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Portimão: da Pastelaria ao Café com Vista sobre o Arade

· · Portimão

Em Portimão, uma bica ainda custa o preço de uma moeda esquecida no bolso, mas só se souber onde parar e o que pedir. Dos balcões da baixa ao miradouro sobre o Arade, este é o roteiro de café que separa quem é de cá de quem está só de passagem.

Em Portimão, o dia começa ao balcão. Não há mesa reservada nem menu de pequeno-almoço com fotografias coloridas: há um empregado que já sabe o que vai pedir só de olhar para a cara, e uma bica que ainda custa o preço de uma moeda perdida no fundo do bolso. Esta é uma cidade que cresceu à volta das conservas de sardinha e do peixe fresco descarregado no cais, e esse ritmo de trabalho ainda se sente nas pastelarias antes das nove da manhã. Este não é um artigo sobre esplanadas bonitas para fotografar. É sobre onde beber café a sério em Portimão, sem cair nas armadilhas de preço da faixa turística da Praia da Rocha, e sobre o que pedir em cada sítio para não se denunciar como estrangeiro perdido.

O ritual antes das 9

Quem chega a pensar que "café" significa sempre a mesma bebida está enganado. Aqui, como em todo o país, a palavra é um guarda-chuva que cobre meia dúzia de pedidos diferentes, e escolher o errado denuncia logo quem não é de cá. Nas pastelarias da baixa, entre a Rua do Comércio e o Mercado Municipal, o ritual repete-se todas as manhãs: trabalhadores da construção a caminho da obra, funcionários públicos com o distintivo ainda ao pescoço, reformados com o jornal debaixo do braço, todos de pé, todos com o mesmo gesto de levar a chávena minúscula à boca em três goles e sair.

  • Bica: o expresso puro, servido na chávena pequena. Pede-se quando não se quer perder tempo.
  • Garoto: bica com uma pinguinha de leite, na mesma chávena pequena. O meio-termo de quem gosta de café mas não quer um copo cheio de leite.
  • Galão: café com leite em copo alto, cerca de um terço de café para dois terços de leite. É o pequeno-almoço de quem tem tempo para sentar.
  • Meia de leite: a versão em chávena do galão, mais café, menos cerimónia, mais rápida de beber.
  • Abatanado: o mais próximo de um americano, café diluído em mais água quente. Pouco pedido em Portimão, mas qualquer balcão sabe fazê-lo se perguntar.
  • Bica com cheirinho: a bica clássica com um toque de aguardente ou medronho, ainda pedida por alguns homens mais velhos depois do almoço. Não é para turista experimentar às 9h da manhã, mas ao fim da tarde, numa pastelaria tranquila, é uma boa maneira de perceber como o Algarve bebe café há décadas.

O preço, nas pastelarias tradicionais longe da faixa turística, ronda ainda os 70 cêntimos a um euro por uma bica. Perto da marina ou da Praia da Rocha, prepare-se para pagar o dobro ou o triplo pela mesma chávena, só porque há vista para os barcos de recreio. Vale a pena caminhar dez minutos até à zona do mercado e pagar preço de residente.

O que comer ao lado da chávena

Uma bica sozinha é só metade da história. O Algarve tem uma pastelaria regional que poucos turistas conhecem, ofuscada pelos pastéis de nata genéricos que aparecem em toda a costa portuguesa. Peça um Dom Rodrigo, se encontrar, um doce de gema de ovo, amêndoa e açúcar embrulhado em papel colorido, denso e demasiado doce para comer mais do que um de cada vez. Ou um morgado de figo, feito à base de figo seco e amêndoa, sem farinha, uma receita que vem de outra altura em que se aproveitava o que a terra dava no verão. Nenhum dos dois é fácil de encontrar fora das pastelarias mais tradicionais do centro, mas vale sempre a pena perguntar. Se não houver, fica sempre o pastel de nata, morno, com canela por cima, que em Portimão custa uma fração do que custa em Lisboa e sabe igualmente bem.

