Almada: Como Fazer a Cidade Sem Gastar Uma Fortuna
Do outro lado do Tejo, um copo de vinho ainda custa três euros e a vista sobre Lisboa é gratuita. Um roteiro por Almada para quem quer ver tudo sem pagar preços de capital.
Toda a gente que visita Lisboa devia atravessar o rio pelo menos uma vez, nem que seja só para perceber que a vista mais bonita da cidade não se vê de dentro dela. Fica em Almada, do lado de cá do Tejo, e custa o preço de um bilhete de cacilheiro, qualquer coisa entre 1,50€ e 2€. Enquanto Lisboa cobra cada vez mais caro por um brunch com vista, Almada continua a ser o sítio onde ainda se paga o preço real das coisas: um copo de vinho a três euros, uma dose de peixe grelhado que dá para duas pessoas, um pôr do sol de cortar a respiração que não custa absolutamente nada.
A travessia que já é o passeio
Comece em Cais do Sodré. O cacilheiro para Cacilhas sai a cada 15 a 20 minutos em hora de ponta, demora cerca de dez minutos e dá exatamente a mesma vista panorâmica sobre o Terreiro do Paço e o Castelo que os cruzeiros turísticos cobram trinta euros para mostrar, só que ao contrário e sem microfone a explicar nada. Fique no convés, mesmo que esteja vento, mesmo que o barco esteja cheio de gente a voltar do trabalho. É ali, a meio do rio, que se percebe porque é que Almada nunca precisou de se vender como destino: já tem a melhor vista de Lisboa incluída no preço do bilhete, e ninguém do outro lado parece ter reparado nisso ainda.
Cacilhas: bairro de estaleiros antes de ser bonito
Cacilhas foi durante décadas o bairro dos estaleiros navais e das marisqueiras baratas onde os operários comiam ao almoço, e isso ainda se sente nas ruas atrás do terminal fluvial, onde há mais tascas com toalhas de papel do que restaurantes com cartas plastificadas. É aqui que fica o Restaurante Ponto Final, que já não é propriamente segredo, as mesas dentro de água mesmo à beira do rio garantem isso há anos, mas continua a ser justo no preço para o que dá: peixe grelhado, arroz de marisco, uma esplanada que parece flutuar sobre o Tejo. Vá cedo, antes das 19h, para apanhar mesa sem esperar horas e ainda ver o sol a cair atrás da Ponte 25 de Abril enquanto janta. Não é o restaurante mais barato de Cacilhas, mas é o que dá mais pelo dinheiro: ali está a pagar a vista, não só o prato, e em Lisboa essa mesma vista custaria o dobro num rooftop qualquer.
Para refeições realmente baratas, ande dez minutos rio acima até às ruas por trás do mercado municipal de Cacilhas, onde ainda sobrevivem tascas sem menu traduzido e pratos do dia a preços que já desapareceram do outro lado do rio. Não vou dar nomes que não conheço bem o suficiente para garantir a qualidade, mas a regra funciona sempre: se a esplanada tem toalhas de papel presas com clipes de metal e a ementa está escrita à mão numa ardósia, está no sítio certo. Peça o peixe do dia, nunca o prato mais caro do menu.
As vistas que não custam nada
Toda a gente sobe ao Cristo Rei e paga o elevador até ao miradouro no topo do pedestal. Faça diferente: veja o monumento de baixo, a partir do Jardim do Cristo Rei, que é gratuito, e depois caminhe até ao Elevador Panorâmico da Boca do Vento, que liga Cacilhas ao centro histórico de Almada e é completamente grátis, aberto das 9h30 às 23h30. É um elevador municipal, pensado para os moradores subirem a encosta sem sufoco, não para turistas, e essa é exactamente a piada: está a usar infraestrutura de bairro para ver Lisboa inteira, do Parque das Nações até Belém, sem pagar bilhete de miradouro nenhum.
Almada Velha, o casario antigo à volta da Sé, vale a caminhada por si só depois de sair do elevador: ruas estreitas, azulejo desgastado pelo tempo, quase nenhum turista a atravancar o passeio. É o contraste mais útil que a cidade oferece: dez minutos de elevador separam o Cristo Rei cheio de autocarros de excursão do bairro mais sossegado de toda a margem sul.
