Fundão em Setembro: Sem Marisco, Mas Com Praias e Truta
Fundão fica a mais de 150 quilómetros do mar, por isso esqueça o marisco fresco em Setembro. Em troca, há truta de rio pescada na Serra da Estrela, uma barragem dourada ao pôr do sol e tabernas onde o queijo Amarelo aparece sem pedir. É essa a troca que vale a pena fazer este mês.
Vamos ser directos: se chegou aqui à procura de um roteiro de marisco fresco pela costa portuguesa, safras de amêijoa, gambas grelhadas numa esplanada com vista para o Atlântico, está no sítio errado. Fundão fica a mais de 150 quilómetros do mar mais próximo, encostado à vertente sul da Serra da Estrela, e o único marisco que vai encontrar por aqui está congelado num expositor de supermercado, ao lado do peixe panado. Mas antes de fechar esta página e voltar à pesquisa por "melhores marisqueiras no Algarve", ouça-me um segundo: Setembro no Fundão tem outra coisa para oferecer, e depois de tempo por cá, arrisco dizer que é mais interessante do que mais um prato de amêijoas à Bulhão Pato numa esplanada cheia de turistas.
Esta é a altura do ano em que a região respira um pouco depois do calor de Agosto. As noites já arrefecem, os pomares mudam de fruta e a cidade, que durante o Verão vive obcecada com a cereja, começa a olhar para outras coisas. Se está disposto a trocar a ideia de "costa portuguesa" por "interior beirão", continue a ler.
O que a serra dá em Setembro
A cereja já se foi. A colheita fecha normalmente em Junho, e por Setembro os cerejais à volta do Fundão estão verdes, quietos, a preparar-se para o próximo ciclo. Mas Setembro tem o seu próprio calendário: é o mês em que a maçã da Beira Interior começa a encher os pomares, quando as primeiras castanhas caem semanas antes da apanha grande de Outubro, e quando o queijo Amarelo da Beira Baixa, curado e de sabor intenso, aparece nas mesas das tabernas locais acompanhado de broa de milho. Não é marisco, mas é comida que faz sentido no sítio onde está, produzida a poucos quilómetros de onde a vai comer.
A truta que substitui a amêijoa
Se há um prato que aqui faz as vezes do marisco, é a truta de rio. Pescada em águas frias que descem da Serra da Estrela, aparece grelhada com toucinho em quase todas as casas de pasto da região, um clássico transmontano e beirão que qualquer tasqueiro sabe fazer de olhos fechados. Peça-a simples, com batata cozida, broa e um fio de azeite, talvez acompanhada de um copo de tinto da região da Beira Interior. Custa uma fracção do que pagaria por uma dose de percebes em Peniche ou por uma cataplana em Vila Real de Santo António, e sabe exactamente a onde está: água fria de montanha, não sal do Atlântico.
Vale também a pena procurar os enchidos de porco preto e o presunto curado que aparecem em qualquer mercado ou tasca de aldeia à volta do Fundão. São produtos de matança tradicional, curados lentamente, e combinam bem com o mesmo vinho tinto que já pediu para acompanhar a truta. Não espere menus sofisticados: espere mesas de madeira, pão que ainda está quente e donos de casa que preferem falar-lhe do último ano de vindima do que recitar uma carta de vinhos.
Onde beber um copo depois do jantar
Depois de jantar, esqueça as esplanadas turísticas do centro histórico e vá direito ao Zona L Bar. Não é sofisticado, não tenta ser: é despretensioso, com boa música e um ambiente que atrai tanto gente da terra como viajantes de passagem que descobriram o Fundão por acaso. Vá depois das 22h, quando o bar começa a encher e a noite ganha ritmo próprio. É o tipo de sítio onde acaba a conversar com um casal local sobre a próxima apanha da castanha sem ter planeado isso.
Onde dormir se decidir ficar mais do que uma noite
Se a ideia de trocar a costa pela serra o convenceu, há opções para todos os orçamentos. A Rustic House Fundão aposta na estética de pedra e madeira, boa para quem quer sentir mesmo que está na montanha e não numa cidade qualquer do interior. Os Gardunha Apartments são a escolha mais prática para quem prefere autonomia, com cozinha própria incluída, ideais se pensa cozinhar a truta ou os enchidos que comprou no mercado. E para quem viaja com orçamento apertado ou sozinho, a Casas da Mina Hostel oferece camas simples e um ambiente sociável, o tipo de sítio onde se conhece outros viajantes que também perceberam, tarde de mais ou a tempo, que o Fundão não é só uma paragem de passagem a caminho da serra.
