mas é o dia certo para perceber porque é que esta costa se chama costa brava sem exagero nenhum. Nos dias de chuva mais fina, mesmo assim, há sempre quem arrisque um mergulho rápido, mas isso é decisão de cada um e do estado do mar.

A Praia de São Vicente, logo ali ao lado, é sítio para caminhada curta entre pingos, não para deitar a toalha na areia. Vá lá antes ou depois da chuva mais forte, quando o céu ainda está fechado mas a água já assentou, e vai ter a praia praticamente só para si.

Guarde as levadas para amanhã

Há quem insista em fazer a Levada do Rei a partir de São Vicente com chuva, e tecnicamente até se consegue: é um trilho de floresta Laurissilva, com o canal de água a fazer companhia durante quase todo o percurso, e a chuva nem sequer é o problema principal. O problema é o piso, que fica traiçoeiro em pedra molhada, e a visibilidade nas zonas mais altas, onde a neblina pode reduzir tudo a uns poucos metros. Se é a primeira vez que faz este trilho, deixe para um dia de céu mais aberto. Vale mais a pena chegar lá com sol a espreitar por entre as árvores do que a arriscar um tornozelo torcido a meio da Laurissilva.

O mesmo se aplica, ainda mais, a quem pensa atravessar a ilha até ao Funchal para caminhar. O nosso guia sobre as levadas do Funchal é boa leitura justamente para os dias de chuva: fica para planear em casa, com um café ao lado, e para executar depois, quando o tempo virar.

Se a chuva não parar, fuja para sul

Há dias em que o norte simplesmente não quer saber. Nesses dias, a solução mais honesta é apanhar o carro e atravessar para o outro lado da ilha, onde a mesma serra que segura a chuva no norte costuma segurar o sol no sul. Câmara de Lobos fica a cerca de quarenta minutos, e o nosso guia sobre onde comer sardinha assada a sério em Câmara de Lobos é leitura obrigatória antes de sair de casa. É a vila de pescadores onde Winston Churchill pintava, e a sardinha assada ali não tem nada a ver com a versão turística que se encontra à beira-estrada em qualquer sítio.

Se a viagem calhar em junho, vale a pena espreitar também o guia Funchal em Junho: Atum, Levadas e Noites de Festival, que dá uma boa ideia do que esperar do lado sul nessa altura do ano, com festivais de rua e noites que compensam qualquer manhã perdida à chuva no norte.

Quando a chuva vira festa

Há uma exceção a tudo isto, e é o Arraial dos Lameiros. Uma vez por ano, em agosto, São Vicente organiza aquilo que localmente se chama a festa do norte, com arraial, música e comida de rua que enche a vila de gente vinda de todo o lado. O nosso guia sobre o Arraial dos Lameiros em São Vicente explica o que esperar, e a verdade é que, mesmo que chova, ninguém cancela um arraial no norte da Madeira por causa de água. Leva-se guarda-chuva, não se cancela a festa.

Como chegar e quanto gastar

São Vicente fica a cerca de 45 minutos de carro do Funchal pela via rápida, atravessando o túnel do Cabeço, ou por estrada mais lenta e mais bonita se o tempo permitir, pela ER101, com vistas sobre o mar antes de a chuva as tapar completamente. Não há grande alternativa de transporte público prática para um dia de passeio flexível: carro alugado ou táxi são a opção real. Para um dia inteiro em modo chuva, contando entrada nas grutas, café e um pão numa das padarias, e talvez um almoço leve no complexo balnear, ronda os 20 a 30 euros por pessoa, sem contar combustível. Não é um dia caro, é só um dia diferente do que se planeava.

A verdade sobre São Vicente é que a vila nunca foi pensada só para dias de sol. As grutas existem porque a ilha nasceu de lava, as padarias existem porque as pessoas vivem ali o ano inteiro, chova ou não, e o complexo balnear ganha outro carácter precisamente quando o mar está bravo. Vir aqui num dia de chuva não é o plano B. É, muitas vezes, a versão mais honesta da vila.

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