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Arcos de Valdevez: o Calendário de Festas Explicado

· · Arcos de Valdevez

Em Arcos de Valdevez há três datas que importam mesmo: os tapetes de flores da Senhora do Castelo, nove dias de festa em honra de Nossa Senhora da Lapa, e a grande romaria da Peneda, com concertinas a tocar até às sete da manhã. Nada disto foi feito a pensar em turistas.

Em Arcos de Valdevez ninguém te vai dizer que há um festival por semana, porque não há. E ainda bem. O que existe é um calendário com três momentos que importam mesmo, cada um com um caráter completamente diferente, e o resto do ano é rio, montanha e a vida normal de uma vila do Alto Minho. Se vieres à procura de uma lista genérica de "eventos imperdíveis", fecha esta página. Se queres saber quando vir, o que vais encontrar e onde comer e dormir enquanto isso acontece, continua a ler.

Junho: os tapetes de flores da Senhora do Castelo

A primeira data séria do ano é a Romaria de Nossa Senhora do Castelo, que sobe ao Monte do Castelo por volta do início de junho. Não é a maior romaria da região, mas é provavelmente a mais bonita de se ver de perto: as ruas por onde passa a procissão ficam cobertas de tapetes feitos de flores e serrim colorido, um trabalho que grupos de vizinhos preparam durante a noite anterior, de joelhos, com moldes e baldes de pétalas. É o tipo de tradição que continua viva não por causa dos turistas, mas apesar deles: ninguém está a decorar a rua a pensar em fotografias, está a decorar a rua porque é isso que a família sempre fez.

Se calhares em Arcos nesta altura, chega cedo à manhã da procissão, antes de os tapetes serem pisados. É uma janela de poucas horas. Depois disso é só flores esmagadas no chão, ainda bonito, mas já não é a mesma coisa.

Agosto: nove dias de Nossa Senhora da Lapa

Se só puderes escolher uma altura do ano para vir, é esta. As Festas em Honra de Nossa Senhora da Lapa, organizadas pela Associação Folia, tomam conta do centro da vila entre 2 e 10 de agosto, nove dias direitos que misturam fé, música e aquele tipo de convívio que só existe quando meio concelho volta a casa ao mesmo tempo. O programa muda de ano para ano nos nomes dos artistas, mas a estrutura repete-se: rusgas populares a abrir, um festival de folclore chamado "Terras de Valdevez", noites de cantares ao desafio, um Dia do Emigrante que é tão importante quanto qualquer concerto porque é quando a diáspora regressa, um festival internacional de folclore com o nome "O Mundo a Dançar" que traz grupos de fora do país, um concurso agrícola que lembra que isto continua a ser terra de lavoura, uma procissão etnográfica, e a Festa do Rio, com barcos decorados a descer o Vez. Fecha tudo com fogo de artifício sincronizado com música na última noite.

Vale a pena saber que parte da programação acontece na Ínsua do Vez, no Ecoparque do Vez, à beira-rio, onde o ambiente é mais relaxado do que no centro histórico durante os concertos maiores. Se preferes ver as pessoas a dançar do que ouvir um artista de nome grande, é para lá que deves ir.

Onde ficar durante as festas

Agosto em Arcos enche rápido, e as opções de alojamento na vila não são muitas. A Pousadinha da Juventude é a escolha óbvia para quem não quer gastar uma fortuna e não se importa de partilhar espaço: quartos simples, boa localização para andar a pé até ao centro, e o tipo de ambiente onde acabas a falar com quem também veio pela romaria. Reserva com antecedência, porque nesta semana específica esgota.

O fim de agosto e o início de setembro: a grande romaria da Peneda

Esta é outra escala completamente. A Romaria de Nossa Senhora da Peneda decorre de 31 de agosto a 8 de setembro no santuário da Peneda, na freguesia da Gavieira, já dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a cerca de 50 quilómetros do centro de Arcos de Valdevez pela estrada do Mezio. É considerada a maior e mais impressionante romaria de todo o Alto Minho, e não é exagero: sobem milhares de peregrinos, muitos vindos a pé desde aldeias próximas, e a devoção galega junta-se à portuguesa porque a fronteira ali é uma linha imaginária no meio da serra.

