Amarante: O Museu Que Vale, o Resto É Paisagem
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Amarante: O Museu Que Vale, o Resto É Paisagem

· · Amarante

Amarante tem exatamente um museu que interessa, escondido dentro de um convento dominicano do século XVI ao lado da ponte. O resto do teu tempo aqui vale mais gasto numa esplanada junto ao rio ou em cima de uma bicicleta.

Amarante não é uma cidade de museus. E não faz mal.

Chegas a Amarante pela ponte de São Gonçalo, tiras a fotografia obrigatória do rio Tâmega com as casas de fachada colorida a espreitar por cima da água, e a primeira pergunta que fazes a ti próprio é: e agora, o que se visita aqui? A resposta curta é um museu. A resposta longa é que esse museu chega perfeitamente, e que o resto do tempo se gasta melhor numa esplanada, num barco ou a pedalar ao longo do rio. Isto não é uma cidade que precises de percorrer com um mapa de instituições culturais debaixo do braço. É uma cidade que se visita devagar, com uma paragem séria no sítio certo e o resto entregue ao acaso.

O que vale a pena: o Museu Amadeo de Souza-Cardoso, dentro do Convento de São Gonçalo

Fundado em 1947 por Albano Sardoeira, o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso ocupa parte do antigo Convento de São Gonçalo, mesmo ao lado da igreja e da ponte que deu o nome do santo à cidade. Não é um museu grande e não finge ser. É um museu construído sobretudo à volta de um homem: Amadeo de Souza-Cardoso, nascido em Amarante, morto aos 30 anos em 1918, vítima da gripe pneumónica, depois de ter passado por Paris e cruzado caminho com nomes como Modigliani e Brancusi na vanguarda do início do século XX. O acervo cobre pintura e escultura portuguesa moderna e contemporânea, com um núcleo dedicado à vida e ao trabalho do próprio Amadeo, incluindo peças ligadas à Casa do Ribeiro, onde viveu com a mulher.

Não vais lá passar a tarde inteira, e ainda bem. Conta com uma hora, hora e meia se leres as legendas com atenção. É esse o tamanho certo para uma cidade deste tamanho. O museu funciona de terça a domingo, fechado às segundas e feriados, com horário reduzido no inverno (9h30 às 12h30 e 14h00 às 17h30, até 31 de maio) e alargado no verão (10h00 às 12h30 e 14h00 às 18h00, de junho a setembro). Confirma sempre o horário e o preço da entrada antes de ires, estas coisas mudam sem aviso de uma temporada para a outra.

A razão para não saltares este museu não é o acervo em si, modesto à escala internacional, mas o contexto: estás dentro de um convento dominicano do século XVI, a poucos metros do túmulo de um santo que a cidade inteira ainda trata como vizinho próximo. Isso, mais do que qualquer quadro pendurado na parede, é que torna a visita interessante.

A igreja ao lado não é museu, mas devias tratá-la como se fosse

A Igreja de São Gonçalo, agrupada ao mesmo convento, é Monumento Nacional desde 1910 e levou oitenta anos a construir depois da primeira pedra, lançada em 1543. Está cheia de estilos a discutir entre si (renascença, maneirismo, barroco, remendos do século XIX) e isso nota-se em cada canto: o órgão de tubos, a sacristia com teto em madeira pintada, e sobretudo o túmulo do beato Gonçalo de Amarante, à direita do altar-mor. A tradição local diz para puxares três vezes o cordão à cintura da imagem do santo e pedires três desejos. Vais ver gente séria, de casaco e tudo, a fazer isto sem qualquer vergonha. Faz tu também. É grátis, não exige reserva, e é o tipo de coisa que qualquer guia turístico honesto devia contar como parte da visita cultural, mesmo que oficialmente não seja um museu.

O que podes deixar para depois: o ateliê em Casa do Ribeiro

Existe um segundo espaço ligado a Amadeo de Souza-Cardoso que quase ninguém visita, e por boas razões práticas: o ateliê construído propositadamente para o pintor na Casa do Ribeiro, propriedade do tio Francisco de Souza Cardoso, a cerca de dez minutos do centro histórico. Foi lá que Amadeo se instalou com a mulher a partir de 1915, à procura de mais autonomia para trabalhar, longe do ambiente mais formal da vila. A visita exige marcação prévia através do museu municipal, não tem horário de porta aberta, e sinceramente só compensa se já saíste do Convento de São Gonçalo com vontade de saber mais sobre o homem por trás dos quadros. Se és um visitante de passagem com uma tarde em Amarante, salta esta etapa sem qualquer culpa, o museu principal já te deu o essencial. Se és apaixonado por Amadeo, ou estás a montar um roteiro dedicado à pintura portuguesa do início do século XX, telefona com antecedência e marca a visita, vale bem o esforço extra.

Depois do museu: onde a cidade se prova mesmo

Sais do convento, atravessas a praça em frente à ponte, e a partir daqui Amarante deixa de ser sobre museus e passa a ser sobre mesa. A paragem óbvia, e correta, é a Confeitaria da Ponte, mesmo junto ao rio. Amarante tem uma tradição de doces conventuais com nomes e formas que os próprios amarantinos admitem, a rir, serem um bocado provocadores, o convento dominicano tinha um sentido de humor peculiar em matéria de pastelaria. Pede um café e experimenta os doces locais, não precisas de mais teoria do que essa.

Para o fim da tarde, com o rio ainda visível e a luz a baixar sobre a ponte, o Spark Bar é a escolha certa para um copo com vista, sem cerimónia nenhuma. Para jantar, a recomendação que fazemos sem hesitar é o Pobre Tolo: cozinha portuguesa sem complicações, do tipo que não precisa de museu nenhum ao lado para justificar a viagem.

Como encaixar isto num dia (ou num fim de semana mais lento)

Amarante fica a cerca de uma hora do Porto, e é uma das paragens clássicas de quem sai da cidade à procura de rio e granito. Se estás a construir um roteiro mais amplo pelo norte, vale a pena consultar o nosso guia sobre as melhores viagens de um dia a partir do Porto para perceber onde Amarante encaixa ao lado de outras cidades da região.

Uma manhã em Amarante organiza-se quase sozinha: museu logo de início, quando ainda está fresco e vazio, seguido da igreja ao lado, depois café na ponte. À tarde, troca o património por água. O tour de bicicleta na Ecopista do Tâmega com a Amarante Trilhos segue o antigo traçado ferroviário ao longo do rio e é, sinceramente, a forma mais honesta de perceber a geografia que fez a cidade nascer exatamente ali, entre a água e o granito.

A conclusão simples

Amarante não tenta ser Lisboa nem Porto em matéria de museus, e é melhor assim. Tens um museu bom, dentro de um convento com história a sério, uma igreja ao lado onde toda a gente puxa um cordão a pedir desejos, e um ateliê que só interessa a quem já está apaixonado. O resto do tempo gasta-o na ponte, numa mesa ou em cima de uma bicicleta junto ao rio. É essa a proporção certa para uma cidade do tamanho de Amarante, e é por isso que a lista de museus que vale a pena visitar aqui cabe numa frase, não num roteiro de três dias.

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