Almada ao Cair da Noite: Rota de Vinho e Petiscos
Um serão em Almada faz-se em quatro paragens: cerveja despretensiosa, vinho a sério, coquetel elegante e peixe grelhado com Lisboa a ficar cor de laranja do outro lado do rio. Tudo a uma curta distância a pé, sem pagar preços de Lisboa.
Almada não pede desculpa por não ser Lisboa. Do lado de lá do rio, com o Cristo Rei a apontar para a capital como quem diz "vejam bem o que estão a perder", a cidade tem o seu próprio ritmo de fim de tarde: gente a sair do trabalho, o cais a encher aos poucos, e uma oferta de bares e tascas que não precisa de turista nenhum para funcionar. Este é um roteiro para quem quer beber bem, comer melhor, e fazer tudo isso sem atravessar a ponte.
A ideia é simples: começar cedo, beber devagar, comer aos poucos. Nada de sentar-se num sítio só e ficar por ali. A noite em Almada faz-se em três ou quatro paragens, a pé ou de eléctrico, com o rio sempre a espreitar entre os prédios.
Primeira paragem: cerveja a sério
Comece pelo The Corkman Irish Pub. Sei que um pub irlandês pode parecer estranho num roteiro de vinho português, mas ouçam-me: é o sítio certo para a primeira bebida, aquela que se toma ainda de dia, sentado numa esplanada, a ver o movimento antes de a noite engrenar a sério. A carta de cervejas é séria, o ambiente é descontraído sem ser postiço, e ninguém olha torto se pedir só uma pint e ficar por ali quarenta minutos a decidir o resto da noite. É o aquecimento, não o prato principal.
Se calhar num dia de jogo, o Corkman enche e o volume sobe. Não é o fim do mundo, mas se procura conversa tranquila, vá num dia de semana normal.
Segunda paragem: vinho como deve ser
Daqui, é caminhada curta até ao Carmen Wine Bar, e é aqui que o roteiro ganha propósito. Um wine bar a sério, com garrafeira que vai muito para lá do Douro e do Alentejo óbvios, e gente por trás do balcão que sabe do que fala e não tenta empurrar o vinho mais caro só porque sim. Peça um branco de Bucelas se estiver na carta, ou arrisque um tinto de vinha velha da Bairrada. É o tipo de sítio onde vale a pena perguntar "o que é que recomenda hoje" e confiar na resposta.
O Carmen funciona por copo, o que é ótimo para quem quer provar dois ou três vinhos diferentes sem comprometer-se com a garrafa toda. Petiscos ligeiros acompanham: queijo, enchidos, o básico bem feito. Não é jantar, é o intervalo entre a cerveja do Corkman e o que vem a seguir.
Uma nota sobre ritmo
Almada não é grande, mas também não é para percorrer a correr. Entre o Corkman e o Carmen são uns dez minutos a pé, dependendo de onde exatamente estiverem localizados dentro da cidade, tempo suficiente para o vinho assentar e o apetite aparecer.
Terceira paragem: cocktails com vista para o rio
Para variar o registo, o Ophelia Cocktail Bar é a escolha óbvia. Isto já não é sobre vinho, é sobre coquetelaria feita a sério, com bartenders que gostam claramente do que fazem. Um bom sítio para uma pausa entre o vinho e a comida a sério que vem a seguir, ou para fechar a noite se preferirem terminar em grande em vez de ir dormir cedo. O ambiente é mais elegante que os anteriores, o tipo de sítio onde se pede um Negroni e se fica a ver o resto de Almada passar lá fora.
Não é barato, mas também não é Lisboa-caro. E a vista, dependendo da mesa, ainda apanha uma fatia do rio.
O prato principal: Ponto Final
Guardei o melhor para o fim, literalmente, porque é para aqui que a noite converge: o Restaurante Ponto Final. Se conhecem a zona, sabem que não estou a dizer nada de novo: este é um dos sítios mais fotografados da margem sul, com mesas praticamente dentro de água na Cacilhas antiga, e Lisboa do outro lado a ficar cor de laranja ao pôr do sol. É o tipo de imagem que parece fabricada para postal, só que é real e está ali todos os dias.
Mas a razão para ir não é só a vista. É peixe grelhado feito como deve ser, simples, sem artifícios, e a sensação de estar a comer num sítio que existe há décadas por boas razões. Reservem com antecedência, sobretudo em fim de semana e no verão: isto não é segredo de ninguém, e as mesas à beira-água esgotam. Se chegarem sem reserva num sábado à noite, preparem-se para esperar ou aceitar mesa mais atrás.
O truque para quem faz este roteiro: deixem o Ponto Final para o fim da tarde, ainda com luz, e não para tarde de noite. A vista é a razão de estarem ali, e a vista precisa de luz para funcionar. Depois do jantar, se ainda houver energia, o Ophelia fica a uma curta distância para fechar a noite com um copo.
Como chegar e quanto gastar
Almada faz-se facilmente a partir de Lisboa: o cacilheiro (o ferry entre Cais do Sodré e Cacilhas) é a forma mais bonita de chegar, e custa uma fração do que custaria um Uber pela ponte. A travessia demora cerca de dez minutos e já vale a viagem só pela vista do Cristo Rei a aproximar-se.
- Cacilheiro Cais do Sodré – Cacilhas: bilhete económico, viagem de cerca de 10 minutos
- Cerveja no Corkman: preço de pub normal, nada de choque
- Copo de vinho no Carmen: varia consoante a garrafa, mas há sempre opções acessíveis por copo
- Cocktail no Ophelia: preço de coquetelaria de autor, mais alto que os anteriores
- Jantar no Ponto Final: reserve com antecedência, sobretudo aos fins de semana
Um serão inteiro, das quatro paragens, fica longe do que gastariam numa noite equivalente em Lisboa, e ainda levam a vista de fábrica: Lisboa do outro lado do rio, ao pôr do sol, sem pagar bilhete de mirante nenhum.
Para quem quer esticar a visita
Se este roteiro de uma noite vos souber a pouco, Almada e a Costa da Caparica dão para muito mais do que petiscos. Há quem venha só para relaxar num dia de spa na Costa da Caparica, a poucos minutos daqui, antes de regressar para a rota de bares ao final da tarde. E se o interesse for perceber melhor a cultura da região, vale a pena ler sobre tradições e bairros de Lisboa, que ajudam a situar Almada no contexto mais lato da área metropolitana.
O que faz este roteiro funcionar não é nenhum dos sítios isoladamente, é a sequência: cerveja despretensiosa, vinho a sério, coquetel elegante, peixe grelhado com vista. Quatro registos diferentes, quatro ambientes diferentes, tudo a uma curta distância a pé uns dos outros. Almada não tenta ser Lisboa em miniatura, e é exatamente por isso que funciona.