Erros que só um turista comete

Pedir um cappuccino às três da tarde não é crime em lado nenhum, mas em Portimão vai render um olhar de lado de quem está a servir. Café com leite é coisa de manhã; a partir do almoço, a maioria dos locais volta para a bica ou o garoto. Sentar-se numa esplanada de rua para beber uma bica de dois euros quando a mesma bica custa oitenta cêntimos ao balcão, dois metros mais atrás, é outro erro clássico: o preço em Portugal muda conforme está sentado ou de pé, e ninguém vai avisar antes de trazer a conta. E deixar dois euros de gorjeta por uma bica de oitenta cêntimos, por mais bem-intencionado que seja o gesto, deixa qualquer empregado de balcão sem saber onde se meter. Arredondar para o euro mais próximo é mais do que suficiente.

Quando o restaurante também sabe fazer café

Portimão não vive só de pastelarias de bairro. Nos últimos anos, uma nova geração de restaurantes trouxe outra ambição à cidade, e isso nota-se também no café que servem depois da refeição, um detalhe que muita gente ignora mas que separa quem só cozinha bem de quem pensa na experiência toda. No Vista, o nome já avisa do que se trata: janelas grandes viradas para o rio Arade, e um espresso final que se bebe devagar precisamente porque a paisagem não tem pressa nenhuma de acabar. Não é o sítio para uma bica rápida ao balcão, é o sítio para prolongar o almoço mais vinte minutos só por causa da vista sobre a água.

No NUMA, a abordagem é mais contida, mais urbana, o tipo de sítio onde se pede um café curto no fim de um jantar cuidado e se sai satisfeito sem sentir que pagou de mais por isso. É café para fechar a conta, não para se demorar. Já no Restaurante F, o café funciona quase como pontuação final de uma refeição que já foi, ela própria, uma declaração de intenções: aqui não se vem só comer, vem-se perceber para onde está a caminhar a cozinha algarvia. Pedir um café depois de uma refeição nestes três sítios é reconhecer que, em Portimão, a boa mesa também aprendeu a acabar bem, e que o café final não é um pormenor esquecido na conta.

Café com vista sobre o Arade

Se há um lugar em Portimão onde vale mais a pena levar o copo de cartão do que ficar sentado ao balcão, é o Miradouro dos Três Castelos. Suba até lá com um café para levar, escolha um banco virado para o rio e para a ponte, e fique ali dez minutos sem telefone na mão. Não é o café que impressiona, é o lugar onde se bebe. Ao fim da tarde, quando a luz baixa sobre o Arade e os barcos de pesca regressam devagar, um simples garoto sabe melhor ali do que em qualquer esplanada decorada da marina, onde se paga a vista duas vezes: uma no preço do café, outra no tempo perdido à espera de mesa.

Café como combustível, não como destino

Café a sério em Portimão não é o fim de uma visita, é o que a torna possível. Serve para aguentar uma manhã de mercado, uma tarde de praia ou uma volta de bicicleta pela costa. Quem quiser perceber isto na prática deveria juntar este roteiro de café a uma experiência como Sabores de Portimão: Uma Jornada Gastronómica no Coração do Algarve, que percorre a cidade a comer e a beber com quem sabe onde parar e porquê. É o tipo de manhã que termina exatamente onde este artigo começou: ao balcão, de bica na mão, a ouvir alguém contar a história de um restaurante ou de uma rua que não vem em nenhum folheto.

Quem preferir gastar a energia primeiro e o café depois pode fazer o percurso inverso: uma pedalada pela costa até à Ria de Alvor e à Fortaleza de Santa Catarina deixa a garganta seca e as pernas cansadas, o tipo exato de fome e sede que só uma bica bem tirada, tomada de pé, resolve. E para quem tiver mais um dia livre, vale a pena seguir para Silves, a vinte minutos de carro, ou até Faro, para perceber como os hábitos de café e mesa mudam, ainda que ligeiramente, de cidade para cidade dentro do mesmo Algarve.

Informação prática

Portimão é uma cidade que se percorre a pé: da estação de comboios ao centro são uns quinze minutos, e do centro ao Miradouro dos Três Castelos outros dez, a maior parte a subir. Não é preciso carro para fazer este roteiro de café, só sapatos confortáveis e vontade de andar. As manhãs de semana, antes das 9h30, são a melhor altura para ver a cidade a funcionar a sério, sem autocarros de turistas a atravancar as pastelarias. Ao fim da tarde, entre as 18h e o pôr do sol, o miradouro enche-se de gente local a passear o cão e a ver o rio, e é aí que um café simples, sem nome bonito nem esplanada decorada, sabe melhor do que em qualquer sítio pensado para turista.

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