Almada: as Praias da Costa da Caparica Sem Multidões
Toda a gente conhece a Praia de São João lotada em agosto, mas a Costa da Caparica tem treze quilómetros de areal e um comboiozinho que leva quem sabe até às praias vazias de Fonte da Telha. Depois é jantar com os pés na água em Cacilhas e copos em Almada Velha.
A praia que toda a gente já viu no Instagram
Sábado de agosto, dez da manhã, Praia de São João da Caparica: já não há onde estender a toalha sem tocar na do vizinho. As barracas de apoio de praia estão com fila para o café, os miúdos gritam entre as pranchas de bodyboard alugadas e alguém, invariavelmente, está a tentar estacionar em segunda fila na Avenida 1º de Maio como se isso fosse resolver alguma coisa. Esta é a Costa da Caparica que a maioria dos lisboetas conhece: a que se vê da margem sul, a vinte minutos de ferry, e por isso mesmo é a primeira a encher. Não há nada de errado com ela, a areia é boa e o mar é mar, mas se o objetivo é relaxar e não sobreviver a uma praia lotada, há formas mais inteligentes de fazer isto.
O erro mais comum de quem vem de Lisboa é ficar pelos primeiros quinhentos metros de areal. É compreensível: é onde o autocarro larga toda a gente, é onde ficam os restaurantes de peixe grelhado com esplanada virada para o mar, é onde está tudo. Mas a Costa da Caparica tem quase treze quilómetros de praia contínua, e quanto mais para sul se vai, mais a multidão se dilui. O truque não é chegar mais cedo, embora isso também ajude. O truque é ir mais longe.
O comboiozinho que resolve o problema
Entre junho e setembro corre ao longo da duna o Transpraia, um comboio miniatura sobre carris que liga o centro da Costa da Caparica a Fonte da Telha, parando em praias numeradas ao longo do caminho: praia 9, praia 14, praia 17, praia 19. Não é um segredo bem guardado, os surfistas usam-no há décadas, mas continua a ser ignorado pela maioria dos turistas que se instala nos primeiros metros de areia e nunca mais sai dali. Andar de ponta a ponta demora cerca de vinte minutos, atravessa a Mata dos Medos, um pinhal sobre dunas que por si só já vale a viagem, e cada paragem sucessiva tem sensivelmente menos gente do que a anterior.
Fonte da Telha, o fim da linha
Fonte da Telha é a última paragem e a recompensa de quem tem paciência. Continua a ser uma praia com restaurantes e alguma vida, não é um sítio deserto nem isolado, mas o ambiente é de povoação piscatória que aceitou o turismo em vez de ter sido reconstruída para ele. Ao final da tarde, com a maré a descer, a faixa de areia que fica exposta é enorme e a proporção de pessoas por metro quadrado não tem nada a ver com o que se vê junto ao centro da Costa. Para quem gosta de caminhar, dá para continuar a pé para sul até praias praticamente vazias fora de época alta, mas aí já é preciso levar água e protetor solar próprio, porque o apoio de praia acaba.
A alternativa para quem detesta areia a mais
Nem toda a gente quer passar o dia a tirar areia do biquíni. Se o plano é fugir ao sol de meio-dia sem abdicar da zona, vale a pena considerar um dia de spa: há uma experiência de spa na Costa da Caparica pensada exatamente para isto, com vista sobre o oceano e sem fila para a toalha. É uma boa opção para o dia seguinte a uma queimadura solar mal calculada, coisa que acontece a mais gente do que gostaria de admitir nesta costa exposta a oeste.
Depois da praia: Cacilhas e o rio
Quando o sol começa a baixar, a lógica muda. Em vez de voltar diretamente para Lisboa, vale a pena descer até Cacilhas, o cais onde os ferries atracam e onde Almada mostra outra cara, mais de rio do que de mar. É aqui que fica o Restaurante Ponto Final, e vale explicar porquê: as mesas ficam literalmente dentro de água, no antigo cais do Ginjal, com Lisboa inteira em frente, do outro lado do Tejo, a apanhar a luz da tarde. Não é segredo, quem vive na zona sabe que aos fins de semana convém chegar cedo ou reservar, mas a maioria dos turistas que passa o dia na praia nem sabe que isto existe a poucos minutos dali. Vá pelo peixe grelhado e pela vista, fique pelo pôr do sol, e perceba porque é que os lisboetas atravessam o rio de propósito para jantar aqui.
Como chegar a Cacilhas sem stress
- Ferry de Cais do Sodré até Cacilhas: cerca de dez minutos de travessia, sai a cada quinze ou vinte minutos em hora de ponta, e o bilhete anda pelos 2 euros com cartão Navegante ou Viva Viagem.
- De Cacilhas até à Costa da Caparica: autocarro direto, uns vinte minutos, ou de táxi/Uber se forem em grupo, o que costuma sair mais barato do que parece por pessoa.
- Quem vem de carro pela ponte 25 de Abril evita transbordos mas apanha trânsito sério ao fim da tarde, sobretudo nos regressos de domingo.
A noite fica em Almada Velha
Cacilhas é o cais, mas Almada Velha, mais acima na colina, é onde a noite acontece de facto, longe da azáfama de praia. É uma zona pequena, andável, com uma concentração de bares que rivaliza com qualquer coisa em Lisboa e sem a pressão de encontrar mesa às pressas. Comece devagar num copo de vinho na Carmen Wine Bar, que leva a coisa do vinho a sério sem ser pretensiosa sobre isso. Se preferir cerveja e ambiente descontraído, sem-cerimónias, o The Corkman Irish Pub tem o género de atmosfera onde ninguém repara se chegou de chinelos e areia ainda colada nos pés. E para fechar a noite com um cocktail bem feito, a Ophelia Cocktail Bar é a aposta certa, com uma carta que não se limita ao óbvio. Nenhum destes sítios está a tentar ser Lisboa do outro lado do rio: têm identidade própria, preços mais amigos e a vantagem de se conseguir ainda ouvir a pessoa à frente sem gritar.
Quando ir, e quando definitivamente não ir
Julho e agosto ao fim de semana são para evitar, seja qual for a praia escolhida, a não ser que se chegue antes das nove da manhã. Setembro é provavelmente o melhor mês: a água já aqueceu ao longo do verão, o calor é mais suportável, e as escolas já recomeçaram, o que tira de cena uma boa fatia da multidão familiar. Junho, antes das férias grandes, também funciona bem e tem a vantagem de o Transpraia já estar a operar. Fora dessa janela, entre outubro e maio, a Costa da Caparica muda de personalidade por completo: fica com o ambiente que atrai os surfistas o ano inteiro, ondas maiores, vento mais forte, e praticamente ninguém na areia fora dos que ali estão para surfar a sério.
O resumo prático
Se só há tempo para um dia, a fórmula que funciona é: manhã cedo na praia mais próxima do centro antes de encher, meio da tarde a apanhar o Transpraia para sul até uma das praias numeradas ou até Fonte da Telha, final de tarde em Cacilhas para jantar de peixe com vista para Lisboa, e noite em Almada Velha a fechar copos. É um dia inteiro, exige alguma logística de transportes, mas evita por completo a experiência de praia lotada que faz tanta gente desistir da Costa da Caparica ao fim de uma visita só. A praia mais bonita, no fim de contas, raramente é a mais próxima da paragem de autocarro.