A "praia" que o Fundão tem para oferecer
Aqui está a ironia de todo este artigo: o Fundão não tem costa, mas tem água, e em Setembro ainda dá para aproveitar. O guia Fundão em Agosto: As Praias que o Algarve Não Tem mapeia as praias fluviais da região, e mesmo depois do pico de Verão, com as águas ainda mornas nas primeiras semanas de Setembro e as praias muito mais vazias do que em Agosto, vale a pena o desvio. A Barragem da Marateca é a mais conhecida da zona, com água calma e vistas para os montes à volta, sem nada que lembre uma marina algarvia.
Se preferir ver o pôr do sol sobre a água em vez de mergulhar nela, a experiência Sailing Sunset no Fundão: Ouro na Barragem da Marateca troca o marisco por outro tipo de dourado: o da luz sobre a albufeira ao fim da tarde, quando o calor do dia já passou e a água fica cor de cobre. Não é o Atlântico ao pôr do sol em Sagres, mas tem o seu próprio charme, e sem as filas de carros à procura de estacionamento.
Se mesmo assim insiste na costa
Percebo a teimosia. Se em Setembro só pensa em marisco fresco, a verdade é que o mais próximo fica a cerca de duas horas e meia de carro, algures entre a Figueira da Foz e Peniche, dependendo da direcção que escolher. Vá lá antes, se quiser, mas volte depois para a serra: a combinação de umas amêijoas na costa seguidas de uma noite fresca no Fundão, com truta no dia seguinte, é provavelmente a melhor forma de aproveitar Setembro em Portugal sem escolher entre montanha e mar. Poucas regiões do país permitem esta troca em menos de três horas de estrada.
Dias sem pressa: comboio, museus e aldeias de xisto
Setembro é também um bom mês para explorar a região com calma, antes que o frio da serra se instale a sério a partir de Outubro. Quem gosta de viajar de comboio pode seguir o roteiro Belmonte de Comboio: 48 Horas Sem Carro, que aproveita a linha da Beira Baixa para chegar a Belmonte sem depender de automóvel e passa por paisagens de montanha que já valem a viagem sozinhas. Belmonte, com a sua judiaria e história de comunidade judaica que se manteve escondida durante séculos, é o tipo de paragem que muda a percepção de quem pensa que esta região é só serra e castanha.
Para quem prefere a estrada, o roteiro Da Covilhã às Aldeias de Xisto: Roteiro de Um Dia é a melhor forma de perceber porque é que esta região está a ganhar fama entre quem já se fartou do litoral cheio em Agosto. As aldeias de xisto, com casas de pedra escura empilhadas em encostas íngremes, ficam a uma distância curta do Fundão e são o tipo de sítio onde se anda devagar, não porque tenha de ser, mas porque as ruas estreitas não deixam outra opção.
E se o tempo virar, o que acontece com alguma frequência na serra mesmo em Setembro, há sempre a opção cultural: a experiência Maratona de Museus no Fundão: Cultura Além das Cerejas mostra que a cidade tem mais para oferecer do que pomares e feiras de fruta, com espaços dedicados a arte que surpreendem quem só vinha de passagem a caminho da serra.
Caminhadas antes do frio chegar
Setembro é também o último mês do ano em que caminhar pelas encostas da Serra da Estrela perto do Fundão é confortável sem preparação especial: dias ainda quentes, noites já frescas, e as trilhas menos cheias do que em Agosto. Não é preciso equipamento de montanha para explorar os caminhos rurais à volta da cidade, só água, um chapéu e vontade de andar devagar entre socalcos de oliveira e pomares que, por esta altura, já perderam a fruta de Verão e ainda esperam pela castanha.
Como chegar e quanto gastar
O Fundão está ligado por comboio à linha da Beira Baixa, com ligações a partir da Covilhã e do Entroncamento, e por estrada fica a cerca de duas horas e meia de Lisboa pelo IC8 e A23. Uma refeição completa numa tasca da região, com truta ou enchidos de porco preto, dificilmente ultrapassa os 15 a 20 euros por pessoa, sem contar bebidas, o que já é mais barato do que a maioria das marisqueiras costeiras nesta altura do ano. Uma noite num dos alojamentos mencionados acima varia consoante a época e a antecedência da reserva, mas em Setembro, já fora do pico de Verão, costuma sair mais em conta do que em Julho ou Agosto.
Portanto não, não vai encontrar marisco fresco no Fundão em Setembro, e qualquer artigo que lhe prometa isso está a mentir. Mas se trocar a expectativa por curiosidade, vai encontrar truta de rio pescada a poucos quilómetros da mesa, uma barragem dourada ao pôr do sol sem multidões, aldeias de xisto silenciosas e uma cidade que só recentemente começou a perceber o que tem para além da cereja. É uma troca justa.