O santuário em si já vale a subida fora da romaria: a escadaria monumental, construída em 1854 pelo mestre Francisco Luís Barreiros, tem cerca de 300 metros e vinte capelas com cenas da vida de Cristo, ladeada por estátuas que representam a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória. Mas é durante a romaria que o lugar ganha outra dimensão: na noite de 6 para 7 de setembro, gente de todas as idades dança ao som de concertinas junto ao santuário até às sete da manhã, sem paragem. Não há carrosséis nem barracas de farturas a mascarar o essencial, e é exatamente essa ausência de espetáculo comercial que torna a coisa genuína. É uma romaria que se mantém praticamente igual há duzentos anos, e sente-se.

Quem quiser combinar a subida à Peneda com caminhada organizada em vez de ir por conta própria, vale a pena olhar para os passeios guiados a miradouros em Arcos de Valdevez, que dão contexto histórico ao território que estás a atravessar, algo que se perde facilmente quando se vai sozinho e com pressa.

Comer e beber depois da procissão

Depois de um dia de festa, ou de uma subida à Peneda, a vila tem duas moradas que resolvem bem as duas partes do problema. Para comer, o Flume Restaurante & Bar junto ao rio Vez é a escolha certa quando queres sentar-te com vista para a água depois de um dia inteiro em pé: cozinha portuguesa sem complicações, ambiente descontraído, e a localização faz toda a diferença numa noite de agosto quente. Para a parte da noite, sobretudo se as festas da Lapa já acabaram e ainda te apetece prolongar o convívio, o Retro Bar Galerias é onde a vila continua depois de a música da praça parar. Não é sofisticado, e não devia ser: é bar de bairro, cerveja fria, boa conversa.

O resto do circuito de romarias do Minho

Se a tua viagem coincide com uma destas festas e ainda tens dias livres, vale a pena saber que Arcos de Valdevez não está isolado neste calendário. O Minho inteiro vive de romarias e feiras entre maio e setembro, e há vizinhos que merecem desvio. Em maio, Barcelos organiza a sua própria versão do género com a Festa das Cruzes, uma das mais antigas do país e bem diferente em tom da Peneda: mais urbana, mais feira, menos peregrinação. E já agora, se passares por Barcelos de manhã, esquece o hotel: onde os locais tomam mesmo o pequeno-almoço antes do mercado é uma boa forma de perceber a cidade antes de ela encher de visitantes.

Para quem prefere trocar romaria por vinho, Melgaço fica a menos de uma hora de carro e tem o seu próprio ritmo, mais ligado às vindimas de alvarinho do que a procissões. Vale a pena olhar para o roteiro de um fim de semana entre alvarinho e termas em Melgaço se quiseres esticar a viagem por mais um ou dois dias depois das festas de Arcos.

Como chegar e o que levar

Arcos de Valdevez fica a cerca de 40 quilómetros de Braga, uma viagem de pouco mais de meia hora de carro, e a cerca de 47 quilómetros de Viana do Castelo. Não há ligação direta de comboio, mas há autocarros regulares da Rede Expressos a partir de Braga, com a viagem a demorar cerca de uma hora e um quarto. Se o plano incluir subir à Peneda, o carro deixa de ser opcional: é a única forma prática de lá chegar, e nos dias de romaria o trânsito na estrada do Mezio pode ficar lento, por isso conta com tempo extra.

Uma nota prática sobre roupa: mesmo em agosto, à noite na Peneda, a mil metros de altitude, o vento da serra faz-se sentir. Leva uma camisola. Ninguém te avisa disto até já lá estares a tremer às três da manhã a ver dançar concertinas.

  • Romaria de Nossa Senhora do Castelo: início de junho, tapetes de flores, centro de Arcos de Valdevez
  • Festas de Nossa Senhora da Lapa: 2 a 10 de agosto, nove dias de programação no centro e no Ecoparque do Vez
  • Romaria de Nossa Senhora da Peneda: 31 de agosto a 8 de setembro, santuário da Peneda, Gavieira, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês

Nenhuma destas datas foi desenhada a pensar em turistas, e é precisamente por isso que valem a pena. Chega com tempo, calça sapatos confortáveis, e deixa que o calendário local, e não um roteiro qualquer, decida o ritmo da visita.

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