Amarante à Noite: Bares, Música e o Rio Tâmega
Amarante não tem clubes nem DJs de fama internacional, mas tem uma ponte iluminada, esplanadas à beira-rio e bares onde ninguém tem pressa de ir embora. Este é o guia honesto de como beber bem numa cidade que ainda não percebeu que devia estar a tentar impressionar alguém.
Ninguém vai a Amarante para dançar até às cinco da manhã. Isso já se sabe. Se procura clubbing pesado, ficha em Lisboa ou no Porto. Mas quem descarta Amarante como cidade morta ao fim do dia está a cometer o mesmo erro de quem pensa que o rio Tâmega só serve para postais. A vida noturna aqui é outra coisa: mais lenta, mais ribeirinha, construída à volta de esplanadas, copos bem servidos e conversas que se estendem porque ninguém tem pressa de ir embora. E, em certas noites de verão, com música ao vivo a sério.
O rio como sala de estar
A ponte de São Gonçalo é o centro gravitacional de qualquer noite em Amarante, e é por causa dela que a cidade tem um dos melhores palcos naturais do Norte. À beira-rio, com a ponte iluminada e o mosteiro como fundo, o Torre Jardim Bar percebeu isto cedo: mesas viradas para a água, cocktails simples e bem feitos, e aquela sensação rara de estar num sítio turístico sem se sentir turista. Vá ao final da tarde, apanhe a luz a mudar sobre o rio, e fique para o primeiro copo. É esse o momento em que Amarante mais se parece com o que promete nos folhetos.
Se preferir a água em vez da margem, há quem passe a tarde antes da noite a remar. A experiência dos barcos de recreio no Tâmega é a forma mais honesta de perceber por que é que os amarantinos tratam o rio como se fosse propriedade privada: chegar de barco a um bar é sempre melhor do que chegar a pé.
Onde beber a sério
Fora da zona ribeirinha, o Spark Bar é a alternativa para quem quer menos vista e mais ambiente de bar de bairro, daqueles onde o empregado já sabe o que vai pedir antes de se sentar. É o tipo de sítio que funciona tanto para uma cerveja rápida às sete como para uma noite mais longa de copos e conversa, sem a pressão de ter de estar bem vestido. Compare os dois: o Torre Jardim Bar joga a carta da vista e do cocktail elaborado; o Spark Bar joga a carta da proximidade e da informalidade. Numa noite de sexta-feira, o ideal é combinar os dois: começar num, acabar no outro.
Sobre música ao vivo propriamente dita, seja realista: Amarante não tem uma agenda de concertos fixa e semanal como uma capital. O que tem são noites pontuais, sobretudo entre maio e setembro, quando bares e esplanadas trazem projetos acústicos, DJs discretos ou grupos locais para animar o fim de semana. Não há garantia de banda tocar em qualquer noite do ano; há garantia de que, se for num sábado de verão, é muito provável encontrar alguma coisa a acontecer entre a ponte e as ruas em redor. Confirme localmente as datas antes de planear a viagem só por causa de um concerto específico.
A festa que ninguém esquece: São Gonçalo
Se há uma altura em que Amarante troca a discrição pela festa a sério, é durante as celebrações de São Gonçalo, normalmente na primeira semana de junho. É a romaria mais conhecida da cidade, com a tradição centenária dos bolos e doces em forma fálica vendidos nas bancas, música popular na rua, e um ambiente de feira que contrasta com a calma do resto do ano. Não é vida noturna de bar, é outra escala completamente diferente: ruas cheias, procissão, arraial. Se calhar viajar nessa altura, prepare-se para uma Amarante muito mais ruidosa do que a que descrevemos aqui.
Comer antes (e depois) de sair
Ninguém devia sair à noite em Amarante de estômago vazio, e a cidade não dá desculpas para isso. O Pobre Tolo é a escolha certa para um jantar demorado antes de seguir para os bares: cozinha portuguesa sem complicações, boas doses, o tipo de refeição que assenta bem antes de uma noite de copos. Vá cedo, entre as 19h30 e as 20h30, se quiser mesa sem espera, porque nos fins de semana de verão enche depressa.
E para o dia seguinte, ou mesmo como remate doce de uma noite que se prolongou, não se vai embora de Amarante sem passar pela Confeitaria da Ponte. Os doces conventuais da região, foguetes e papos de anjo entre eles, são a razão pela qual Amarante tem fama gastronómica muito para lá da sua dimensão. Um café e um doce ali, com vista para a ponte, é o antídoto perfeito para uma ressaca ligeira.
O que fazer antes da noite cair
Uma boa noite começa muitas vezes com um bom dia, e Amarante tem forma de encher as horas de luz sem esforço. Para quem gosta de se mexer, o tour de bicicleta na Ecopista do Tâmega, organizado pela Amarante Trilhos, percorre o antigo traçado da linha ferroviária ao longo do rio, entre paisagem verde e pontes antigas. Chega-se cansado, com fome a sério, e pronto para o jantar no Pobre Tolo e os copos que se seguem. É a combinação perfeita para quem quer um dia ativo antes de uma noite mais parada.
Como chegar e quanto gastar
Amarante fica a cerca de 45 minutos a uma hora de carro do Porto, pela A4, e é um destino fácil de combinar com outras cidades do Norte. Há ligações regulares de autocarro a partir do Porto, mas confirme sempre horários localmente antes de planear a viagem, sobretudo se depender do último regresso da noite. Um copo num dos bares ribeirinhos ronda os 4 a 7 euros; um jantar completo no Pobre Tolo, com vinho, fica normalmente por 15 a 25 euros por pessoa. Não é uma cidade cara, o que só reforça o argumento a favor de uma noite mais longa e mais preguiçosa do que numa capital.
Quem está a fazer um circuito mais alargado pelo Norte pode facilmente juntar Amarante a uma escapadela a Braga, seja para a agenda cultural habitual, descrita neste guia de Braga, seja especificamente para a Semana Santa em Braga, uma das celebrações religiosas mais intensas do país. E se a base for o Porto, vale a pena consultar este guia sobre viagens de um dia a partir do Porto, onde Amarante tem, e bem, o seu lugar.
A verdade sobre a vida noturna de Amarante
Não vá a Amarante à procura de uma noite de Ibiza. Vá porque há algo genuinamente satisfatório em beber um copo com os pés quase na água, ouvir o eco da ponte, e não ter de gritar para conversar com quem está à sua frente. A vida noturna de Amarante não compete, ela apenas existe à sua própria maneira, e talvez seja esse o segredo: numa era em que toda a gente procura a próxima cidade badalada, há um certo luxo em encontrar uma que ainda não percebeu que devia estar a tentar impressionar ninguém.