Almada de Noite: O Ferry, os Copos e a Vista
Guia

Almada de Noite: O Ferry, os Copos e a Vista

· · Almada

O cacilheiro demora dez minutos, custa pouco mais de um euro e leva a uma Almada que não tenta imitar Lisboa. Jantar à beira-rio no Ponto Final, um copo de vinho sério no Carmen, cerveja irlandesa no Corkman e cocktails bem feitos no Ophelia, tudo antes do último ferry.

Há uma hora em Lisboa em que as esplanadas do Cais do Sodré enchem de gente a decidir onde vai beber o próximo copo, sem nunca pensar em atravessar o rio. Erro. O cacilheiro sai a cada quinze, vinte minutos, a travessia demora uns dez minutos e custa pouco mais de um euro. Do outro lado, Almada não tenta imitar o Bairro Alto. Tem o seu próprio ritmo, mais lento a começar e mais teimoso a acabar, e quem conhece a rotina sabe que a noite ali vale a viagem só pela vista que se ganha de graça em cada travessia: Lisboa a apagar-se atrás de si, o Cristo Rei a acender-se à frente.

O jantar que começa tudo: Cacilhas ao pôr do sol

Ninguém devia começar uma noite em Almada sem primeiro passar por Cacilhas com fome. O Restaurante Ponto Final tem as mesas praticamente dentro do rio, os pés da toalha na doca, e é ali que se percebe porque é que os lisboetas atravessam a ponte 25 de Abril ao contrário do óbvio, só para jantar a olhar para a própria cidade. Não é o sítio para pressa: reserve com antecedência, especialmente à sexta e ao sábado, porque as mesas junto à água esgotam primeiro e ninguém quer ficar a comer de costas para o Tejo. A conta não é de saldo, mas também não é de excesso. É o tipo de jantar que se paga de bom grado porque a vista faz parte do prato.

Depois do jantar, a lógica é simples: sobe-se. Cacilhas fica em baixo, junto ao rio; o resto da noite acontece lá em cima, na zona da Almada velha e nas ruas que sobem a partir do terminal fluvial. Quem não quer subir a pé pode apanhar o Elevador Panorâmico da Boca do Vento, que liga as duas cotas em segundos e poupa as pernas para dançar mais tarde.

O circuito dos copos: do pub irlandês ao wine bar

Almada não tem uma "rua da fiesta" no sentido óbvio, tem antes um punhado de sítios que valem a pena conhecer por nome, cada um com a sua clientela e o seu propósito. O The Corkman Irish Pub é o ponto de encontro óbvio para quem quer futebol na televisão, uma Guinness bem tirada e conversa em voz alta com estranhos. É o tipo de pub onde se entra sozinho e se sai com o número de telefone de três pessoas diferentes. As noites de karaoke ou de música ao vivo, quando acontecem, transformam o espaço numa festa de bairro à escala pub irlandês, sem pretensão nenhuma.

Para quem prefere conversa a volume normal e um copo de vinho bem escolhido, o Carmen Wine Bar é a alternativa óbvia. É um espaço pensado para quem gosta de vinho português a sério, não só o tinto genérico da casa, e para quem quer sentar-se, provar, comparar e não ter pressa nenhuma de ir embora. Vá cedo se quiser mesa; é pequeno, é procurado, e isso não é por acaso.

Já quem quer fechar a noite com cocktails bem feitos e menos gente a gritar por cima da música tem no Ophelia Cocktail Bar o sítio certo. É o tipo de bar onde o bartender pergunta o que gosta em vez de empurrar a carta toda, e onde vale a pena confiar na sugestão da casa em vez de pedir sempre o mesmo gin tónico. Chegue depois das dez, quando o espaço já aqueceu mas ainda não está cheio ao ponto de ter de gritar o pedido.

Uma noite possível, sem correr

  • 19h30: jantar no Ponto Final, mesa junto à água, reserva feita com dias de antecedência.
  • 21h30: subida a pé ou de elevador panorâmico até à Almada velha.
  • 22h00: primeira paragem no Carmen Wine Bar, um copo de vinho, conversa calma.
  • 23h00: The Corkman Irish Pub para animação, jogo de futebol ou noite de música ao vivo.
  • 00h30: Ophelia Cocktail Bar para fechar bem, com um cocktail feito por quem sabe o que faz.

O regresso: o outro segredo da noite

O erro mais comum de quem vem de Lisboa para uma noite em Almada é esquecer-se de que o cacilheiro não é eterno. O último ferry sai pouco depois da meia-noite, e quem perde essa hora fica dependente de táxi ou de Uber pela ponte, o que custa bem mais do que o copo que acabou de beber. A alternativa inteligente é simples: quem quer noite longa fica do lado de Almada, num alojamento local, e resolve a travessia de volta na manhã seguinte, com café em vez de pressa. Quem prefere dormir em Lisboa deve simplesmente planear a saída antes da meia-noite, e é por isso que vale a pena começar cedo, com o jantar logo às sete e meia.

Vale ainda dizer que esta travessia noturna não é só logística, é parte da experiência. Ver Lisboa iluminada do meio do rio, de copo já a bordo ou não, é um dos poucos momentos em que a cidade se deixa ver inteira, sem pressa de ninguém a apressar a vista.

O dia seguinte também conta

Depois de uma noite destas, ninguém devia sair de Almada logo de manhã sem primeiro respirar fundo. A poucos minutos dali, na Costa da Caparica, há quem resolva a ressaca com uma manhã de spa em vez de café forte. Se planeia ficar mais um dia, vale mesmo a pena marcar um dia de spa na Costa da Caparica antes de voltar para Lisboa, porque poucas coisas curam melhor uma noite de copos e conversa do que o som do mar em vez do som do trânsito.

Almada não pede desculpa por não ser Lisboa. Tem o rio a separá-la e a aproximá-la ao mesmo tempo, tem um pub irlandês onde ninguém é estranho durante muito tempo, tem um wine bar onde o vinho é levado a sério, e tem uma vista de jantar que faz qualquer fila de espera valer a pena. A diferença entre uma visita normal e uma boa noite em Almada está só em saber por onde começar, e agora já sabe.

noite Bares Cacilhas Almada vida noturna