Noite: cerveja irlandesa, vinho e cocktails sem arruinar o orçamento
Almada tem uma cena de bares que ainda não descobriu que podia cobrar preços de Lisboa, e é bom que continue assim durante mais uns anos. O The Corkman Irish Pub é o clássico pub irlandês com Guinness bem tirada e futebol em ecrã grande, o tipo de sítio onde uma noite inteira sai pelo preço de duas cervejas num rooftop no Cais do Sodré. Se preferir vinho a copo sem pretensão nenhuma, o Carmen Wine Bar tem carta bem escolhida e ambiente de bairro, nada do teatro de alguns wine bars lisboetas onde se paga mais pela decoração do que pelo vinho no copo. E para fechar a noite com um cocktail feito a sério em vez de um genérico com muito gelo, o Ophelia Cocktail Bar prova que não é preciso atravessar o rio de volta para beber bem: cartas criativas, staff que sabe do que fala, sem a fila nem o dress code implícito de certos bares na Bica ou no Príncipe Real.
A lógica funciona sempre da mesma maneira: peça a especialidade da casa em vez do cocktail mais caro da carta, chegue antes das 22h para evitar reservas cheias, e aceite que em Almada ainda é normal pagar por um copo o que em Lisboa já só compra meio copo do mesmo líquido.
Praia sem pagar guarda-sol de vinte euros
A Costa da Caparica fica a cerca de vinte minutos de autocarro do centro de Almada e continua a ter areal suficiente para nunca precisar de reservar espreguiçadeira com antecedência. O transpraia, o comboiozinho que corre ao longo das dunas servindo várias praias diferentes, custa uma fração do que se paga num apoio de praia em qualquer sítio badalado do Algarve, e leva-o a areais quase vazios fora do mês de agosto. Leve toalha, leve água, e a única despesa real do dia acaba por ser o bilhete de autocarro de ida.
Se em algum momento do fim de semana quiser esticar o orçamento por uma tarde, há quem venha a Almada precisamente para isso: um dia de spa na Costa da Caparica é o tipo de extravagância que ainda sai mais barata aqui do que um tratamento equivalente em qualquer hotel de cinco estrelas do outro lado do rio. Não é essencial ao roteiro, mas se o orçamento aguentar uma exceção, é aqui que a compensa gastar.
Como pensar o dinheiro nestes dois dias
Um fim de semana em Almada, feito com cabeça, fica a rondar o seguinte: bilhetes de cacilheiro e transportes locais, uma refeição de mesa posta no Ponto Final, duas ou três refeições em tascas de bairro, algumas bebidas nos bares de Cacilhas e do centro, e o bilhete do transpraia para a praia. Sem contar alojamento, isto fica muito abaixo do que se gasta num fim de semana equivalente do lado de lá do rio, e não está a abdicar de nada relevante: a vista é a mesma, o peixe é do mesmo rio, o pôr do sol cai atrás da mesma ponte.
Quem vem de Lisboa e já percorreu os roteiros mais óbvios da capital, vale a pena ler primeiro sobre a cultura local de Lisboa e os seus bairros antes de atravessar o rio, só para perceber melhor o contraste: Almada não tenta imitar a capital, vive praticamente de costas voltadas para ela, e é exatamente por isso que continua barata.
O essencial
- Vá de cacilheiro, não de carro: mais barato, mais rápido em hora de ponta, e a vista compensa qualquer desconforto de pé no convés.
- Reserve o orçamento de restaurante para o Ponto Final e coma em tascas de bairro no resto dos dias.
- Suba pelo Elevador Panorâmico da Boca do Vento antes de sequer pensar em pagar o elevador do Cristo Rei.
- Beba nos bares de Cacilhas e do centro de Almada, onde os preços ainda fazem sentido.
- Use o transpraia para chegar a praias vazias na Costa da Caparica sem pagar apoio de praia caro.
Almada não é a versão pobre de Lisboa. É a versão da margem sul que ainda não decidiu cobrar pelo que sempre deu de graça: espaço, silêncio relativo às sete da manhã junto ao rio, e uma vista sobre o Tejo que, do outro lado, já custa o preço de uma entrada de museu.